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Vídeo Locadora: Te Pego Lá Fora (1987)

Te Pego Lá Fora. Quando fugir do problema só o piora.

A década de 80 é fértil em comédias para adolescentes, sendo que destas, John Hughes é o rei, com seus icônicos filmes “Clube dos Cinco” (The Breakfast Club, 1985), Mulher Nota Mil (Weird Science, 1985) e, provavelmente o maior sinônimo deste gênero, “Curtindo a Vida Adoidado” (Ferris Bueller´s Day Off, 1986).

Também da década de 80, porém, menos conhecido do que as obras de Hughes, temos “Te Pego Lá Fora”, dirigido por Phil Joanou, cuja trama gira em torno de dois estudantes, Jerry Mitchell (Casey Siemaszko) e Buddy Revel (Richard Tyson).

É bom que se diga, logo de cara, que a escolha dos atores não é o que se pode chamar de acertada. Explico, ambos tinham 27 anos quando interpretaram estes papéis, e, apesar de Siemaszko conseguir disfarçar a idade (não com perfeição), é praticamente impossível olhar para Tyson e acreditar que Buddy é realmente um adolescente.

Na história, acompanhamos Jerry Mitchell, estudante do Ensino Médio, que além de estudar, trabalha na livraria e escreve para o jornal da escola. Ele recebe a missão de fazer uma matéria sobre um aluno recém chegado, Buddy Revel, cujo passado é lendário.

Para explicar quem é Revel, e o que ele fez, o diretor faz com que a câmera acompanhe diversos estudantes que estão chegando na escola, saltando de grupo em grupo, enquanto eles comentam sobre os seus feitos. Ele já quebrou o pescoço de um aluno, já ameaçou um professor com uma faca e socou outro apenas porque este o tocou; ele não suporta ser tocado.

Em cerda de um minuto você já sabe tudo o que precisa saber, o que é reforçado pela sua chegada, figurino e interpretação de Tyson. Se o ator é incapaz de nos fazer acreditar que seu personagem é tão jovem quanto deveria ser, não há dúvida de que consegue seu principal objetivo, se mostrar uma ameaça real e da qual todos devem se manter afastados.

É claro que não haveria história caso todos fossem prudentes e mantivessem distância, então, Jerry o aborda de forma desastrada no banheiro, tentando conseguir a entrevista da qual foi encarregado de fazer. Enquanto gaguejava e tentava se explicar, o estudante comete o erro de tocar no braço de Revel, que se enfurece e marca uma briga para as três da tarde, na saída da escola.

Temos a premissa que guiará o filme, Jerry tentará a todo custo evitar o confronto com Revel, uma vez que sabe não ter chances.

Os ponteiros do relógio são uma constante, aparecem constantemente, fazendo com que lembremos de que o horário da luta se aproxima lentamente, levando a um senso de urgência.

Em mais de uma ocasião vemos imagens de predadores e de suas presas, como um vídeo onde um escorpião ataca um grilo indefeso. A professora lembra da luta entre os míticos Aquiles e Heitor de Tróia, e de como o troiano foi derrotado e morto; em todos os casos há a grande desproporção de forças entre aqueles que se enfrentam, assim como a luta da qual Jerry tenta fugir.

Implorar para Revel não brigar, pagar para outro aluno bater nele, incriminá-lo pondo uma faca em seu armário, fugir da escola, tentar ficar de castigo após a aula, contar a verdade, Jerry tenta de tudo, e a cada nova tentativa de escapar da luta, sua situação piora, se torna mais complicada, mais insolúvel.

A atuação de Siemaszko e os closes que a câmera dá em seu rosto, nos fazem perceber o quanto está desesperado, perdido, sem saber o que fazer, enquanto o tempo se esvai.

Já Tyson, Arnold Schwarzenneger e seu exterminador do futuro, não precisa fazer nada além de parecer ameaçador, com um roteiro que pouco exige de sua atuação.

Há, no entanto, uma cena em que Revel está frente a frente com Jerry no ginásio da escola, sozinhos, e Jerry lhe oferece dinheiro para não lutar. Ele aceita, e a expressão de Tyson revela todo o desprezo que o personagem sente por quem se acovarda.

Logo depois temos um plano geral, com Jerry sozinho no ginásio, insignificante, cabeça abaixada, braços caídos, sentindo-se humilhado.

É o momento em que ele percebe que a dor física não é a pior das dores, é aqui que ele decide enfrentar Revel.

Assim como o primeiro filme da franquia Rocky, em que o protagonista enfrenta Apolo, ciente de que não é tão bom quanto o campeão, não é o resultado da luta mais importa, mas a decisão de não recuar diante de uma luta, mesmo que todos apostem em sua derrota.

É lógico, torcemos por Jerry, ele não merecia estar naquela situação, e Revel é o valentão que usa de sua força para espancar os mais fracos, mas fato é que a maior batalha, contra o medo, foi vencida muito antes do primeiro soco ser dado, e vibramos quando ele diz para Revel que não é covarde e irá lutar.

Não é difícil imaginar que muitos que sofreram bullying no passado e aceitaram calados, gostariam de voltar e ter a chance de fazer o mesmo, dar a volta por cima e se transformar em uma lenda dentro da própria escola.

Te Pego Lá Fora parte de uma premissa que logo ganha o público, a luta entre um sujeito tranquilo contra um valentão muito mais forte, e nos leva para uma jornada onde cada movimento visando fugir do problema, só o piora, até que, finalmente, o protagonista cria coragem para enfrenta-lo.

Bem executado, esse roteiro não tem como dar errado, e é exatamente o que o diretor Phil Joanou faz, criando assim um filme que, se na época não foi tão bem recepcionado pelo público (arrecadou menos do que custou), hoje é considerado um clássico dos anos 80.

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