Quando éramos reis

Rocketeer, o Rei dos Homens-Foguete

O Rocketeer de Dave Stevens:

No começo da década de 80, um surto de nostalgia por seriados de aventura foi disparado pelo filme Caçadores da Arca Perdida, de Steven Spielberg. De repente, foi como se todo mundo decidisse trocar os efeitos espaciais de Guerra nas Estrelas e Tron por aventureiros de casaco de couro, paisagens exóticas, tesouros escondidos, intriga internacional e perigo – exatamente como nas histórias do Pato Donald do Carl Barks; aliás, uma inspiração para o roteiro do filme.

Rocketeer surge para atender essa demanda, à perfeição. Com um traço que evoca Wally Wood e Frank Frazetta, aviadores que parecem saídos das páginas de Jesse Bravo (de Alex Toth, mais um fã da nostalgia), pin-ups de calendário, vilões de monóculo e sotaque europeu, Dave Stevens parecia ter juntado todos os elementos necessários para criar uma série tão memorável como a de Indiana Jones (tão memorável que rapidamente virou filme).

Rocketeer ia ligeiramente além do gibi de gênero, com ambientação das aventuras em localidades reais e interferência de personalidades históricas, como Howard Hughes, na trama. Um dos melhores capistas de sua geração, Dave Stevens mostra excepcional domínio de expressões fisionômicas (caricaturando no tom certo), drapejamento, iluminação e anatomia. Muita coisa para um gibi, mesmo que da caprichosa Pacific Comics.

Rocketeer é aventura incessante, daquelas com pique alto e cheia de ganchos armando o suspense, um deleite de leitura. Stevens evita cair na repetição, apesar do apelo aéreo, e tira o personagem dos céus e o leva para Nova Iorque, na segunda história, driblando as limitações e provando que havia muito a ser explorado

Evidentemente, o tempo para gerar tal excelência mês a mês não era suficiente e, como Cadillacs e Dinossauros, virou uma obra inacabada, apenas dando asas à imaginação do que poderia ter sido – quem sabe, uma série de álbuns, com aventuras atravessando o país e o mundo, interpretado por um ator famoso?

Notas do editor:

É impossivel deixar passar algumas curiosidades e influêcias sobre a obra:

King of Rocket Men:

Uma das inspirações de Dave Stevens claramente foi o seriado de cinema The King of Rocket Men, conhecido por aqui como o Homem-Foguete.

Criado pela Republic Pictures em 1949, o seriado teve 12 episódios. No seriado, um gênio do mal que chama a si mesmo de “Dr Vulcan”, planeja conquistar o mundo, mas antes precisa eliminar os membros da Science Associates, uma organização de grandes cientistas. Após escapar de um atentado de Vulcan, um membro da Science Associates, Dr. Millard (James Craven), constrói um poderoso propulsor a jato e um capacete aerodinâmico, em forma de bala.

Com a ajuda do traje de voo, da fotógrafa Glenda Thomas (Mae Clarke), e usando outras invenções feitas pelo Dr. Millard, King, caracterizado como o Homem-Foguete, batalha contra os associados de Dr. Vulcan.

Apesar das alterações, o conceito é basicamente o mesmo, só que enquanto o seriado lidava com os perigos da quinta coluna e da infiltração comunista, Recketeer era o inimigo dos nazistas.

Além de inspirar Rocketeer, é possivel ver várias semelhanças entre o Homem-Foguete e armadura original do Homem de Ferro. Como a Marvel nunca comentou o assunto, vamos fingir que isso não existiu.

Bettie Page:

Bettie, a namorada modelo do protagonista, foi inspirada em Bettie Page.Page foi uma modelo norte-americana que se tornou famosa na década de 1950 por fotos de temática pin-up e fetichista. Ela é frequentemente chamada de “Rainha das Pin-ups” e seu visual, cuja marca registrada eram os cabelos pretos lustrosos e uma franja, influenciou dezenas de artistas.

Atualmente, com o retorno das pin-ups e o surgimento das modificadas, mulheres tatuadas e ou com piercings e alterações na cor do cabelo (entre outras), é possivel ver várias modificadas inspiradas em Page.

Rocketeer, o filme:

Em 1991, a Disney produziu um filme inspirado nos quadrinhos de Stevens. A proposta era criar uma série de aventuras do Rocketeer , só que deu pouco público e o projeto miou.

O filme contava com Billy Campbell como Cliff Secord/Rocketeer, Jennifer Connelly como Jenny Blake (substituta de Bettie) e Timothy Dalton como o vilão Neville Sinclair.

Por se tratar de um filme da Disney, criaram Jenny Blake como uma substituta da lasciva Bettie Page.

Rafael Lima

Rafael Lima escreveu nas revistas eletrônicas Sobrecarga, Falaê, Burburinho e Digestivo Cultural; hoje, prefere desenhar. Ainda hoje, tem uma ligação afetiva com os quadrinhos independentes das décadas de 80 e 90, os quais mantiveram seu interesse em continuar lendo. Morou vários anos fora e, hoje, acha engraçado quando se usa o termo "importado" para referir ao quadrinho não nacional. Não tem gatos nem cachorros.

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