Quando éramos reis

Sin City, a cidade do pecado

Quando Sin City primeiro apareceu, foi um momento eureka para a indústria de quadrinhos: Frank Miller nasceu para fazer essa história! O preto-e-branco, o clima noir, os personagens durões, a cidade sem lei: cada linha posta no papel de Demolidor até Batman parecia ter sido um ensaio para o que se viu na Dark Horse Presents, em 1991.

Frank Miller vinha experimentando há alguns anos: influências japonesas, hachuras de Moebius e Manara (em Ronin); Bernie Krigstein, Sergio Toppi e Hugo Pratt (em O Cavaleiro das Trevas); line claire belga (Elektra Vive). Em Sin City, há uma rara mistura do tempo narrativo dos mangás, o branco e preto de alto contraste caindo para o abstrato de Alberto Breccia e Jim Steranko e a novela policial de Los Angeles, com efeito explosivo. A indústria saudou a inovação com uma cascata de prêmios, e reconheceu sua importância – Paul Chadwick chegou a desenhar uma minissérie inteira do Concreto, Killer Smile, no tom de Sin City.

O tempo, entretanto, mostrou que Sin City não poderia ocupar o lugar que lhe reservaram na prateleira das obras-primas. Suas ambições tinham um quê de limitadas.

Primeiro, porque nunca transcende o gênero, assumindo assim que não quer jogar na liga principal. Segundo, porque o excesso de páginas não corresponde a uma complexidade maior de tramas e personagens, somente a um exercício de estilo mais longo. Há quem diga que exatamente nessas iterações está o valor da obra. Alguns roteiros, inclusive, dão a impressão de terem sido construídos em tempo real, sem o planejamento que elimina trechos enfadonhos e redundantes. Terceiro, é lamentável notar como o padrão de qualidade do traço decai com o tempo – pouco, o suficiente para notar como um artista decai.

Por isso mesmo, o maior valor de Sin City está nas histórias curtas, crônicas ou piadas que se resolvem em poucas páginas, muito melhores do que as novelas. Sin City é recomendadíssimo, mas para ter a perfeita ideia do valor de Frank Miller para a renovação do quadrinho independente norte-americano, procure conhecer também os mestres de quem ele levou influências.

Rafael Lima

Rafael Lima escreveu nas revistas eletrônicas Sobrecarga, Falaê, Burburinho e Digestivo Cultural; hoje, prefere desenhar. Ainda hoje, tem uma ligação afetiva com os quadrinhos independentes das décadas de 80 e 90, os quais mantiveram seu interesse em continuar lendo. Morou vários anos fora e, hoje, acha engraçado quando se usa o termo "importado" para referir ao quadrinho não nacional. Não tem gatos nem cachorros.

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