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Watchmen: “O Abismo também contempla”

Esta história foi publicada no século passado, então, sim, tem spoiler.

Watchmen, publicado entre 1986 e 1987, considerado por muitos como a obra prima de Alan Moore (apesar do escritor também ter em seu currículo outras histórias sensacionais como “V de Vingança” e “Monstro do Pântano”), junto com Cavaleiro das Trevas de Frank Miller, foi responsável por descontruir a forma como os super-heróis eram vistos até a década de 80.

Entre seus personagens, um dos mais carismáticos, e, certamente, também um dos mais problemáticos, é Rorschach, o anti-herói que se recusou a se aposentar após a aprovação da lei Keene, que proibia a atuação dos mascarados.

É, no mínimo, curioso que tantas pessoas se identifiquem com Rorschach, ainda mais após lerem o Capítulo VI, cujo título “O Abismo também Contempla”, faz referência à obra do filósofo Nietzsche: “Não enfrentes monstros sob pena de te tornares um deles, e se contemplas o abismo, a ti o abismo também contempla”.

A história revela os traumas de infância e os eventos que levaram Walter Kovacs a abandonar sua identidade civil e assumir de vez a máscara de Rorschach.

Ela começa com Kovacs preso e sendo entrevistado pelo Dr. Malcolm Long, um psiquiatra disposto a ganhar fama através de sua recuperação. O doutor Long não parece ser muito inteligente, pois, pelo menos no princípio, não consegue identificar que o homem considerado o terror do submundo, mente ao dizer que enxerga uma linda borboleta ou flores lindas quando olha imagens no teste de Rorschach.

Long também não percebe que, enquanto ele analisa Kovacs, o vigilante faz o mesmo com ele, com resultados, digamos, mais eficientes.

Sem pai, com uma mãe que se prostituía por trocados e o agredia verbalmente e fisicamente, o que motivou Kovacs a vestir a máscara de Rorschach pela primeira vez foi o assassinato de Kitty Genovese, esfaqueada diversas vezes enquanto seus vizinhos assistiam: “estuprada, torturada, morta. Aqui, em Nova York. No lado de fora do próprio prédio. Quase quarenta vizinhos ouviram gritos. Ninguém fez nada. Ninguém chamou a polícia. Alguns ficaram assistindo. Está me entendendo? Alguns até assistiram”.

Este assassinato brutal e a indiferença dos vizinhos não são invenção de Moore, Genovese realmente existiu e foi morta próximo de sua residência no Queens, resultando na publicação de um artigo de jornal duas semanas depois e na investigação do que viria a ser conhecido como “Síndrome de Genovese” ou “Efeito Espectador”, onde quanto maior o número de pessoas assistindo um ato violento sem nada fazer, maior a chance de um indivíduo permanecer inerte.

Você já deve ter visto uma dessas charges onde uma pessoa está se afogando e várias outras estão filmando com o celular ao invés de ajudar, não é mesmo?

É basicamente isso.

Em Watchmen, a realidade é alterada pela presença dos vigilantes e do Dr. Manhattan, algumas vezes drasticamente, outras sutilmente, como no caso de Genovese. Antes de morrer, ela encomendou um vestido na fábrica onde Kovacs trabalhava. Vestido feito com o novo tecido criado por Manhattan, com manchas pretas se movendo na cor branca sem jamais se misturarem. Após ver o resultado ela desistiu do vestido por considera-lo feio, enquanto Kovacs pensou exatamente o oposto, e o levou para casa. Há uma razão para isso, mas falaremos mais sobre isso em breve.

Após ler sobre o assassinato de Genovese e a apatia dos vizinhos, Rorschach sentiu vergonha por ser um humano: “Já sabia o que as pessoas eram por trás dos subterfúgios, das mentiras. Com vergonha da humanidade, fui para casa, peguei os restos do vestido que ela não quis e fiz um rosto que eu pudesse tolerar quando olhasse no espelho”.

O próprio Kovacs, no entanto, revela ao psiquiatra que ainda não era Rorschach, estava apenas fingindo ser. Faltava um evento que o afastasse para sempre de qualquer esperança na humanidade ou em um poder maior regendo o universo.

Este evento viria na figura de Blair Roche, uma menina de seis anos de idade, sequestrada por engano, e cujo salvamento virou obsessão de Rorschach.

Após espancar vários criminosos, o vigilante foi informado sobre seu possível paradeiro, em uma confecção abandonada no Brooklyn, mas ao invés de salvar a jovem, descobriu que ela já havia sido morta, esquartejada e que seus restos mortais haviam sido dados de comer para os cães que vigiavam o local.

É aqui que Kovacs se torna definitivamente Rorschach, é quando ele abre mão de qualquer tom de cinza em sua visão sobre os acontecimentos. Sobre matar um dos cães com um golpe de cutelo na cabeça ele diz: “O impacto percorreu meu braço. Um jato morno atingiu meu peito feito torneira de água quente. Foi Kovacs quem disse “Jesus”, sob o látex. Foi Kovacs quem fechou os olhos. Foi Rorschach quem abriu depois”.

Assim como o branco e o preto que jamais se mesclam no látex de sua máscara, Rorschach não enxerga meio termo, apenas o bem ou o mal, sem atenuantes ou justificativas, um ato maligno merece punição de acordo com sua própria visão de mundo.

Outra característica do vigilante também ligada à sua máscara e nome, é o fato de que ele não enxerga qualquer sentido ou padrão na nossa existência, apenas aqueles que nós mesmos atribuímos após observá-la por um longo tempo: “Não são forças metafísicas vagas que moldam este mundo. Não é Deus quem mata as crianças. Não é o destino que as trucida ou a sina que as dá de comer para os cães. Somos nós. Só nós”.

Enfrentando monstros, assim como sugere o título, Rorschach tornou-se um deles, e ao conhecer a verdade sobre o que aconteceu com Kovacs, ao contrário do que pretendia, o “bom” doutor Long é quem acaba transformado.

Ele agora também enxerga a humanidade em tons de branco e preto, e a vida como uma jornada solitária e sem sentido.

Teriam os leitores que admiram Rorschach visto monstros ou contemplado o abismo por tempo demais?

Existe espaço para o cinza?

Watchmen está disponível em um encadernado da Panini, já foi adaptado para o cinema pelo diretor Zack Snyder, e recentemente teve o seu futuro narrado em uma série realizada pela HBO.

Também rendeu as séries “Antes de Watchmen” publicada em 2012, e “O Relógio do Apocalipse”, ambas pela DC Comics.

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