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Spider-Man: Life in the Mad Dog Ward

O Asilo Arkham do Homem-Aranha.

O dia em que o Homem-Aranha foi parar num hospício.

Você gosta do Homem-Aranha? Acha que leu tudo que foi publicado do personagem?

Se você está no Brasil, não se engane. Todas as editoras saltaram coisas.

Quer um exemplo? Essa saga que vamos contar agora.

Spider-Man: Life in the Mad Dog Ward” história que publicada em Web of Spider-Man (1985) 33, Amazing Spider-Man (1963) 295 e Spectacular Spider-Man (1976) 133. Caso você não saiba, foram exatamente as edições seguintes à Ultima Caçada de Kraven e três números antes da entrada de Todd Macfarlane em Amazing Spider-man.

No Brasil, ela foi varrida para debaixo do tapete por ser uma saga mais adulta que mostrava crianças apontando armas, uma menina quase sendo arremessada de um prédio, além de cenas de violência doméstica e abuso de poder dos médicos de um hospício.

É ruim? Muito pelo contrário. E marca uma das raras vezes (talvez a única) em que o personagem foi escrito e desenhado por mulheres: A roteirista Ann Nocenti, que mais tarde seria conhecida por suas passagens pelo Demolidor e pelo Arqueiro Verde e pela desenhista Cynthia Martin, que na época, estava fazendo uma bela passagem pelo título Star Wars, mas acabou ficando conhecida como a ilustradora da saga Guerra dos Deuses da DC Comics. Os arte-finalistas Steve Leialoha, Kyle Baker e Joe Rubinstein tanto ajudam quanto atrapalham, mas no fim, os traços finos de Martin prevalece e dá um tom melancólico a essa história atípica do Aranha.

Em Web 33, somos apresentados a Vicky Gibbs, seu marido Frank e seus dois filhos Tanya e Jacob. Vicky tem um problema mental e ouve vozes. Ela descobriu que seu marido Frank trabalha para o crime e resolve abandoná-lo. Como ela aciona a polícia, o Rei do Crime decide enviá-la para um sanatório. Frank aceita, pois sabe que é uma opção melhor do que o assassinato de toda a sua família. O ponto é que os garotos fazem uma algazarra e acabam atraindo a atenção de um vizinho chamado Peter, que não consegue tirar a frase de Tanya da cabeça: “Qual é o problema da mamãe”?

Chegando ao sanatório, ele descobre que as crianças já estavam lá, sofrendo a represália de uma pequena milícia. O Aranha é abatido e levado para o hospício, onde é submetido a tantas drogas que mal consegue organizar seus pensamentos. Secretamente, alguns pacientes eram submetidos a procedimentos e transformados em assassinos. O Rei do Crime tinha um arranjo com o chefe dos psiquiatras que tinha um prazer pervertido em realizar as tais experiências. Alias, ele sabe que o novo interno era o verdadeiro Homem-Aranha, e pretende realizar vários experimentos. Também conhecemos dois experimentos: Zero, o Mad Dog que não consegue sentir raiva e assume uma identidade mais heroica e Brainwave, ou Mad Dog 2020, um interno que através de hipnose e drogas, a equipe faz com que ele acredite estar em sonhos onde pode liberar sua raiva e seu ódio.

É interessante ver o quanto essa história de 1987 aborda temas tão modernos como abandono, abusos, violência doméstica, manipulação de incapazes e da imprensa, além de outros elementos mais adultos que nunca fizeram parte do universo do personagem sem pender para o maniqueísmo. Temos o vilão caricato que só quer infligir dor e sente prazer com isso? Ok, só que mesmo o marido abusador tem tons de cinza. Frank não aceita o destino da esposa e decide salvá-la, até porque seria impossível viver num lar normal após seus filhos terem visto os médicos levarem a mãe. Em mais de uma situação, seus filhos lhe apontam armas e dizem que ele não é mais seu pai, o que o faz repensar todo o acontecido.

O fim da história também nos deixa com um gosto amargo. Assim como no mundo real, o Rei se fez de bonzinho e chamou uma coletiva de imprensa para culpar o médico perturbado, afirmando que ele era o único vilão, e que sua saída resolveria tudo. Assim como na vida, essa história não teve soluções mágicas.

Sim, o Aranha e Vicky se libertaram e tiveram seus finais felizes, mas ela estava tão dopada e apodrecendo num canto, que por um momento, ela teve uma crise de síndrome do pânico e quase não fugiu. Mas tudo deu certo e ela e sua família decidiram criar identidades e procurar um novo lugar para viver.

O mais interessante, é que nos moldes de A Última Caçada de Kraven, as três histórias foram publicadas no mesmo mês, ao longo dos títulos que o personagem tinha na época. Alguns anos depois, a história meio que ganhou uma continuação que não alcançou o mesmo brilho nem teve as assustadoras capas de Bill Sienkiewickz.

Se você gosta de quadrinhos importados, procure o encadernado na Amazon. Ainda vale a pena ler isso em 2020.

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