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Vídeo Locadora: Tempo de Matar (1996)

Eu amo o cinema, uma arte que une tantas outras, e em suas telas, histórias, mundos, universos ganham vida, nos emocionam, fazem rir, chorar e em muitas ocasiões, refletir.

Joel Schumacher, que nos deixou neste ano de 2020, é provavelmente um dos diretores mais injustiçados; constantemente lembrado pelos seus dois filmes do Homem-Morcego, quando interpretou erroneamente os anseios dos fãs, ele também tem em sua filmografia obras como “Um Dia de Fúria” (1993), sobre o qual já falamos nessa coluna, e “Tempo de Matar” (1996), sobre o qual falaremos hoje, e que certamente se encontra na categoria dos filmes que nos fazem pensar, especialmente sobre racismo e justiça, dois temas que ganharam os holofotes e as manchetes na semana passada, com o “Dia da Consciência Negra” (20 de novembro) e a morte de João Alberto, homem negro, após ser espancado nas dependências do Supermercado Carrefour na cidade de Porto Alegre, desencadeando uma onda de protestos.

Na trama, após ter sua filha de 10 anos, estuprada, espancada com requintes de crueldade e largara para morrer por dois racistas embriagados, Carl Lee Hailey (Samuel L. Jackson), antes mesmo do julgamento, dispara com um fuzil contra eles, matando ambos e ferindo gravemente um policial, que posteriormente terá sua perna amputada.

O promotor Rufus Buckley (Kevin Spacey) imediatamente pede pela pena de morte, e Lee contrata para defendê-lo, o advogado Jake Brigance (Matthew McConaughey), muito menos experiente que seu adversário e passando por dificuldades financeiras em seu escritório de advocacia.

Schumacher não deixa margem para interpretações sobre o que ocorreu, houve um estupro, os estupradores eram assumidamente racistas, Carl Lee foi o autor dos disparos que matou ambos. O roteiro seguirá então o julgamento de Lee, e os acontecimentos dele decorrentes, explorando a forma como a Justiça enxerga as ações do réu e o inferno em que se transforma a vida de Jake Brigance, por aceitar defende-lo.

A motivação de Lee para fazer o que fez vai além do crime bárbaro do qual sua filha foi vítima, está na crença enraizada de que os estupradores sairão impunes, ou então, receberão uma punição branda diante do que fizeram.

Antes mesmo de atirar contra a dupla de racistas, Lee procura Brigance e lhe questiona sobre um caso semelhante, quando quatro brancos estupraram uma menina negra na região do Delta, e não foram condenados. Na penumbra, ele quer saber se Brigance o ajudará, caso ele esteja encrencado; ali já havia decidido que tomaria a justiça em suas próprias mãos, e o advogado, embora claramente perceba sua intenção, opta por não avisar as autoridades.

Interessante a análise feita por Luciene (Donald Sutherland), antigo mentor de Brigance e que perdeu sua licença para advogar, tornando-se um alcoólatra: “Tenha em mente que o sr. Hailey é culpado, pelo nosso sistema legal, que não admite que alguém faça justiça com as próprias mãos. Ele assassinou duas pessoas. Duas pessoas que estupraram sua filha de dez anos. Sabe, você pode ganhar essa causa, e a justiça será feita, mas perca, e a justiça ainda será feita. Essa é uma causa estranha”.

A questão não é definir se Carl Lee é culpado ou não de ter assassinado duas pessoas, mas se as circunstâncias que o levaram a cometer esse crime são suficientes para inocentá-lo, mais do que isso, é se as pessoas que irão julgá-lo, o farão sem levar em conta a sua cor, e a dos estupradores que ele matou.

O fato do promotor Buckley lutar por um júri de brancos, enquanto Brigance tenta conseguir jurados negros revela que a justiça pode ser cega, mas enxerga sim a cor da pele, além dos recursos financeiros a disposição do réu.

Carl Lee é negro e pobre, e apesar dos esforços de Brigance, é julgado por um júri composto unicamente por brancos. Reveladora é a fala de Lee ao explicar para seu advogado porque insistiu em contratá-lo: “Minha vida na mão de brancos. Você, Jake, é assim. Você é minha arma secreta por ser um dos bandidos. Não que você queira, mas é. Foi criado assim. Crioulo, negro, preto, afro-americano. Não importa como me olhe, para você eu sou diferente. Você me vê como o júri me vê”.

O termo não é utilizado, mas Carl Lee praticamente define em poucas palavras o que é “racismo estrutural”, e é a percepção dessa falta de empatia, da capacidade de se colocar na pele do outro, que renderá o discurso final de Brigance, sobre o qual falaremos posteriormente.

Se é difícil para um branco se colocar no lugar de um negro, é bem mais simples para um pai se colocar no lugar de outro. Uma das principais motivações para Jake seguir defendendo Lee, apesar das ameaças e dos ataques da Ku Klux Klan, e dos inúmeros pedidos de seus familiares e amigos para abandonar o caso, é o fato dele ter uma filha e imaginar o que faria se o mesmo acontecesse com ela.

É essa mesma empatia entre pais, que leva o policial Dwayne Looney (Chris Cooper) que foi baleado por Lee e teve a perna amputada, uma das principais testemunhas da acusação, em outra cena marcante, a defender o acusado, revelando que se sua filha fosse estuprada, faria o mesmo, e pedindo pela sua soltura.

Embora o racismo e a justiça sejam os focos de “Tempo de Matar”, tanto roteiro quanto a direção de Schumacher não se mostram dispostos a tratá-los por um único ângulo. Ellen Roark (Sandra Bullock), a brilhante estudante que se oferece para ajudar Brigance de graça, o faz por ser uma oponente ferrenha da pena de morte, mas descobre posteriormente que o advogado de defesa acredita na pena capital: “Gostaria de voltar aos tempos da forca se pudesse. O problema com a pena de morte é que não a aplicamos o suficiente. Carl Lee não merece a pena de morte, os que estupraram sua filha, sim”.

Personagens como o reverendo Ollie Agee (Thomas Merdis) e o reverendo Isaiah Street (Joe Seneca) insistem que Carl Lee está sendo julgado unicamente por ser negro, ignorando que, como dito por Lucien, de fato ele assassinou duas pessoas, e que cometeu um crime pelo sistema legal norte-americano. Mais do que isso, aliados à NAACP, (Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor) se mostram muito mais interessados em fazer do julgamento uma base para suas reivindicações, do que nos interesses de Lee, que ao perceber isso, rechaça ambos e mantém seu advogado.

É bom lembrar que a câmera de Schumacher não mostra o estupro, vemos as compras caindo ao lado da menina, o rosto de seus algozes, suas mãos sendo amarradas, o céu e as árvores desfocados, o galho da árvore onde tentam enforcá-la partindo, seus gritos pedindo pelo pai, mas não seu rosto ou o ato em si; não é necessário, nossa imaginação já nos leva para o horror e o sofrimento que permeia cada segundo.

O discurso final de Brigance, seu último recurso para convencer o júri a inocentar Carl Lee, conta com essa imaginação e apela para a empatia que até então se mostrava inexistente, pedindo que todos fechassem os olhos, e narrando passo a passo o estupro da pequena Tonya Hayley (Rae’Ven Kelly), acrescentando em seu final, um detalhe importante, “imaginem essa menina com a pele branca”.

Um soco no estômago dos personagens e de quem assiste.

Com personagens repletos de nuances, um elenco estelar, uma direção que sabe extrair o máximo de seus atores e um roteiro que nos faz refletir sobre o que é racismo, suas ramificações e todo sofrimento que já causou, “Tempo de Matar” é uma obra que merece ser assistida, ainda mais em tempos onde insistimos em resumir assuntos complexos e apresentar soluções simplistas.

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