No Século Passado

Super-Homem – Paz Na Terra

Esta história foi publicada no século passado, então, sim, tem spoiler.

O problema são as pessoas – ele costumava dizer – sempre tivemos dificuldade em partilhar. Parece que todos estão ocupados demais garantindo o que possuem para se preocupar com os vizinhos”.

Jonathan Kent

Superman é inegavelmente um dos super-heróis mais poderosos do universo DC, capaz de voar, superveloz, invulnerável e com uma força descomunal, o Homem de Aço tem poucos adversários a sua altura.

Em “Super-Homem – Paz Na Terra” (1998), escrito por Paul Dini e com arte espetacular de Alex Ross, o herói se depara com um vilão cuja imensa crueldade parece estar além de suas forças: A fome!

É véspera de Natal, época em que, segundo o próprio Super-Homem, ao citar Dickens, “a carência é profundamente sentida, e a abundância festejada”.

E é ao atender o pedido de socorro de Jodie, uma jovem que fugiu de casa e que se encontrava à beira da morte por desnutrição, que o problema da fome chama a sua atenção.

É lógico que Super-Homem já sabia do problema da fome ao redor do mundo, em sua identidade secreta ele é um repórter, mas, de tempos em tempos, uma fotografia ou evento nos faz lembrar de que pessoas morrem por não terem o que comer.

Uma das ironias desta história é que o Super-Homem não precisa comer, seu corpo funciona como uma bateria solar, e é de lá que ele obtém sua energia, embora possa se alimentar normalmente.

É possível alguém que nunca sentiu fome se preocupar com os que sentem?

Lembrando-se das palavras de seu pai, Jonathan Kent, “o mundo é capaz de sustentar todas as criaturas. Mesmo hoje, com tantas pessoas, há comida suficiente para todos”, ele decide se dirigir ao Congresso Norte-Americano, onde pede respeitosamente para que, por um dia, lhe seja concedido o direito de distribuir o excedente de alimentos da América para os famintos do mundo, uma vez que colheitas são perdidas nos campos e grãos apodrecem nos armazéns.

Ainda que levantando suspeitas sobre seus reais objetivos (alguns políticos não conseguem compreender que alguém possa ajudar seus semelhantes sem segundas intenções), os congressistas aprovam o pedido.

Voando através do mundo, carregando Contêineres cheios de comida, o Super-Homem começa a distribuí-la pelo povo carente.

Não é surpresa que o Brasil e o Rio de Janeiro estejam entre seus destinos: “em seguida voo para o sul, para países onde quase não existe meio-termo entre a riqueza e a pobreza. A grande cidade abaixo é um doloroso exemplo deste abismo”.

A atitude de ajudar, no princípio, parece a mais acertada possível, animando o herói, mas, a primeira rachadura em seu ato altruísta surge com a simples pergunta de um menino: “Você vai voltar amanhã”?

O silêncio e a incapacidade de responder à pergunta revelam que Super-Homem sabe que sua atitude é como um alívio temporário para uma dor que é sintoma de um mal muito maior.

Não, ele não retornará amanhã, mas a fome sim.

Sua esperança é que seu gesto se transforme em um símbolo e inspire o mundo a mudar sua conduta.

A África também recebe sua ajuda, e é no continente que ele se depara pela primeira vez com um dos grandes obstáculos para o fim do mal que está combatendo. Alguns governantes simplesmente não desejam que a população receba alimentos “em demasia”, pois um povo faminto é mais fácil de se controlar.

Um déspota militar rodeado de soldados muito bem armados informa ao Super-Homem que pretende distribuir a comida pessoalmente, uma óbvia mentira, e ao ser confrontado pelo Homem de Aço, ameaça seu próprio povo.

O herói se vê obrigado a deixar a comida no local, sob pena de iniciar um grande incidente diplomático.

Em outro país ele sequer consegue deixar a comida, um míssil explode o navio que o Super-Homem carregava, e com ele, todo o alimento vira cinzas.

Ao contrário da maioria de suas histórias, nesta, o herói fracassa!

A fome, como ele percebe, não é um mero acidente, mas uma decisão daqueles que estão no poder.

O bem-estar da Terra e de todo o seu povo será sempre minha maior preocupação, mas, se houver uma solução para o problema da fome, ela deverá vir do coração do homem para seu próximo”.

Como não poderia deixar de ser, a história termina com uma mensagem de esperança, com Clark Kent, o fazendeiro, ensinando crianças a plantar.

Paul Dini e Alex Ross nos entregam uma história rápida, sem reviravoltas ou clímax, mas que, partindo de uma premissa interessante, o Super-Homem em uma luta contra a fome mundial, apresenta um belo resultado.

Não é memorável ou indispensável em sua coleção, mas, certamente vale a pena dar uma conferida no material.

Fernando Fontana

Fernando Fontana é escritor e adulto amador, criador do Site Super Ninguém e colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre filmes e quadrinhos antigos. Tá sabendo da novidade? Somos parceiros da Amazon. Vai comprar na Amazon? Utilize o código: canalmetali06-20! e dê uma força para o canal.

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