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Ogiva: Uma explosão de referências

Como devo ter deixado claro em minha humilde opinião a melhor editora brasileira de quadrinhos é sem sombra de dúvida a Pipoca e Nanquim, creio que minha percepção é compartilhada por profissionais e outros interessados pois o PN já abocanhou três troféus HQ Mix de melhor editora do ano, detalhe ela existe há pouco mais de três anos. Nesse ano foram trazidas diversas obras de excelente qualidade, tivemos gigantes estreando na casa como Tezuka, Manara, Gibrat e Kirby. Além do retorno de Chabouté e Hirata, enfim vamos ficar com esses, todavia entre essa constelação de grandes mestres o projeto que mais ansiava era o Ogiva do Bruno Zago e Guilherme Petreca, provavelmente pelos seus vídeos.

Para quem não sabe Bruno Zago, o roteirista, é um dos três editores da Pipoca e Nanquim, ele além de cuidar das publicações também participa dos vídeos do canal, seu entusiasmo e paixão são tão grandes que ele decidiu documentar todo o trabalho que foi criar essa bela obra. Foi elaborada uma playlist no canal do PN no youtube, nomeada criando quadrinhos, para falar sobre todas as etapas da imaginação, criação, elaboração, editoração, enfim um pouquinho de tudo sobre como criar uma HQ do ponto de vista dos autores e editores.

A HQ começa de forma muito semelhante ao filme um lugar silencioso, de John Krasinski, enquanto na película uma família entra num supermercado, um ato corriqueiro e banal que mostrasse bastante perigoso, em Ogiva há uma família se deliciando com pães, como se fossem uma iguaria maravilhosa, não que um pão caseiro não seja saboroso só não é algo tão inalcançável e diferente para os nossos padrões atuais, a sutileza colocada no roteiro nos transporta para uma realidade opressora e seca, aos poucos somos apresentados a um pequeno núcleo familiar que dá um pouco do panorama desse mundo cheio de insetos, árvores retorcidas e escuras em meio a um cenário bucólico, mas devastado. Como no longa um ato infantil, ou pequeno deslise, leva à morte tanto da calmaria e da inocência dos personagens e dos leitores.

Somos mergulhados em um novo ambiente agora com monstros que possuem aspecto alienígena e tentáculos, algo que lembra as criaturas do imaginário de Lovecraft. Em poucas páginas os autores nos mostram amor, inocência, ação, terror, sangue, violência e principalmente humanidade. A personagem principal só é introduzida após esse pequeno prólogo, uma mulher chamada de Pilar que salva Sara, a única sobrevivente do massacre inicial. É muito inventivo como ela é introduzida, a sua mochila, um enorme ursinho de pelúcia rosa, aparece no topo da página, seguida por detalhes dos pés, um plano mais aberto mostrando sua figura para finalmente revelar seu rosto, a preocupação com os enquadramentos e os pequenos detalhes mostra como o cinema é uma forte influência no quadrinho.

Após a reunião da protagonista com a sua nova companheira de viagem é estipulado um plano de ação, ambas se deslocariam para o norte para alcançar o grupo de resistência aos monstros em que o irmão mais velho de Sara faria parte. Assim que elas saem de viagem, há menção ao filme A Estrada, baseado no livro homônimo de Cormac McCarthy, no livro/filme uma dupla de pessoas, um adulto e uma criança devem manter-se a salvo num mundo arrasado e cheio de violência e insanidade, um lugar que não possui um governo ou liderança local. É ainda pertinente dizer que Ogiva se passa no Brasil, há placas e rodovias que lembram nosso país, contudo o uso constante de casacos e pesadas roupas, palavras escritas em línguas estrangeiras, principalmente o chinês, facilitam a identificação de quem não conhece o Brasil.

As duas como se estivessem em diferentes mundos ficcionais como o Livro de Eli, Walking Dead, A estrada ou mesmo Last of us, enfrentam o frio, a fome, algumas tristezas e até algum tipo de alegria fugindo dos seres monstruosos, das outras pessoas e de seus próprios pesadelos. Uma certa noite em que acampavam em meio a uma floresta a mochila de Pilar é furtada, ela manda que Sara fique escondida e a esperando numa barraquinha de acampamento que montaram, nossa heroína vai atrás do ladrão e começam a brigar para serem interceptados por um grupo de adoradores dos monstros, que necessitam de pessoas para realizar suas nefastas celebrações. Nesse momento a referência começa a ser outra passando por filmes slasher como a casa dos mil corpos.

Devido a esse encontro fatídico teremos ainda mais homenagens, Mad Max é usado como guia visual dos veículos e da indumentária das pessoas, sem falar numa sequência longa de perseguição de carro, que dá uma certa angústia e apreensão, tudo nesse cenário parece ser mortal e a confiança é um bem muito caro. É bastante difícil categorizar essa obra ela é um roadmovie (roadcomic, no caso), com ação e aventura, com um pouco de ficção científica e terror, sem falar numa pitada de Pixar, tudo muito bem arquitetado.

Outra clara inspiração é o filme O Nevoeiro, de Frank Darbont baseada na obra de Stephen King, algumas criaturas parecem ter saído daquele lugar, mas, explicar mais e como isso se encaixa na trama é dar um spoiler desnecessário, há tantas homenagens que fica difícil entregá-las sem estragar a surpresa do leitor. É uma obra futurista que mostra em alguns momentos tecnologias tão avançadas como armas parecidas com as do Homem de Ferro, células de energia ao invés de combustível fóssil, além de drones super avançados, mas que ainda encontra espaço para bastões de beisebol e facas, bem como um celular (um os mais importantes artigos dessa aventura) entre outros objetos mais antigos.

A arte é um capítulo à parte, o trabalho digital de Petreca é simplesmente lindo, seus traços lembram muito o traçado de um lápis, pesado em algumas cenas, contudo suave como se estivesse iluminado nos momentos de menor tensão. Seus requadros tendem a se manter mais quadrados de forma geral, contudo em momentos de tensão e ação intercalam formas diferenciadas e até a ausência dos contornos para dar mais profundidade emocional. Ademais, a vestimenta do povo canibal é bem interessante usam trajes que parece gangues de motoqueiros e em alguns casos lembram Vikings, o visual de suas armas e veículos também é bem inventiva com alguns objetos parecendo até uma versão falsificada dos verdadeiros. O cuidado com as roupas, a expressividade de seus personagens, a movimentação, as placas de rua com pichações, o “ídolo” chinês e o fastfood genérico, tudo foi muito bem desenhado, é incrível ver uma perseguição de carros e motos que seja envolvente e dinâmica. Um excelente traçado que complementa a história.

Como não me canso em falar o PN é casa dos Petardos, sem sombra de dúvida Ogiva é um, essa obra não tenta discutir a nossa delicada situação política ou sobre a nossa condição social, é uma história que pega um momento após uma tragédia (que felizmente não precisa ser explicada)  e mostra pessoas tentando se conectar, ainda presas ao passado o que as leva a tomar decisões que se arrependem, mas para consertar o erro são forçadas a criar novos laços e tirar forças de lugares que nem imaginavam ter, é uma trabalho bem pertinente que acredita que mesmo em nosso pior momento, rodeado por demônios internos e externos, ainda há espaço para a humanidade e quem sabe o amor. 

Fernando Furtado

Fernando Furtado, formado em cinema pela FAAP, estudou quadrinhos na Quanta Academia de Artes, fez curso sobre a história das HQs com Sônia Bibe Lyuten, oficina de roteiro para HQs com Lourenço Mutarelli, assistente editorial e tradutor na Brainstore editora. Atualmente professor de inglês e advogado.

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