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Sandman: O dia em que mil humanos sonharam o mesmo sonho

E que mil gatos tentaram voltar a sonhar.

Sandman: O Sonho de mil gatos.

Esta história foi publicada no século passado, então, sim, tem spoiler.

 

“O gato é um animal críptico e afeito a coisas estranhas, invisíveis ao homem. É a alma do antigo Egito e o guardião de histórias vindas de cidades esquecidas em Meroe e Ofir.  É parente dos senhores da floresta e herdeiro dos segredos da África antiga e sinistra. A Esfinge é sua prima, e os gatos falam a língua dela; mas eles são ainda mais antigos do que a Esfinge, e lembram do que ela esqueceu”

Os gatos de Ulthar (1920) – H. P. Lovecraft

Sim, os gatos, criaturas curiosas, muito diferentes dos cães, e embora existam exceções, sempre me pareceram acreditar que são os verdadeiros senhores do lar, e nós, humanos, seus humildes servos.

Em “Um Sonho de Mil Gatos”, publicada pela primeira vez em Sandman nº 18, em agosto de 1990, Neil Gaiman levou essa teoria a sério, e criou uma fábula sobre um período onde os bichanos, de fato, reinavam absolutos.

Nela, diversos gatos se reúnem durante uma madrugada, para ouvir a palavra de uma única gata siamesa, e ela, tal qual uma profeta, lhes contou a história de sua vida e a revelação que teve durante os sonhos.

Propriedade de um casal de humanos, a gata se sentia feliz com sua vida, tinha um teto, era alimentada, recebia carinho, mas após se relacionar com um gato vira-latas, deu a luz à diversos filhotes, lindos, mas que por serem mestiços não interessaram ao homem, que os lançou em um saco rumo ao fundo de um lago.

“Foi só então que eu descobri o quanto estava enganada; éramos subordinados, e enquanto vivêssemos com os humanos, não poderíamos nos considerar livres”

Não é possível negar que a gata estava certa, nós, seres-humanos, nos vemos como, não apenas proprietários de todo o planeta, mas de todo e qualquer ser vido que nela habita, para dispor de suas vidas como bem entendermos.

Sei que parece papo de vegano, mas não é, trata-se de uma constatação, nada além disso.

A gata compreendeu sua realidade, e logo após, sonhou; e no sonho procurou pelo gato dos sonhos, atrás de respostas.

E o que o senhor do sonhar lhe revelou foi que muitas eras atrás, houve uma realidade em que os gatos eram os mestres e os humanos, os escravos, que os felinos eram gigantescos e os humanos pequeninos e frágeis.

Naquela realidade, os humanos tratavam, alimentavam e acariciavam os felinos, o que, curiosamente, não mudou muito, ainda fazemos isso, quando eles assim o permitem, talvez parte do orgulho que ainda permanece entranhado em sua memória ancestral.

A diferença é que nessa realidade perdida, a crueldade foi reservada aos gatos, que caçam e matam seres-humanos por pura diversão.

Surgiu então um profeta, tal qual a nossa gata do começo da história, e ele teve também sua revelação. Sonhos moldam a realidade e não o contrário, e se mil humanos sonharem o mesmo sonho, um mundo onde os gatos são submissos à vontade deles, então essa será a realidade, a realidade que sempre existiu.

E se os homens habitavam enormes cidades de concreto e saboreavam a sua carne malpassada em uma praça de alimentação qualquer, é porque houve um dia em que mil humanos sonharam o mesmo sonho de liberdade.

Esse foi o pedido da gata siamesa, a palavra que ela vinha espalhando cidade após cidade, para todos os gatos que ela encontrava.

Sonhem com um mundo onde os gatos são os senhores e os humanos nossos bichinhos de estimação, nossa próxima refeição.

A fábula de Gaiman tem poucas páginas, mas deixa aquela pergunta no ar, e se nós não fossemos a espécie dominante? Porque, verdade seja dita, se animais pudessem falar e votar, nós seríamos expulsos deste planeta, porque estamos fazendo um péssimo trabalho.

O engraçado é que não consigo mais olhar um gato dormindo da mesma forma, fico imaginando que ele está sonhando com o tal mundo, mas eu nunca o acordo, porque é uma péssima ideia irritar um deles.

 

 

 

 

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