Quer mais este assunto nerd? Nos visite diariamente.

Watchmen S01EP02: “Martial Feats of Comanche Horsemanship”

Contém spoiler, se for alérgico, evite o texto antes de assistir o episódio.

“Tem gente que acha que o mundo é bom e justo. Cheio de pirulitos e arco-íris. Eu lembro o que aconteceu com os meus pais. Você lembra o que aconteceu com os seus pais. Eu e você não acreditamos em pirulitos e arco-íris, Topher. Sabemos que são só cores bonitas que escondem como o mundo é: preto e branco”.

Ângela / Sister Night

Na década de 40, nos Estados Unidos da América, a segregação racial estava institucionalizada pelas Leis Jim Crow, que, nos estados do Sul, desde 1870, seguia o princípio de “separados, mas iguais”, na prática, mantendo os negros como cidadãos de segunda classe, com estabelecimentos se recusando a atendê-los, piores escolas, acentos diferentes em ônibus, teatros e restaurantes.

Em 07 de dezembro de 1941, o Japão ataca a base norte-americana em Pearl Harbor, provocando a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial.

Diga, se você fosse um negro, arriscaria a vida na Europa, lutando por um país que o tratava daquela forma, ainda que a luta fosse contra os nazistas, que se consideravam uma raça superior?

No começo deste episódio, presenciamos mensagens sendo atiradas de aviões alemães, e caindo sobre uma unidade de soldados norte-americanos negros, questionando sua lealdade a um governo que os tratava como inferiores.

Verdadeiro.

A mensagem também registrava que não fazia sentido lutar contra os alemães, visto que em seu país, sob o comando de Hitler, negros possuíam os mesmos direitos que os brancos.

Falso.

As leis raciais de Nuremberg, para proteção do sangue e da honra alemã, promulgadas em 1935, um ano após Hitler assumir como Führer, o supremo líder da nação, estabeleciam que tanto judeus, quanto negros, não poderiam casar ou ter relações sexuais com pessoas de sangue alemão.

A mensagem lançada para os soldados possuía uma mentira escondida atrás de uma verdade.

Nem tudo é o que parece ser, verdadeiro ou falso, preto ou branco, bom ou mal, embora Sister Night, a vigilante cujo papel tem sido crucial na trama, acredite firmemente nessa perigosa dicotomia, como demonstrado em sua fala para a filha adotiva, Topher, transcrita no começo deste texto, ou em seu uniforme, que ao imitar uma freira, se resume às duas cores.

Supremacistas brancos matando policiais por defenderem negros.

Brancos pobres culpando negros pobres por seus infortúnios, motivados em grande parte pelas leis de reparação financeira às vítimas de ataques raciais violentos, criadas pelo atual presidente Robert Redford.

Policiais atacando brancos pobres sem provas, como vingança pela morte de seu comandante.

Em meio a tantas certezas, não há espaço para dúvidas, e o ódio guia as ações de ambos os lados, embora Sister Night esboce uma preocupação legítima com o rumo dos acontecimentos, acrescentando uma primeira pincelada de cinza em seu mundo.

Figura importante no início de suas dúvidas é Will, o garoto que perdeu os pais no massacre de Tulsa em 1921, e que no final do primeiro episódio, já com mais de 100 anos, é encontrado por Ângela (identidade secreta de Sister Night) na cena da morte do comandante Crawford.

Ele está velho, parece confuso em alguns momentos, jura que é o responsável pela morte do comandante, e está certo de que há uma grande conspiração em andamento e que Ângela deve procurar pelos esqueletos escondidos no armário.

Um desses esqueletos fará a visão de mundo de Ângela estremecer, assim como uma saída dramática de cena.

Se na HQ temos os Contos do Cargueiro Negro, história em quadrinhos sobre um náufrago que tenta desesperadamente retornar para sua vila, para salvá-la, agora, temos uma série dentro da série, chamada American Hero Story, que falará sobre os Minuteman, antigo grupo de super-heróis, que logo em seu primeiro episódio mostra o Justiça Encapuzada, mais violento do que nunca.

Metalinguagem sobre metalinguagem.

E o velho Ozymandias parece mais perturbado do que nunca, o que é reforçado pelo que acontece com um dos seus servos, e ele tem um plano.

Quem leu a HQ sabe que ele não se importa com as consequências desde que atinja seu objetivo, o que pode incluir a morte de milhões de pessoas.

Watchmen segue como uma série instigante, que não veio para dar respostas fácies e que incomoda. Se em sua HQ, Alan Moore nos apresentou um mundo prestes a ser destruído por uma divisão de poder entre União Soviética e Estados Unidos, respectivamente os representantes supremos dos sistemas Comunista e Capitalista, agora, Damon Lindelof tem a coragem de falar sobre um momento diferente, com uma nação rachada pela tensão existente entre ricos e pobres, brancos e negros, em um barril de pólvora prestes a explodir.

Talvez Alan Moore remova a suposta maldição que colocou em Lindelof, porque a série realmente se parece com algo que ele escreveria.

Não, provável que não, ele, assim como a maioria dos fãs ardorosos deve seguir odiando.

Bacana, mas Lindelof não foi um dos criadores de Lost junto com J. J. Abrams?

Você não tem medo de que o final de Watchmen seja tão ruim quanto o de Lost?

Tente não se lembrar disso, apenas tente não se lembrar.

você pode gostar também