Coluna F3

Takagi, a mestra das pegadinhas

Takagi é um mangá escrito e desenhado por Soichiro Yamamoto publicado na Shōnen Sunday, no Brasil a edição ficou a cargo da Panini. A história tem como premissa básica o relacionamento do garoto Nishikata com a bela Takagi. O protagonista é um colegial inseguro, tímido e meio imaturo. Gosta de ler mangás, assistir animes, jogar videogames e detesta estudar. Ele é atormentado pela garota que dá nome ao título, uma menina inteligente, estudiosa, sagaz, que gosta de mangás, animes, sucos e principalmente pregar peças em nosso perdedor favorito, uma espécie de Charles Brown de Schulz, da tira dos Peanuts.

A história como dito gira em torno da interação da dupla, nos capítulos são retratados pequenos causos em que ele procura se esquivar dela ou evitar com que ela o escarne. Mesmo ele sabendo do resultado e buscando evitá-lo ela se aproveita da ingenuidade do rapaz para colocá-lo em maus lençóis. É comum ele ser repreendido pelos professores e até ser obrigado a arrumar a sala de aula sozinho ao ficar incomodado com as brincadeiras da garota.

Não há muitos personagens, é basicamente os dois passando de uma pegadinha para outra, os capítulos sempre apresentam Nishikata querendo, sem sucesso, evitar a zoação da menina, lembra em momentos as maquinações do Wile E. Coyote para pegar o papa-léguas nas animações de Chuck Jones, por mais que o coite tente ele sempre acaba se prejudicando. Apesar do foco estar nesses dois personagens há o aparecimento de outros para compor um universo mais crível.

 Não há um aprofundamento dos personagens, eles não crescem, no sentido de desenvolvimento pessoal, ele não fica mais esperto e ela não dá uma colher de chá. Não há nem mesmo uma ordem de leitura, lendo o último capítulo e posteriormente o primeiro não afeta a compreensão da narrativa, pois são apenas pequenos contos que giram em torno de um chiste.  

Essa é a graça da história, a garota gosta do rapaz e essas brincadeiras são uma forma de se declarar ao menino, é comum ela dizer em alto e bom tom que gosta dele, que é apaixonada por ele, só que sendo um paspalhão imaturo ele não percebe, ou não acredita. As tramas são pequenas, engraçadas, ficamos torcendo pelo casal.

Não há obrigatoriedade de se ter um conhecimento profundo dos personagens, não há tramas de superpoder, monstros dominando a terra ou princesas mágicas. Aqui temos uma comédia de costumes que gira em torno das pegadinhas que Nishikata cai.

A arte é muito boa e simples, os personagens são desenhados de maneira bem caricata num traço delicado e limpo, ele é bem eficiente em transmitir todos os aspectos emocionais dos personagens, mostrando um relacionamento de duas pessoas que se gostam, mas que não conseguem assumir seus sentimentos.

Até o momento a história mostrasse bem interessante, não é cômica, mas diverte, mesmo que em alguns casos o grau de ingenuidade do garoto pareça ser muito excessivo. O mangá está sendo publicado desde 2013 no Japão e já possui 14 volumes, o 15° está previsto para fevereiro de 2021. Essa publicação já ultrapassou a marca de 4 milhões de cópias vendidas, ganhando até uma adaptação para anime, com mesmo nome do mangá, ao todo conta com duas temporadas que podem ser conferidas pelos serviços de streaming Crunchyroll e NetFlix.

Essa combinação de romance, com comédia, um pouco de retrato cotidiano é bem diferente do que é editado hoje em dia em nosso país, é bem gratificante ter acesso a publicações que não sejam de jovens aventureiros enfrentando o mal. Esse é o melhor do mangá, são pessoas comuns enfrentando problemas banais, mas que parecem ser bem mais reais do que muitos personagens dos mangás. A beleza está neles serem falhos, inseguros, estarem aprendendo a viver e acima de tudo aproveitando a sua juventude.

A publicação vai agradar públicos de diversas idades, sua leitura é tranquila e gostosa. É impossível não se simpatizar com o casal de protagonistas e torcer para que eles se entendam. O único problema é que essa temática pode acabar ficando cansativa em algum ponto, até o momento a história é divertida e interessante, mas temo que no futuro possa ficar meio estagnada, espero estar errado, de qualquer forma é uma leitura divertida e descompromissada como um gibi deveria ser, recomendo fortemente a todos.    

Fernando Furtado

Fernando Furtado, formado em cinema pela FAAP, estudou quadrinhos na Quanta Academia de Artes, fez curso sobre a história das HQs com Sônia Bibe Lyuten, oficina de roteiro para HQs com Lourenço Mutarelli, assistente editorial e tradutor na Brainstore editora. Atualmente professor de inglês e advogado.

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