Quando éramos reis

Rubber Blanket, a desconstrução de David Mazzuchelli

A RUBBER BLANKET de DAVID MAZZUCHELLI

Quando desembarcou no Rio de Janeiro em 1993, para a II Bienal Internacional de Quadrinhos, não havia nenhuma estrela tão badalada quanto David Mazzucchelli. Joe Kubert era lenda viva, Tanino Liberatore era a excelência europeia. Mas o que Mazzucchelli encarnava, naquele exato momento, não tinha igual: o ideal do artista independente, dono de sua própria revista, depois da aclamação nas grandes editoras. Sua revista chamava-se Rubber Blanket.

Mesmo que no Demolidor e em Batman já tivesse introduzido, aqui e ali, elementos expressionistas e góticos, os dois ainda eram essencialmente gibis convencionais, o que só ampliou o impacto transgressivo de Rubber Blanket, uma revista sem personagens, formato ou impressão convencionais (o título é uma peça do equipamento de impressão).

Um projeto com o DNA de seu criador:

Rubber Blanket é indissociável de Mazzucchelli, apesar de ter aberto espaço para outros autores. Em formato grande e identidade visual pretensiosa, como a campeã da pretensão Raw, Rubber Blanket foi sua declaração de princípios à entrada nos quadrinhos autorais.

O traço, todo a pincel, aproxima-se da pintura. Mazzucchelli explora bem o uso de uma cor, mostrando como aprendeu lições do curso de impressão gráfica. As histórias são atmosféricas, sutis, cheias de tempos mortos e super-closes. “Dead Dog” tem um diálogo que se estende por três páginas, suavizado pela variação de planos. “Discovering America” faz um interessante contraponto entre o mapeamento preciso do terreno geográfico e a dificuldade em mapear o comportamento humano.

Uma bola fora da curva:

Ou seja, Mazzucchelli deve ter irritado muito quem chegou ali procurando o Ano Um.

Em uma das mesas redondas em que participou na Bienal do Rio, Mazzucchelli explicou que aquilo era seu projeto pessoal, onde ele torrava a grana que Marvel e DC lhe pagaram para fazer super-heróis. Claramente, era seu pigmaleão. Só saía uma vez por ano. Durou 3 anos, entre 1991 e 1993.

Rafael Lima

Rafael Lima escreveu nas revistas eletrônicas Sobrecarga, Falaê, Burburinho e Digestivo Cultural; hoje, prefere desenhar. Ainda hoje, tem uma ligação afetiva com os quadrinhos independentes das décadas de 80 e 90, os quais mantiveram seu interesse em continuar lendo. Morou vários anos fora e, hoje, acha engraçado quando se usa o termo "importado" para referir ao quadrinho não nacional. Não tem gatos nem cachorros.

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