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Quero ser Grande (1988)

Comédia protagonizada por Tom Hanks revelava o que perdemos quando nos tornamos adultos

Nunca antes a frase “este filme envelheceu bem” foi tão bem utilizada.

Com direção de Penny Marshall (Tempo de Despertar, Um Anjo em Minha Vida), “Quero ser Grande” narra a história de Josh Baskin, um garoto (David Moscow) que gostaria de crescer logo, tornando-se adulto, o que ele consegue ao fazer um pedido para uma estranha máquina de desejos chamada Zoltar que ele encontra em um parque de diversões. Josh dorme criança e acorda um adulto de 30 anos, interpretado por Tom Hanks.

O roteiro parte de um desejo recorrente em muitas crianças e adolescentes, o de tornar-se adulto o quanto antes, para então, poder fazer o que bem entender.

Curiosamente, este que vos escreve foi criança na década de 80, e assistir os primeiros minutos deste longa, com Josh e seu amigo Billy andando de bicicleta, trocando figurinhas, e se divertindo despreocupadamente até pouco antes da hora do jantar, resultou em uma grande vontade de fazer o pedido inverso para Zoltar e voltar a ser criança por um tempo.

Adulto, obviamente, Josh precisa sair de casa, já que sua mãe não o reconhece, e procurar um emprego, o que ele consegue em uma fábrica de brinquedos cujo proprietário é o senhor MacMillan (Robert Loggia).

Sim, é claro que o roteiro força a barra com o responsável pelo RH simplesmente contratando Joshua de primeira sem checar documentos ou referências, e MacMillan o promovendo a Vice-Presidente em uma semana, mas, ei, deixa de ser um adulto chato, e aproveita o que realmente importa no filme.

Sempre que um longa de super-heróis, Star Wars, ou qualquer outra franquia de sucesso afunda nas bilheterias, os fãs costumam se perguntar a razão pela qual os executivos dos estúdios insistem em contratar alguém que não entende nada sobre o produto com o qual está trabalhando. Joel Schumacher, por exemplo, excelente diretor que tem em seu curriculum filmes como “Um Dia de Fúria” (1993) e Tempo de Matar (1996), mas que simplesmente não compreendia o que os fãs do Batman queriam ver nas telas, produzindo os dois filmes mais execrados do Homem Morcego.

Aqui, em “Quero ser Grande” temos algo semelhante, só que com brinquedos. Executivos preocupados unicamente com as margens de lucro, obcecados com tabelas e gráficos, lançam brinquedos no mercado que não agradam as crianças porque essencialmente são chatos, e são chatos, porque ninguém perguntou a opinião de quem realmente importa: as crianças que brincarão com eles.

Sendo uma criança em corpo de adulto, Josh ganha o emprego dos sonhos, brinca com os brinquedos e depois diz se eles são divertidos ou não.

O roteiro vai além disso, mostra os adultos como pessoas que estão sempre de péssimo humor, que só se preocupam com suas carreiras, e com o quanto receberão, perdendo aquela inocência e a capacidade de se encantar com as pequenas coisas da vida que as crianças possuem.

Lembro de uma entrevista do comediante Louis C. K. em que ele falava sobre pessoas que embarcam em um avião e reclamam de basicamente tudo, desde terem esperado por vinte minutos, da comida, da poltrona e assim por diante, se esquecendo do fato que estão sentados em uma cadeira, voando no céu, o que basicamente é um milagre, já que nós, seres humanos, não temos asas.

Elas se acostumaram e já não se importam mais.

Quero ser Grande fala sobre isso, sobre adultos que perdem a capacidade de se encantar ou de rir de si mesmos, sem se preocupar com o que os outros estão pensando. A cena em que Hanks e Loggia tocam piano com os pés, saltando sobre as teclas que se iluminam no chão da loja de brinquedos, é icônica graças principalmente a este sentimento.

É lógico que não se espera que um adulto aja exatamente como uma criança, mas não deixa de ser triste a mudança de comportamento de Josh, algo que percebemos pela sua preocupação com o novo projeto ou na aparência de seu escritório. Tudo tem o seu tempo, representado pela recusa de Susan (Elizabeth Perkins), a namorada e colega de trabalho de Josh, em fazer um pedido e se transformar em criança, para acompanhá-lo: “eu já estive lá e é duto o bastante da primeira vez”.

Quero ser Grande desmoronaria se Hanks não fosse capaz de convencer o público de que era um garoto de 13 anos no corpo de um homem de 30, o que ele consegue com perfeição, inclusive lhe rendendo uma indicação ao Oscar de melhor ator, que ele perdeu para Dustin Hoffman pela sua atuação em Rain Man.

Tratava-se de um Hanks em início de carreira, mas que já mostrava ter um futuro brilhante pela frente, e o Oscar viria cinco anos depois pelo filme Philadelphia em 1994, seguido por outro pelo filme Forrest Gump, em 1995.

A história de “Quero ser Grande” é cativante e rendeu inclusive uma versão estrelada por Jennifer Garner e Mark Ruffalo, “De repente 30”, lançada em 2004.

Por último, quer se sentir um pouco mais velho?

David Moscow, o ator que interpretava o Josh com 13 anos de idade e que queria ter 30, agora tem 46 anos e provavelmente gostaria de ter 30 novamente.

Fernando Fontana

Fernando Fontana é escritor e adulto amador, criador do Site Super Ninguém e colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre filmes e quadrinhos antigos. Tá sabendo da novidade? Somos parceiros da Amazon. Vai comprar na Amazon? Utilize o código: canalmetali06-20! e dê uma força para o canal.

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