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ZOT!, o quadrinho que revelou Scott McCloud

Pouca gente sabe que, antes da bibliografia teórica sobre a linguagem dos quadrinhos, explicada em quadrinhos, Scott McCloud escreveu e desenhou trinta números de uma inovadora revista chamada Zot.

Zot ficou conhecida, primeiro, por misturar elementos de super-heróis tipicamente norte-americanos com a gramática da escola japonesa, num visual idiossincrático e então muito incomum, ainda no final da década de 80. Frank Miller já experimentara essa mistura em Ronin, depois copiado nas Tartarugas Ninja. Mas eram exceções. O filé mignon está entre as edições 10 e 30.

Zot encaixa a amizade-que-não-é-namoro entre adolescentes no contexto de dois mundos. Jenny mora no nosso mundo, Zot vem de seu mundo futurista e hipertecnológico visitá-la, atravessando um portal de dimensões. Mesmo que as primeiras histórias não passem de bem construídas HQs de super-heróis, onde a leveza de Zot em combate lembra as piadas do Homem-Aranha, já nota-se um claro simbolismo entre o apego de Jenny ao mundo perfeito de Zot e seu receio de amadurecer, num momento de vida em que as provas finais são um drama homérico.

Depois, as histórias evoluem para conflitos mais sofisticados, onde McCloud usa vilões clichê para explorar temas que transcendem bem versus mal – a dominação das máquinas, a desumanização. Na trama romântica que corre em paralelo, Jenny divide sua atenção entre Zot e Woody, dois candidatos a namorados, sem se decidir por várias edições. A arte, desajeitada de vários modos – Scott é o primeiro a assumir suas limitações como desenhista – evolui, explorando com grande efeito paisagens de texturas, arquitetura e interiores.

Um golpe de roteiro que prende Zot no nosso mundo, mudando completamente o tom, para concentrar nos dramas pessoais dos coadjuvantes, cria o ponto alto da série. Scott demonstra grande sensibilidade no desenvolvimento de conflitos pessoais, conferindo densidade a personagens até então monocromáticos, como Wendy.

Jenny finalmente se decide por Zot a Woody, e isso dispara a melhor história, quando Zot pergunta a ela se quer, nesses termos, fazer sexo com ele: uma edição inteira de dúvida, lapsos e gaguejos típicos de quem está indeciso quanto a si mesmo. Zot precisa ser muito mais lido e conhecido.

Rafael Lima

Rafael Lima escreveu nas revistas eletrônicas Sobrecarga, Falaê, Burburinho e Digestivo Cultural; hoje, prefere desenhar. Ainda hoje, tem uma ligação afetiva com os quadrinhos independentes das décadas de 80 e 90, os quais mantiveram seu interesse em continuar lendo. Morou vários anos fora e, hoje, acha engraçado quando se usa o termo "importado" para referir ao quadrinho não nacional. Não tem gatos nem cachorros.

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