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Vídeo Locadora: Eles Vivem (1988)

A sociedade adormecida segundo John Carpenter.

O que se esconde por trás das mensagens subliminares?

 

“Por que foi que cegamos? Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão. Queres que te diga o que penso? Diz! Penso que não cegamos, penso que estamos cegos. Cegos que veem, cegos que, vendo, não veem”.

José Saramago, Ensaio sobre a Cegueira

Sutileza não é a palavra que melhor descreve “Eles vivem” (1988), roteiro e direção de John Carpenter; aqui, as metáforas não estão nas entrelinhas, e uma vez que nos damos conta da premissa que guiará seu universo, elas saltam da tela e nos atingem diretamente, sem que haja espaço para dupla interpretação.

Na trama, John Nada (Roddy Piper), um andarilho e trabalhador braçal, chega em Las Vegas à procura de emprego. As ruas que ele percorre revelam um cenário decadente, com aqueles que vivem à margem da sociedade enfrentando desemprego, falta de moradia e comida racionada.

Após obter um emprego temporário em uma construção, John conhece Frank (Keith David) que o leva até um acampamento improvisado onde eles podem dormir, obter comida e um banho quente.

Do acampamento é possível observar os prédios altos e imponentes da cidade, revelando o contraste entre o luxo e o poder financeiro, e a pobreza. John, no entanto, revela que ainda acredita no sistema: “eu dou duro o dia inteiro por dinheiro, eu só quero uma chance, e ela virá. Eu acredito na América, eu sigo as regras. Todo mundo leva uma vida difícil hoje em dia”.

Essa crença inabalável no sistema irá desmoronar quando ele obtém um par de óculos pretos que lhe permitem enxergar o mundo como ele “realmente é”.

As revistas, os jornais, os outdoors e toda e qualquer propaganda, enxergados através dos óculos, perdem o colorido e em preto e branco revelam seus reais propósitos: obedeça! Nada de pensamentos independentes! Consuma! Não questione autoridade! Case-se e reproduza!

Além disso, os óculos fazem com que ele veja a real aparência de indivíduos que nos cercam, com suas faces monstruosas. Ficaremos sabendo mais tarde que são na realidade seres alienígenas, que escondidos, comandam a sociedade humana e tudo aquilo que ela considera importante. Seu propósito é nos manter “adormecidos”.

Eles vivem, como diz o título, nós dormimos.

Perceba, no entanto, que utilizar os óculos por muito tempo causa desconforto, dor de cabeça, e é preciso removê-los. É a metáfora da Caverna de Platão, que mais tarde seria tão bem explorada em “Matrix” (1999) das irmãs Wachowski. Uma vez fora da caverna, a luz exterior incomoda, cega, mas aos poucos, com a visão se acomodando, você percebe que estava preso em um mundo de sombras.

A TV, é claro, ocupa papel central nesse plano de dominação dos alienígenas, é ela que transmite o sonho americano, vemos o Monte Rushmore e uma águia voando, símbolos dos Estados Unidos da América, uma mulher diz que sonha em ser famosa: “quando eu vejo TV, eu deixo de ser eu mesma e sou a estrela de uma série ou tenho meu próprio programa, ou estou nas notícias, saio do anonimato e sou importante”.

Em contraposição com sua fala, podemos recorrer ao que diz Tyler Durden em “Clube da Luta” (também de 1999): “somos subprodutos de uma obsessão por um estilo de vida. Assassinato, crime, pobreza, essas coisas não me interessam. O que me interessa são revistas de celebridades, televisão com 500 canais, o nome de um cara na minha cueca…Todos nós fomos criados vendo televisão para acreditar que um dia todos seríamos milionários, deuses do cinema e estrelas do Rock, mas nós não somos. Devagar vamos aprendendo isso, e nós estamos putos”.

É uma emissora de TV a responsável por enviar o sinal que faz o mundo inteiro enxergar o que os alienígenas desejam; vale lembrar que estamos falando do final da década de 80, quando a televisão ainda reinava absoluta, sem sofrer a devastadora concorrência da internet.

Carpenter também abre espaço para mostrar que os donos do mundo possuem aliados humanos, gente que sabe o que está acontecendo, mas se aliam em troca de contas bancárias gordas, muitas propriedades e bens de consumo.

E para proteger o sistema vigente, obviamente, uma força policial bem armada e pronta para intervir sempre que alguém começa a se mostrar inconveniente. Discursos subversivos e pessoas capazes de enxergar as mensagens por trás de toda a propaganda, são perseguidos.

Se a cosmologia do filme se sustenta muito bem, o mesmo não se pode dizer dos atores; Roddy Piper era um astro da luta livre com capacidade de atuar bastante limitada. Você pode inclusive testemunhar golpes típicos da luta livre durante uma briga que dura uma eternidade entre John, personagem de Piper, e Frank.

Quando o amigo se recusa a usar os óculos e ver “a verdade”, John o obriga, primeiro tentando o diálogo, e quando esse recurso falha, utilizando a força bruta. Uma metáfora bastante polêmica, acordar os adormecidos à força.

Os demais atores são um pouco melhores, mas não muito, Keith David e nem Meg Foster, que de mocinha indefesa revela não ter nada, arremessando John pela janela de seu apartamento.

Os óbvios problemas na atuação são obscurecidos pela história, que acaba nos cativando, e entregando um grande filme. Se você não conhece John Carpenter aqui é um ótimo ponto de partida.

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