No Século Passado

Preacher: O dia em que acordaram o Santo dos Assassinos

Esta história foi publicada no século passado, então, sim, tem spoiler.

Bom, se existem santos protetores para dezenas de profissões, parece justo que exista um Santo dos Assassinos, certo? Essa é provavelmente o tipo de questão que povoa a menta insana de Garth Ennis, escritor irlandês que entre muitas coisas, é o responsável por “The Boys” e pelas melhores histórias do Justiceiro e de John Constantine, e que agora, no próximo dia 22 de junho, retornará pela DC Comics em uma minissérie em seis edições chamada “Batman: Reptlian”, onde a julgar pelas declarações do próprio Ennis, o defensor de Gotham deve ser enxergado de uma forma um tanto quanto diferente do habitual: “O que estamos falando aqui é de um aristocrata bilionário que bate em pessoas pobres, bem como os doentes mentais…Eu não sei o que isso tem a ver com um código de honra, mas certamente apela ao meu senso de humor”.

E por falar em seu humor ácido, uma das obras pela qual o escritor ficou mais conhecido e onde o destila em doses cavalares a cada página, é Preacher, série publicada entre 1995 e 2000 e que em 2016 foi adaptada para uma série pela AMC, contando com quatro temporadas e 43 episódios.

Na edição número 1 de Preacher, na história “A Vez do Pregador”, conhecemos o reverendo Jesse Custer, que em uma crise monumental de fé e completamente bêbado, entra em um bar de Annville, pequena cidade onde mora, e começa a revelar todos os segredos dos moradores, aquele tipo de segredo sórdido que você conta para o seu pastor na esperança de ser perdoado por Deus, mas que é a última coisa que gostaria que os outros soubessem. Alguns não gostaram nem um pouco do que ouviram e partiram para agressão, nocauteando Jesse.

Como resultado desse surto, no dia seguinte, a igreja que normalmente tinha lá seus dez ou doze gatos pingados puritanos, estava abarrotada, mais lotada que vagão de metrô na hora do rush, com os moradores esperando para ver o que o bom reverendo Custer diria em seu sermão, só que ele não disse muita coisa, porque antes mesmo que pudesse falar sobre perdão, uma entidade atravessou as paredes da igreja, entrou no corpo do pastor, explodindo o lugar e incinerando todos os presentes.

A entidade chamava-se Gênesis, rebento gerado pela união carnal proibida entre um Serafim e uma Demônia, porque tudo que é proibido é mais gostoso. Sendo uma união profana até não poder mais, o Serafim foi punido enquanto as Hostes Celestiais encarceraram Gênesis, ao mesmo tempo que Deus simplesmente deu no pé, sumiu, escafedeu-se, foi embora, tirou férias.

Custer, o único sobrevivente do massacre da igreja, graças à fusão com Gênesis, ganhou o dom da palavra de Deus, que basicamente significa que, se ele te dá uma ordem, você precisa obedecer, o que acaba gerando situações bizarras durante a série, como quando Jesse manda um xerife escroto “se foder” e ele obedece a ordem de forma literal.

Ao mesmo tempo, junto com sua namorada Tulipa, e um vampiro chamado Cassidy, o reverendo parte em uma jornada em busca de Deus, não para ser perdoado ou nada parecido, mas para cobrar o Criador pela bagunça em que ele deixou o planeta. Tipo, olha aqui como você deixou o seu quarto, manja?

Pois é, essa é premissa da trama de Preacher, mas não se resume a isso, e existem muitos outros personagens interessantes, entre eles, o já mencionado Santo dos Assassinos, que também nos é apresentado na edição número 1 de Preacher. Um sujeito que é mau, mas bota mau nisso, que ao ser acordado de seu sono, mete uma bala no meio da testa de um anjo só por esporte, que só de olhar, você já sabe: fodeu!

E por que foram mexer com o Santo dos Assassinos que estava quietinho em seu caixão? O lance é que a fuga de Gênesis pra Terra não estava no plano dos anjos Adefins, responsáveis por sua prisão, e com os Serafins putos da vida com a fuga, eles precisam colocar alguém na cola de Custer, alguém que nunca falhe.

A escolha nada sensata foi o Santo dos Assassinos, e dá-lhe sangue e tripas voando pelos quadrinhos. Cada vez que o Santo tromba com a polícia e ela tenta prendê-lo é um festival de cabeças explodindo. É um tiro e um corpo que cai, ele não erra, e ele é praticamente invulnerável a qualquer arma terrestre, e quando eu digo “praticamente” estou sendo gentil, porque uma saraivada de tiros nem faz cócegas no homem e quando é atropelado por uma picape nem não sofre nem um arranhão.

E assim, fica estabelecido que o reverendo Custer e seus amigos podem até tentar encontrar Deus para confrontá-lo, mas sabendo que terão em seu encalço o Santo dos Assassinos.

Preacher não é necessariamente a melhor coisa já escrita por Ennis, mas é o escritor puro, sem gelo, se você não leu e não se ofende com piadas envolvendo religião, é uma excelente pedida.

A saga completa pode ser encontrada em nove encadernados publicados pela Panini com capa dura.

Que o Santo dos Assassinos proteja a todos nós.

Amém!

Fernando Fontana

Fernando Fontana é escritor e adulto amador, criador do Site Super Ninguém e colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre filmes e quadrinhos antigos. Tá sabendo da novidade? Somos parceiros da Amazon. Vai comprar na Amazon? Utilize o código: canalmetali06-20! e dê uma força para o canal.

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