Quando éramos reis

Usagi Yojimbo, as aventuras do Coelho Samurai vencedor do Eisner

As aventuras de um samurai sem mestre errante, no Japão feudal, matando a torto e a direto? Lobo Solitário, gritariam imediatamente oito entre cada dez leitores de quadrinhos independentes da década de 80. Pois os oito estariam errados: nesse caso, o samurai é um coelho. Estamos falando de Usagi Yojimbo, de Stan Sakai.

Os resumos da carreira de Stan Sakai costumam dar destaque ao seu papel como o letrista do Groo, de Mark Evanier e Sergio Aragonés. Isso deveria ser uma detalhe. Seu trabalho como autor (roteirista, desenhista, arte-finalista) em Usagi Yojimbo é muito mais relevante, inclusive pelo fôlego: Usagi Yojimbo é dos raríssimos gibis independentes aparecidos entre 1980 e 1999 ainda em publicação, perto de completar 40 anos. Nesse período, atravessou por 4 editoras: Fantagraphics, Dark Horse, Mirage e IDW.

Os animais antropomorfizados são usualmente associados com gêneros infantis, o que provoca a tentação de explicar Usagi Yojimbo como um Lobo Solitário para crianças. Nada mais falso e incorreto. Lobo tem narrativa tipicamente oriental, contemplativa e magnificamente ilustrada, inclusive nas cenas de violência. Yojimbo é todo construído no rigor das páginas de seis quadros típicas de gibis mensais, que entregam uma história completa por edição, mesmo quando o roteiro se estende por mais de um número. Usagi Yojimbo é fácil de ler e não é um gibi para crianças. A densidade da pesquisa histórica e as ambiguidades morais apresentadas estão mais próximas do teor adulto. Fora que ninguém recomendaria uma história com tanta violência e mortes para crianças.

Os achados visuais de Stan Sakai contribuem para uma leitura sobremaneira agradável. Hachuras precisas adicionam ao preto e branco textura, cor e densidade emocional ao traço arredondado; Sakai cita Milo Manara como modelo. É como se ele adicionasse uma camada de tensão a Groo, sobrepondo-se ao humor. Dribla o problema enfrentado por Art Spiegelman em Maus sobre como retratar bichos de estimação domésticos entre animais antropomorfizados inventando uns mini-dinossauros que se comportam como cachorros. A morte de personagens é sinalizada através de um balão que emerge de cada personagem morto com uma caveira dentro, no formato exato da cabeça do cadáver.

Em 1996, Usagi Yojimbo recebeu um dos maiores prêmios dos quadrinhos na categoria “talento merecedor de maior reconhecimento”. Mais de vinte anos depois, o prêmio ainda se mostra merecido.

Atualização:

Usagi Yojimbo acabou de faturar um Eisner A HQ foi eleita como uma das melhores séries contínuas de 2021.

Rafael Lima

Rafael Lima escreveu nas revistas eletrônicas Sobrecarga, Falaê, Burburinho e Digestivo Cultural; hoje, prefere desenhar. Ainda hoje, tem uma ligação afetiva com os quadrinhos independentes das décadas de 80 e 90, os quais mantiveram seu interesse em continuar lendo. Morou vários anos fora e, hoje, acha engraçado quando se usa o termo "importado" para referir ao quadrinho não nacional. Não tem gatos nem cachorros.

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