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Watchmen S01EP01:

Contém spoiler, se for alérgico, evite o texto antes de assistir o episódio.

Caso você tenha passado as últimas três décadas fazendo companhia para o Dr. Manhattan em Marte, Watchmen é uma história em quadrinhos dividida em doze partes, escrita por Alan Moore, desenhada por Dave Gibbons e publicada entre 1986 e 1987.

É considerada uma das melhores histórias em quadrinhos de todos os tempos. Na lista da revista Time, dos 100 melhores romances e das 10 melhores Graphic novels de língua inglesa, publicados entre 1923 e 2005, Watchmen aparece em ambas as categorias.

Possui fãs ardorosos e alguns deles não gostam nem um pouco da ideia de que revisitem o cenário, e o próprio autor gosta menos ainda, tecendo duras críticas às adaptações de suas obras, incluindo o filme dirigido por Zack Snyder em 2009, que teve uma recepção morna tanto de crítica quanto de público.

Só por aí, já dá para ter uma dimensão do vespeiro onde foi mexer Damon Lindelof, roteirista da nova série da HBO, que, inclusive, deu declarações onde diz acreditar que foi amaldiçoado por Alan Moore: “Com toda a sinceridade, estou convencido que foi colocada em mim uma maldição mágica por Alan Moore. Eu realmente estou sentindo os efeitos psicológicos de uma maldição”.

Sim, eu sei, difícil de acreditar, mas Moore se autodenomina como bruxo e, se você pesquisar no Google pelo autor e der uma olhada na aparência dele, talvez dê um pouco de razão para Lindelof.

Eu nunca fui o tipo de fã que considera histórias como sagradas e intocáveis, e, para falar a verdade, ainda não sei bem o que pensar após assistir esse primeiro episódio.

O que posso dizer logo de cara, é que a série ignora o filme, retratando o futuro dos quadrinhos, mas possui uma identidade própria, sem optar por um roteiro simplista.

O episódio surpreende já em seu início, nos levando para o ano de 1921, em um massacre que realmente ocorreu, quando brancos supremacistas atacaram a comunidade negra de Tulsa, no estado de Oklahoma, queimando residências, ferindo milhares de pessoas e matando centenas de negros.

O tema do racismo está presente em todo o episódio, e, creio eu, também deve estar nos demais. Um grupo de supremacistas brancos, utilizando a máscara do falecido vigilante Rorschach e se autodenominando “A Sétima Cavalaria” declara guerra contra a polícia e contra a “suposta” farsa da invasão alienígena, decorrente da aparição da Lula Gigante que morreu e matou milhões de pessoas em Nova York, no final da década de 80.

Eles são os responsáveis pela “noite branca”, quando em 2016, também na cidade de Tulsa, diversos policiais foram atacados, com diversos feridos e mortos.

A escolha da máscara e do nome não são por acaso. A Sétima Cavalaria foi uma unidade do exército norte-americano que ficou famosa principalmente pela batalha de Little Big Horn, onde, liderada pelo tenente-coronel Custer, enfrentou um número muito maior de indígenas e foi completamente dizimada, resultando na morte de 263 soldados. Os índios venceram esta batalha, mas perderam a guerra, uma vez que a marcha para o oeste foi implacável, com os colonos e o exército massacrando os nativos.

Já a máscara do vigilante revela a mesma tendência do grupo a enxergar o mundo sem tons de cinza, sem meio termo, apenas o bem e o mal, o certo e o errado, o preto e o branco, sempre em movimento, mas jamais se misturando.

Embora Rorschach seja um dos personagens mais carismáticos da HQ, não há dúvida de que tem sérios distúrbios e uma moralidade, no mínimo, questionável; nacionalista, repleto de preconceitos e capaz de classificar como lapso moral o estupro da primeira Espectral pelo Comediante.

É nele que a Sétima Cavalaria se inspira, em uma dicotomia perigosa, onde aqueles que pensam da mesma forma são o bem e os que pensam diferente são o mal, justificando qualquer tipo de agressão.

Os policiais, que no passado condenaram os vigilantes e as máscaras, agora abraçam ambos. Com medo de sofrerem atentados simplesmente por serem policiais, todos passam a utilizar uma máscara amarela, mesma cor do Smile, símbolo do comediante e fortemente associada à HQ de Moore. Além disso, os vigilantes, antes proibidos de agir e caçados, passam a atuar lado a lado com a polícia.

Ainda é difícil dizer quem é quem, e é bom não arriscar apontando mocinhos e bandidos, mas o saldo é positivo, e para um primeiro episódio que precisa nos apresentar como estão as coisas após 30 anos, e novos personagens como os vigilantes Sister Night e Looking Glass, funciona bem, e faz com que eu queira assistir aos próximos.

Desculpe, o que você perguntou?

Se a série é tão boa quanto a história em quadrinhos?

Não repita essa pergunta!

Jamais repita essa pergunta!

Diz a lenda que se você perguntar isso três vezes, segurando o encadernado de Watchmen na frente do espelho, Alan Moore aparece e leva sua alma embora.

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