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Vídeo Locadora -A Mosca (1986)

Chocante e Repugnante, o diretor David Cronenberg cria sua própria versão de “O Médico e o Monstro”.

Certa manhã, ao acordar de sonhos intranquilos, Gregor Samsa encontrou-se, na sua cama, metamorfoseado em um inseto monstruoso”.

Franz Kafka, A Metamorfose.

Se fosse no universo dos quadrinhos, guiado pela mente criativa de Stan Lee, o destino do protagonista, Seth Brundle (Jeff Goldblum), seria se tornar um herói, o Homem-Mosca, ou algo do gênero, mas, infelizmente, por ser personagem de um filme de Cronenberg, se viu mergulhado em um pesadelo Kafkiano.

Verônica Quaife (Geena Davis) encontra Brundle em uma festa onde estão reunidos diversos cientistas, ela está procurando por uma matéria para sua revista, e o cientista diz estar prestes a criar algo que mudará o mundo como nós o conhecemos. Ela aceita (de modo bastante imprudente, é bom que se diga) acompanha-lo até seu laboratório, onde ele irá lhe mostrar do que se trata.

Ele está desenvolvendo uma máquina de teletransporte, e já conseguiu a proeza de transportar objetos inanimados de uma cabine para outra. Sua dificuldade está em conseguir transportar seres vivos, sem que eles sejam virados do avesso no processo, como literalmente acontece com uma de suas cobaias, um babuíno que se transforma em uma massa ensanguentada, em uma cena que já prepara o público para o que está por vir durante o longa.

Brundle convence Quaife a acompanhar sua busca pelo aprimoramento de sua invenção, registrando todo o processo para posteriormente publicar um livro.

A personalidade do cientista fica bem evidente, sem que precise ser explicada em detalhes, ele mora e trabalha no mesmo lugar, diz para Quaife que lhe contou a respeito da invenção porque sentiu necessidade de conversar com alguém sobre o seu trabalho, o que indica a falta de amigos com quem possa falar, e ao ser questionado pela jornalista sobre o fato de nunca mudar de roupa, revela que, para não perder tempo escolhendo o que vestir, adquiriu cinco conjuntos idênticos, com as mesmas camisas, ternos, gravatas e sapatos.

Brundle respira ciência e seu principal objetivo, aquilo que o move, é concluir sua invenção.

A literatura está repleta de casos onde, homens da ciência, acreditando estarem diante de uma descoberta que trará benefícios para a humanidade, e dispostos a tudo para isso, enfrentam as consequências de seus atos impensados; entre eles, dois dos mais famosos são o Dr. Victor Frankenstein e seu monstro, criados por Mary Shelley, e o Dr. Jekyll, de O Médico e o Monstro, escrito por Robert Louis Stevenson.

A Mosca de Cronenberg, uma refilmagem de “A Mosca da Cabeça Branca” (The Fly), dirigido por Kurt Neumann em 1958, encontra suas maiores semelhanças com a obra de Stevenson.

Em “O Médico e o Monstro”, ao tentar separar o seu lado bom dos seus instintos mais primitivos, o Dr. Jekyll liberta uma segunda personalidade, Mr. Hyde, com o qual passa a dividir o mesmo corpo.

Após finalmente obter sucesso ao teletransportar um segundo babuíno, Brundle, bêbado, sucumbe à tentação de testar a máquina e teletransportar a si mesmo. O que ele não percebe é a presença de uma mosca dentro de sua cabine, e o computador que controla o teletransporte, sem saber o que fazer com dois organismos ao mesmo tempo, funde ambos.

Como resultado, em um primeiro momento, sem alterações físicas perceptíveis, Brundle se sente ótimo, renovado, com mais energia e disposição, capaz de feitos que antes lhe seriam impossíveis.

Ele chega, inclusive, a tentar obrigar a jornalista, que se transformou também em sua namorada, a ser teletransportada, pois, sem saber sobre a fusão com a mosca, acredita que sua invenção é capaz de purificar corpo e mente da pessoa, ao desintegra-la e reintegra-la.

É ao obter o não da jornalista, assustada, que seu lado animal se manifesta com violência pela primeira vez.

O que o telespectador testemunha no decorrer do longa, não é apenas a lenta e repugnante transformação do corpo de Brundle (cortesia de uma maquiagem que garantiu o Oscar para o longa em 1987) em uma mosca gigante, mas sua mente, que também acompanha o processo, abandonando gradativamente a sua humanidade.

Cronenberg não poupa o público, exibe o grotesco sem restrições, com direto à pedaços do corpo caindo e vômito corrosivo para derreter os alimentos, imitando a forma de se alimentar de uma mosca.

Ele também deixa nossa imaginação trabalhar, como a cena em o chefe e ex namorado de Quaife, Stathis (John Getz) assiste um vídeo gravado por ela. Nele, o cientista explica como ele se alimenta, vomitando ácido sobre a comida sólida, liquefazendo-a e depois ingerindo a gosma resultante.

Quando Brundle está prestes a vomitar na comida, a câmera corta para o rosto de Stathis, nós vemos o nojo estampado em sua face, ouvimos os sons, e, apesar de não assistirmos o que está acontecendo, criamos a imagem em nossa mente, com tamanha nitidez que é impossível não sentir repulsa.

Em sua fase final, quase que inteiramente transformado, o cientista conversa com Quaife: “Já ouviu falar de política de insetos? Nem eu. Insetos não tem política. São brutos, sem compaixão, sem concessões. Não podemos confiar neles”.

Brundle está consciente de que é este lado que está vencendo, e que ele está se transformando em uma ameaça para Quaife, por não ser mais capaz de resistir aos seus impulsos.

Pessoas sem compaixão e que não fazem concessões existem aos montes em nossa sociedade, algumas acabam presas, outras encontram uma maneira de utilizar essas características a seu favor, e se adaptam ao meio. O que condena Brundle não é sua mente de inseto, mas sua aparência grotesca.

Apesar de ter mencionado Stathis apenas uma vez neste texto, ele terá um papel importante junto à Quaife, principalmente no terceiro arco do filme, quando precisa apoiá-la em uma terrível decisão e protege-la de Brundle, agora quase que inteiramente transformado em mosca.

Definitivamente não é um filme para pessoas mais sensíveis, e apesar de sua maquiagem e efeitos especiais serem da década de 80, ainda causam um grande impacto.

Um confronto entre humano e monstro que envelheceu bem e que vale a pena ser visto ou revisto.

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