Coluna F3

Solanin: Os problemas da vida adulta

Solanin – Sobre o que é?

Conheci o trabalho de Inio Asano no ano passado, em meio a pandemia tive o prazer de ler Boa noite Punpun, uma espetacular obra que fala sobre o crescimento de uma pessoa insegura e que está sofrendo depressão, fui muito impactado com esse mangá. Ao ver que a editora LPM relançou os dois volumes de Solanin fiz questão de colocar minhas mãos nesses exemplares, simplesmente adorei, essa obra é tão carismática que ganhou até uma adaptação em live action no ano de 2010 pelas mãos do diretor Takahiro Miki.

Da mesma forma como Boa noite Punpun em Solanin também temos um retrato de um crescimento pessoal, todavia esse quadrinho aborda as dificuldades de se encaixar na vida adulta, os problemas que surgem do trabalho, com o desemprego, com os relacionamentos e principalmente com a própria vida. Solanin foi publicado em 2005 na revista Young Sunday, da editora Shogakakun, foi compilado em dois volumes, infelizmente o material que temos acesso está no sentido ocidental em formato de bolso.

Um Slice of life:

A história em si pode ser considerada uma slice of life (recorte de vida numa tradução livre), um material voltado ao público adulto jovem, que vê as responsabilidades da vida interferirem em seus sonhos. A história é centrada no casal Taneda e Meiko, namorados há seis anos e morando juntos há um ano, ambos estão infelizes com seus trabalhos, ela é assistente, secretária se preferir. Ele por sua vez trabalha como ilustrador em meio período num jornal. O casal sente que sua vida está monótona, desinteressante, sufocante e presa às convenções sociais.

O mangá mostra problemas universais, independentemente do local em que se vive os dilemas são parecidos. Aos poucos seu relacionamento vai mudando, ficando cada vez mais complicado, isso acontece não pela falta de amor e sim por uma sensação de desconexão, ambos se sentem sem lugar no mundo, estão perdidos apenas vagando sem um destino. Assim, Meiko pede demissão de seu emprego e incentiva seu namorado a alcançar o seu maior desejo, o de ser uma estrela do Rock.

Há no mangá um retrato de jovens que não conseguem se tornar parte da sociedade, no Japão é muito importante ao se formar numa universidade conseguir um emprego em tempo integral e iniciar uma família. Os personagens de Solanin não conseguem alcançar esse objetivo, talvez não queiram atingi-lo. Além de Meiko e Taneda a obra apresenta outros três personagens que estão com essas mesmas dúvidas, Bili que trabalha na farmácia de seu pai, é o baterista. Kenichi é um veterano na faculdade, não consegue se formar, ele é o baixista. Finalmente temos Ai, a namorada de Kenichi, ela trabalha numa sapataria como vendedora.

Desinteressante?

A história de Solanin pode até parecer meio desinteressante, mas seus diálogos e personagens são bem construídos, não há nenhuma pessoa com superpoder ou um vilão que queira dominar o mundo. Há pessoas que passam por problemas e dúvidas reais, o traço caricato e solto de Asano dá um tom meio cômico as ações. As imagens são muito bem elaboradas. Há muitas brincadeiras visuais e piadas sendo mostradas no fundo. O autor muitas vezes se vale de fotografias de objetos, paisagens e edificações, que não atrapalha em nada na leitura, muito pelo contrário valoriza ainda mais a arte dessa grande obra.

A história parece ser meio simples, mas esse é o motivo dela ser tão universal. Quase todos os personagens são divertidos, é muito fácil se acostumar com eles. Mesmo que esse tema já tenha sido o mote de incontáveis filmes, séries televisivas, livros e quadrinhos, há um certo frescor em Solanin. Muitas das agruras e os desconfortos dos personagens parecem ser traumas que o autor exterioriza através de suas “criaturas”. Esse talvez seja um dos problemas da obra, não me incomodo com o ritmo mais lento, essa cadência permite que a obra flua mais lentamente. Todavia, os problemas desse grupo de amigos são muito parecidos.

O casal principal acaba enfrentando a dura realidade de forma muito diferente, enquanto ele ainda sonha em ser reconhecido como músico, Taneda é conformado com a posição social que ocupa, ele aceita a sociedade e não a questiona tanto. Já Meiko está mais desconfortável, sente o peso da idade e a pressão que os jovens com vinte e poucos anos sofrem para se encaixar. Diferentemente de Boa Noite Punpun essa história é mais leve, bem humana, talvez essa seja a razão de ter sido indicada para várias premiações

Conclusão:

Finalizando acredito que histórias com as quais nos identificamos são mais eficazes e mais poderosas. Apresentando uma realidade sem charme, sem soluções fáceis e sem a segurança de um final feliz. O mangá pode ser resumido numa expressão, “E agora?”, não é apenas uma questão simples e trivial. É uma excelente obra, por mais que eu frise ser universal a sua leitura não é para todos, uma boa parcela da população nunca teve acesso ao ensino superior ou mesmo se preocupou em sonhar em ser alguém que faz o que gosta. É um estudo humano mostrando pessoas crescendo, há aqui o retrato de um amadurecimento que tenta respeitar a liberdade individual e uma busca pela sua própria identidade, é uma obra cativante e interessante, com um pouco de humor e romance, simplesmente incrível.    

Fernando Furtado

Fernando Furtado, formado em cinema pela FAAP, estudou quadrinhos na Quanta Academia de Artes, fez curso sobre a história das HQs com Sônia Bibe Lyuten, oficina de roteiro para HQs com Lourenço Mutarelli, assistente editorial e tradutor na Brainstore editora. Atualmente professor de inglês e advogado.

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