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REPRENSENTAVIDADE ÉTNICA-RACIAL NAS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS DE SUPER-HERÓIS

Bem-vindos de volta, ilustres fãs de quadrinhos. Nesse novo artigo, vamos continuar falando sobre representatividade. Só que, dessa vez, vamos abordar a questão étnica-racial nos quadrinhos de super-heróis.

Como você já deve ter percebido, muitos leitores de histórias em quadrinhos gostam de acompanhar heróis que tenham algumas de suas características. Em outras palavras, que os representem. Para evitar que as histórias desses personagens sejam cheias de estereótipos, as editoras têm optado por usar roteiristas que façam parte do mesmo grupo minoritário que os heróis.

Como exemplo, podemos citar a Nova Ms. Marvel. Criada por Sana Amanet, com participação de Stephen Wacker e G. Willow Wilson, a revista conta a história da adolescente Kamala Khan, moradora de Nova Jersey. Ela é a filha mais nova de uma família de imigrantes paquistaneses e nasceu nos Estados Unidos. Certo dia, foi exposta a uma névoa terrígena, o que despertou genes inumanos que Kamala desconhecia ter. Graças a este fenômeno, adquiriu a capacidade de esticar partes do seu corpo, mudar de forma e um fator de cura que age apenas quando não está usando seus poderes. Por ser fã da Capitã Marvel, criou um uniforme baseado em sua heroína e passou a atuar como Ms. Marvel. Como Sana Amanet também é uma paquistanesa que cresceu nos Estados Unidos, estava consciente das dificuldades que Kamala teria para adaptar sua cultura com a do país.

Assim como sua família, Kamala é muçulmana e segue alguns preceitos religiosos, como não comer carne de porco e ir à mesquita. Seu uniforme também é reflexo de sua fé, já que não é decotado nem colado no corpo como acontece com algumas super-heroínas. Ele é baseado em uma roupa tradicional do sudeste da Ásia e da Ásia Central, o Shalwar Kameez.

A primeira aparição de Khamala Khan ocorreu numa história da Capitã Marvel de 2013. No ano seguinte, a Nova Ms. Marvel ganhou revista solo e, logo de cara, o site Comics Alliance a elegeu como sendo o título de histórias em quadrinhos mais importante do ano. Grande parte do sucesso da revista se deve ao fato de que, a princípio, o drama da personagem era se deveria usar ou não seus poderes para combater o crime, a mesma dúvida que o Homem-Aranha tinha no início da carreira. Além de sua revista solo, ela já fez parte dos Vingadores e, atualmente, é a líder dos Campeões. Essa equipe é formada pela Ms. Marvel, o Homem-Aranha (Miles Morales), Viv Visão (filha do Visão), Nova (Sam Alexander), o novo Hulk (Amadeus Cho) e o Ciclope vindo do passado.

Como foi visto até aqui, as editoras de quadrinhos tomam muito cuidado quando representam as minorias. É importante citar também que, atualmente, muitas editoras faturam mais vendendo pela Internet do que nos meios físicos, como comic shops. Através dessa venda direta, fica mais fácil para os leitores encontrarem personagens que os representem. Já pensou no que pode acontecer se um roteirista cometer uma atrocidade ao retratar um personagem representante de uma minoria? As críticas pelas mídias sociais seriam tão grandes que não somente a demissão do roteirista seria certa, como poderia ser estudado o cancelamento do título em questão.

Vale destacar, ilustre fã, que a representatividade já acontecia no passado. Entretanto, pode-se dizer que era meio deturpada, pois era o opressor o encarregado de retratar o personagem pertencente a uma minoria.

Como exemplo, vamos citar o personagem Mandrake, o mágico. Ele foi criado pelo norte-americano Lee Falk e chegou às tiras de jornal em 1934, pulbicado pela editora King Features Syndicate. Mandrake tinha o poder de hipnotizar as pessoas. Com um simples gesticular de mãos, fazia com que o alvo visse o que o mágico bem quisesse. Ele tinha outros poderes também, como levitar e ficar invisível. Como parceiro, tinha Lothar, conhecido nas histórias como o homem mais forte do mundo.

Lothar foi o primeiro personagem negro que não foi retratado de modo caricato, para servir de chacota, como acontecia até então. Isso sem falar que foi o primeiro parceiro a ser de uma etnia diferente do herói principal nas histórias em quadrinhos. Entretanto, logo as críticas começaram a surgir.

Assim como seu criador, Mandrake era norte-americano. Durante uma temporada na África, conheceu Lothar. Ele era o príncipe de um reino da África. Após conhecer Mandrake, abdica de seu trono e torna-se seu parceiro de aventuras. Logo os críticos afirmaram que, na verdade, Lothar era um servo de Mandrake, uma espécie de guarda-costas. Alegaram também que a amizade entre os dois era uma representação do neocolonialismo. Caso você não se recorde das aulas de História, o neocolonialismo aconteceu no final do século 19 e início do 20, quando as grandes potências europeias dividiram entre si regiões da África e Ásia. Com isso, tinham acesso a matéria-prima daqueles países e os usava como mercado para vender produtos industrializados, além de dominar essas nações política e economicamente. Em outras palavras, era como se a amizade entre Mandrake e Lothar representasse o domínio dos Estados Unidos sobre a África.

As roupas dos personagens também causaram polêmica. Mandrake geralmente era retratado com as roupas de um mágico daquela época, como fraque, cartola e uma bengala. Lothar, por sua vez, vestia uma túnica feita de pele de leopardo e um chapéu turco. Diante dessa descrição, fica meio evidente quem seria o patrão e quem seria o empregado.

Até mesmo o modo como os personagens falavam inglês foi objeto de polêmica. Mandrake, como norte-americano, tinha o inglês impecável. Já o Lothar, por ser estrangeiro, tinha dificuldade em falar o inglês. Dessa forma, pode-se dizer que Mandrake era superior a Lothar inclusive do ponto de vista linguístico.

Apesar das críticas mostradas acima, Mandrake, o mágico, foi um grande sucesso desde a sua criação e continua sendo publicado até os dias de hoje. A grande pergunta que fica é: será que se o personagem fosse criado nos dias de hoje, os leitores aceitariam as diferenças entre ele e Lothar? Será que a revista em quadrinhos teria vida longa ou surgiriam protestos que fariam com que a publicação fosse cancelada? Será que a é intenção do autor foi mesmo causar essa polêmica?

Deixo essas perguntas para vocês responderem, ilustres fãs de quadrinhos. O maior ensinamento que fica do que vimos hoje é que, caso alguém queira criar um personagem pertencente a uma minoria, tem de fazer uma pesquisa minuciosa sobre o grupo que ele representa. Caso contrário, ele não resistirá às críticas.

Até breve!

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André Costa

André Costa, 44 anos. Professor de Inglês em escola regular, escritor, tradutor. Apreciador da Cultura Nerd em geral, principalmente de quadrinhos de Super-Heróis. Autor do livro Cavaleiro das Trevas: Uma Leitura Sócio-Cultural e Ideológica do Batman. Olá! Somos o Canal Metalinguagem. Nossa proposta é ser um site acessível a todos. Se você já é um nerd ou só tiver curiosidade sobre nossos assuntos, seja bem-vindo e divirta-se. Por mais que a função do entretenimento também seja nos fazer pensar, nossos textos são apolíticos (seja de direita ou de esquerda) e nossos redatores, por mais que tenham ideias e conceitos diferentes, são nerds e no final, sempre acabam falando a mesma língua. Só falamos sobre cultura nerd. Se algo parecer tendencioso, releia. Se realmente for, nos avise. Não assumimos lados.

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