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Watchmen S01EP06: “This Extraordinary Being”

Contém spoiler, se for alérgico, evite o texto antes de assistir o episódio.

“O uniforme de um homem o muda. Tenham certeza de que os seus mudem vocês para melhor”.

Desde o primeiro episódio de Sopranos, em 1999, a HBO mostrou que estava disposta a mudar as regras do jogo, e que as séries alcançariam um novo patamar.

Foi o que vimos com Breaking Bad (2008 – 2013) e Mad Men (2007 – 2015), ambas exibidas pela AMC, e Game of Thrones, da própria HBO (antes das últimas duas temporadas, que jogaram o nível da série no fundo do poço).

Lembro de assistir “A Batalha dos Bastardos”, nono episódio da sexta temporada de GOT e pensar: “Ok, isso é mais real do que a maioria dos filmes com batalhas medievais que eu assisti”.

O Mandaloriano, da Disney, é superior a quase tudo que eu assisti de Star Wars nos últimos tempos, deixando, inclusive, os novos filmes para trás.

Com maiores investimentos e mais tempo para explorar cenário e personagens, uma série com bom roteiro e bom diretor, não fica devendo nada para o cinema, muito pelo contrário, em alguns casos, até mesmo pelos fatores mencionados, pode ser uma experiência melhor.

Chegamos então a “This Extraordinary Being”, uma obra de arte onde cada elemento funciona com a exatidão de um relógio.

Para alcançar o nível da obra de Alan Moore, Damon Lindelof, criador da série, precisaria ter coragem, e isso não falta no sexto episódio de Watchmen.

Ângela, como visto no episódio anterior, tomou uma grande quantidade de pílulas de Nostalgia, uma droga que carrega as memórias de outra pessoa, neste caso, de seu avô; o que a leva para uma viagem pelo passado de Will Reeves.

Reeves, que entrou para a força policial no final da década de 30; um policial negro, em um país repleto de racistas, incluindo muitos dos seus companheiros de farda.

Não demora para perceber que não o querem ali; isso fica claro quando policiais brancos o humilham, espancam e o ameaçam de enforcamento, caso continue “metendo seu narigão negro em assuntos onde não é chamado”. É no mesmo dia em que sofre as agressões, que Reeves, vestindo o capuz com o qual seria enforcado, salva um casal de assaltantes.

Como policial ele pouco poderia fazer pela comunidade, mas como um herói mascarado sim, então, surge o “Justiça Encapuzada”, o primeiro dos vigilantes, inspiração para tantos outros.

Espere um pouco, você pode dizer, mas o Justiça Encapuzada era branco, dava para ver os olhos através da máscara.

Sim, a esposa de Will usa maquiagem para deixar a parte da pele visível através do capuz, branca, porque segundo suas palavras: “não vai fazer justiça com um distintivo, Will. Vai fazer justiça com esse capuz, e se quiser continuar sendo um herói, o povo precisa acreditar que um deles está por baixo”.

Logo, o primeiro vigilante a surgir em Watchmen é negro, mas esconde sua cor para ser aceito. Ele também é gay, pois nos é revelado que tinha um caso com o Capitão Metrópoles, mas também esconde sua sexualidade, pois, para o público, tal comportamento é impensável. É bom lembrar que na história em quadrinhos, a heroína Silhoutte é expulsa dos Minutemen e pouco tempo depois assassinada por ser lésbica. 

Reeves é um homem em busca de justiça, com raiva e medo, escondendo-se atrás de um capuz.

Ele confronta a KKK, mas sem a ajuda de seus colegas vigilantes, porque, assim como o Comediante já havia mencionado nos quadrinhos, os Minuteman não estavam interessados nos verdadeiros problemas da sociedade, mas sim em esmurrar vilões fantasiados e ganhar publicidade, uma verdadeira piada.

As lutas entre o Justiça Encapuzada e os racistas da KKK são cruas, brutais, críveis, e sem necessidade de apelar para câmera lenta (que certos diretores tanto amam). A fotografia em preto e branco e a trilha sonora contribuem para o clima noir. Os cortes de uma cena para a outra são muito bem executados, com soluções criativas, derivadas do fato de que Ângela está tendo acesso à algumas memórias de seu avô, mas não todas.

O episódio todo é focado no avô de Ângela, no que ele precisou enfrentar e em como se transformou no Justiça Encapuzada, mas, apesar disso, sabemos que ela está em uma luta para sair do coma, com a detetive Laurie Blake tentando ajuda-la de todas as formas possíveis.

Ao conseguir sair do coma, ela está ciente, como nunca esteve antes, do seu legado.

Levando em conta apenas os seis episódios exibidos até agora, em especial este último, Watchmen caminha fácil para ser uma das melhores séries do ano, talvez a melhor.

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