Quando éramos reis

Os Next Men de John Byrne e sua visão incomum do mundo

Depois do estouro da Image Comics, todo mundo quis pular no barco das publicações independentes. Não foi diferente com a Dark Horse Comics. Em 1994, criou o selo Legend, dedicado a trabalhos autorais de teor adulto, com um timaço. Paul Chadwick e Mike Allred levaram Concreto e Madman para lá. Também foi na Legend que Mike Mignola criou Hellboy, e onde Frank Miller começou a lançar minisséries de Sin City. John Byrne, outro fundador, criou Next Men, que é o assunto desta coluna.

Enquanto Mignola entrava no zênite criativo, e Miller e Chadwick surfavam uma maré de talento inovador há alguns anos, em 1994 John Byrne parecia já ter usado a maior parte dos seus cartuchos, fosse no celebrado período do Quarteto Fantástico, fosse na revitalização do Super-Homem. Porém, dessa vez, ele tinha a rara chance de ser mais ousado, trabalhar sem limitação nas temáticas adultas. Mais de dez anos antes, bastante sutileza fora necessária para representar o personagem gay Estrela Polar, na Tropa Alfa. Agora, as coisas seriam diferentes. Teoricamente, pelo menos.

Next Men é uma variação, até no nome jocoso, do arquétipo dos X-Men: jovens superpoderosos sem controle das suas habilidades, em conflito num mundo de humanos. Com tons de ficção científica; um quê de engenharia genética para justificar os superpoderes (o assunto era quente, a primeira clonagem de um mamífero se daria em 1996), uma pitada de teoria da conspiração.

A questão toda é que John Byrne não tinha traquejo para lidar com realismo, ou temas adultos, no tom que Legend permitia.

Se hoje em dia as histórias da Tropa Alfa ainda retém interesse, é por causa da complexa rede de relacionamentos desenvolvida entre os personagens, que cativa o leitor. Porque nenhum adulto que tenha tido uma profissão acredita mais que um cientista pesquisador como McDonald Hudson não soubesse de onde vinha o financiamento de suas pesquisas. Ou que pesquisas estratégicas para desenvolvimento de tecnologia sejam cortadas, de uma hora para outra, sem escândalo. Mas o mundo de Byrne é assim: pesquisadores, ou arqueólogos, têm acesso a itens de altíssima segurança de noite com um mínimo de esforço, médicos de carreira tem musculatura de halterofilistas, senadores empunham armas de fogo naturalmente. Nada que estrague uma saga da Tropa Alfa, mas que compromete a leitura de Next Men.

Isso fica particularmente evidente no modo como ele usa a suposta maior liberdade com temas adultos dada pela recomendação para leitores maduros na capa. A violência mais frequente acaba banalizada e simplificada, como a de um desenho animado; alguém baleado, no dia seguinte, levanta do hospital e dirige um jipe em fuga. Uma cena de estupro mais fetichiza do que provoca repulsa, perpetrada por criminosos de barba bem feita e aparência de quem toma dois banhos por dia. O temas do aborto e abuso infantil são endereçados marginalmente, não como centro da questão. Na mesma época, esse tipo de coisa recebia tratamento correto corriqueiramente no selo Vertigo, dentro da DC.

O ponto forte de Next Men está no grande domínio da narrativa sintética e clara: com a base de 6 quadros por página, com arte atraente, e incomum uso da sujeira visual em explosões. A história avança com consistência edição após edição, entregando algo novo todo mês. Há o manjado esquema de dividir o grupo, depois juntar permutando os pares, para poder contar histórias isoladas de cada personagem e obrigá-los a conversar entre si, um truque para atualizar quem começou a ler por aquele exemplar (explorado ao infinito em Bone). Novamente, brilha o trabalho de ir revelando aos poucos o passado, como chegamos até aquele ponto da história, os mistérios e segredos por trás dos personagens, talvez seu maior talento no roteiro.

Next Men merece ser lido porque é trabalho de um notável autor no domínio completo de suas habilidades artísticas, e pela experiência de vê-lo fora de sua zona de conforto, lidando com temas adultos – mesmo que essa não seja sua praia.

Rafael Lima

Rafael Lima escreveu nas revistas eletrônicas Sobrecarga, Falaê, Burburinho e Digestivo Cultural; hoje, prefere desenhar. Ainda hoje, tem uma ligação afetiva com os quadrinhos independentes das décadas de 80 e 90, os quais mantiveram seu interesse em continuar lendo. Morou vários anos fora e, hoje, acha engraçado quando se usa o termo "importado" para referir ao quadrinho não nacional. Não tem gatos nem cachorros.

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