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Video Locadora: Batman de Tim Burton

Este filme está na locadora há um bom tempo, então tem spoilers.

Em 1986, Frank Miller já havia nos brindado com aquela que ficaria conhecida por muitos, como a melhor história do Batman de todos os tempos: “O Cavaleiro das Trevas”, revelando um Batman mais velho e muito mais violento.

Em 1988, atendendo o desejo do público que votou pela morte de Jason Todd, Jim Starlin nos mostrou na HQ “Morte em Família”, que o Coringa nada tinha de engraçado, com o vilão espancando o segundo Robin com um pé de cabra, e depois o deixando para morrer em uma explosão.

E nas telas do cinema e da TV, o que nós tínhamos?

Bem, até aquele momento, Batman e Robin eram, respectivamente, Adam West, com sua inconfundível barriguinha, e Burt Ward, que estrelaram a famosa série dos anos 60, um amontoado de onomatopeias, frases de efeito, e roteiros que definitivamente não foram feitos para se levar a sério.

Quer saber o quão galhofa era?

Procure no Youtube por Batman surfando com o Coringa, e veja com seus próprios olhos, com destaque para o incrível Bat Repelente de Tubarão.

Compreendendo perfeitamente do que se tratava a série, Cesar Romero, que se recusou a raspar o seu bigode, o escondendo com maquiagem, tratou de interpretar o vilão como um palhaço, muito longe de ser assustador.

Imagine então, a alegria dos fãs quando souberam que a Warner iria produzir um novo filme do Batman, a mesma Warner que, uma década antes, havia levado Superman para as telas do cinema.

Hoje, vocês estão muito mal-acostumados, tem filme de super-herói para tudo que é lado, eles são a galinha dos ovos de ouro de Hollywood, mas no final da década de 80, esqueça, não tínhamos nada, e aceitávamos o que viesse.

Qualquer coisa era lucro, mas Burton chutou o pau da barraca quando escolheu Michael Keaton para ser o Batman, já que existia uma dúzia, não, uma centena de atores melhores para interpretar o morcego.

Sorte de Burton que não existia internet, caso contrário, ele seria crucificado nas redes sociais. Pense na escolha de Robert Pattinson, e multiplique por 10, esse era o nosso grau de descontentamento. Jesus Cristo, pensávamos, esse cara é um ator de comédia franzino, o que ele tem a ver com o Batman?

Aqui é um ponto chave para compreender o filme que chegou aos cinemas em 1989; aquele ainda não era o herói dos quadrinhos, mas sim a visão do diretor para o Batman. Não era o que queríamos, mas era muito melhor do que havia até então.

Logo de cara somos apresentados a memorável trilha sonora de Danny Elfman. Se ao ouvirmos John Williams nos lembramos automaticamente do Homem de Aço, Elfman marcou para sempre a trajetória do Homem Morcego nos cinemas.

Depois, temos Gotham City, e em pouco mais de dez minutos, o filme nos diz tudo que precisamos saber sobre a cidade. Primeiro, ao contrário da Gotham de Christopher Nolan, que, pelo menos visualmente, lembra uma metrópole como tantas outras, esta tem uma arquitetura única, sombria, suja, gótica, perfeita para o nascimento de um herói noturno.

Descobrimos também que a prefeitura está falida, que a criminalidade explodiu e que corre entre os marginais a lenda de um morcego gigante que os ataca durante a noite.

A estética lembra demais os antigos filmes noir, incluindo roupas, carros e armas utilizadas pelos gangsteres.

Eis que surge Keaton vestido como Batman para ameaçar dois assaltantes, e, bom, ele se esforça, e não é tão ruim quanto a tragédia que antecipávamos, em grande parte devido ao traje.

Nos quadrinhos, sendo um mestre em artes marciais, Batman opta por um traje que permita movimentos ágeis, e conta com os fiéis roteiristas para jamais (ou quase nunca) ser trucidado pelos projéteis das armas disparadas contra ele.

O diretor coloca o pequeno e nada musculoso Keaton em uma armadura negra que suporta os tiros e o torna mais ameaçador. Confie em mim, se o ator vestisse a roupa cinza tradicional dos quadrinhos, ficaria tão ridículo quanto Adam West.

O Robin também é descartado, um menino de calção verde e roupa vermelha não faria sentido dentro deste universo.

O Batman de Burton não é um atleta soberbo, é um órfão milionário que gastou tempo e dinheiro para desenvolver uma grande quantidade de equipamentos para permitir que ele combatesse o crime sem ser mortalmente ferido. Ele até conhece artes marciais, mas não é esse o seu forte, são os seus brinquedos, como o próprio Coringa diz.

O Coringa, o que dizer sobre o Coringa de Jack Nicholson?

O nome do ator vem antes do nome de Michael Keaton nos créditos, e não é para menos, tem mais peso, e em diversos momentos, ele rouba o show, o que, vamos combinar, já é uma tradição em filmes onde o Batman enfrenta o Coringa.

Diferente de Heath Ledger e Joaquin Phoenix, que sofreram uma completa transformação ao interpretar o personagem, é possível ver muito de Nicholson em seu Coringa. Ainda assim, ele entrega um vilão que se posiciona em um meio termo entre o palhaço e o psicopata, com cenas engraçadas como ele colocando óculos e perguntando ao Batman se ele bateria em alguém com óculos, e cenas violentas, como ele eletrocutando um gangster adversário até incinera-lo.

As cenas do museu e do desfile ao som de Prince são um espetáculo à parte.

Finalmente, temos a repórter Vichi Vale, interpretada por Kim Basinger, o par romântico de Bruce Wayne. Ah, sim, o milionário aqui não demora para se apaixonar pela mocinha, mas, como era de se esperar, o manto do morcego é um obstáculo.

Vale está quase sempre vestida de branco, contrastando com as roupas negras que Wayne veste, oposição entre esperança e trevas.

Esqueça o Wayne estilo James Bond, charmoso, seguro e capaz de seduzir qualquer mulher. Por ter se dedicado a combater o crime, o milionário se mostra perdido em alguns momentos, sem saber o que dizer.

Algumas escolhas são bem problemáticas, como a decisão de permitir que o Batman mate.

O Batman explode uma indústria química repleta de capangas do Coringa, e tenta fazer o mesmo com o vilão atirando bombas e atirando com metralhadoras de sua aeronave.

Pois é, essa é uma grande mudança em relação aos quadrinhos, e o roteiro erra também ao alterar o passado do herói, vinculando o assassinato dos pais de Wayne à Jack Napier, que viria a se tornar o Coringa.

Napier matou os pais de Wayne criando o Batman, e depois o Batman cria o Coringa ao jogar Napier em um tanque de produtos químicos.

Coincidência desnecessária e que nada acrescenta à trama.

Sim, o filme de Tim Burton não é perfeito, pelo contrário, tem muitos erros, mas na época foi uma excelente oportunidade de assistir um herói sombrio e distante do cômico.

Por mais que tenha tentado, Keaton permanece sendo um erro, e no segundo filme, voltaria a ser ofuscado por Danny DeVito (Pinguim) e Michelle Pfeiffer (Mulher Gato).

George Clooney poderia ser um Batman muito melhor, mas ele acabou sendo escalado para viver o Morcego em uma catástrofe cinematográfica que nos faria ter saudades de Keaton, em um dos dois filmes dirigidos por Joel Schumacher, mas falamos sobre isso em outra oportunidade.

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