Quando éramos reis

Rare Bit Fiends e outros sonhos de Rick Veitch

O caderno de sonhos do Rick Veitch

De Little Nemo in Slumberland a Sandman, o mundo dos sonhos sempre esteve presente nos quadrinhos, por mais de cem anos. É incrível que Rick Veitch tenha encontrado um ângulo original com Rare Bit Fiends.

Veitch manteve durante décadas o registro de seus sonhos, num diário. Em 1994, utilizou como matéria-prima para roteiro de um gibi periódico, publicado pela sua editora King Hell. Não é que seus sonhos tenham servido de inspiração para personagens ou roteiros. O que ele fez foi converter para a linguagem dos quadrinhos, da maneira mais literal possível, os instantâneos de seu inconsciente.

A sintese do “non-sequitur”.

Scott McCloud estabelece em Understanding Comics na taxonomia para transições entre quadrinhos. Nessa taxonomia, ele chama “non-sequitur” o tipo de passagem onde não há relação lógica entre o primeiro e o segundo quadro. É a transição mais frequente em Rare Bit Fiends, ocupando páginas inteiras de ideias não correlacionadas, lembranças incompletas, imagens desconcertantes. Tão instigante quanto é pouco trivial entender.

Aqui e ali, pingam lugares e personagens conhecidos do leitor habitual, que fazem parte da vida do autor. Neil Gaiman é figura fácil, aparece numa sequência hilariante onde substitui o cartaz de um monstro meio orgânico, meio tecnológico de Frank Zappa para Marvin Gaye. Steve Bissette e John Totleben, a equipe criativa que revolucionou visualmente o Monstro do Pântano, também aparecem bastante. Dave Sim, na época quase uma figura mística em termos de inspiração para quem se arriscava na seara da auto-edição, sempre surge em situações inusitadas. Tudo revela um tanto sobre a relação de Veitch com seus pares.

Temas recorrentes:

Há temas recorrentes nos sonhos: felinos, animais selvagens, a fábrica de papel onde seu pai trabalhou por 35 anos. Veitch se vê enfrentando ameaças descomunais, monstros disformes, desastres naturais: o modo como seu subconsciente interpretava o desafio de ser um autor de quadrinhos independente. É um exercício interessante descobrir a que cada simbolismo alude, e o próprio Rick Veitch discorre sobre o papel cultural do sonhar nas duas edições que encadernaram a série, Rabid Eye e Pocket Universe.

Um proposta tão ousada que Rick retornou a ela vinte anos depois, em 2016, lançando mais três números, do 22 ao 24.

Rafael Lima

Rafael Lima escreveu nas revistas eletrônicas Sobrecarga, Falaê, Burburinho e Digestivo Cultural; hoje, prefere desenhar. Ainda hoje, tem uma ligação afetiva com os quadrinhos independentes das décadas de 80 e 90, os quais mantiveram seu interesse em continuar lendo. Morou vários anos fora e, hoje, acha engraçado quando se usa o termo "importado" para referir ao quadrinho não nacional. Não tem gatos nem cachorros.

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