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O Vingador do Futuro (1990)

Em obra inspirada em conto de Philip K. Dick, o diretor Paul Verhoeven destila ironia e crítica social

As obras do diretor Paul Verhoeven são conhecidas pela sua violência, humor ácido e crítica social, estando entre as mais conhecidas, “Robocop” (1987), “Instinto Selvagem” (1992), “Tropas Estelares” (1997) e, é claro, “O Vingador do Futuro” (Total Recall no original), estrelado por Arnold Schwarzenneger e Sharon Stone.

Atualizar estes filmes reproduzindo sua essência não é tarefa das mais simples, o que explica em parte a recepção morna e as críticas negativas dos remakes de “O Vingador do Futuro” (2012) do diretor Len Wiseman e “Robocop” (2014) dirigido por José Padilha.

A trama de “O Vingador do Futuro”, baseada em conto de Philip K. Dick, cujos livros também foram adaptados nos filmes “Blade Runner” (1982) e Minority Report (2002), assim como a série “The Man in The High Castle”, se passa no futuro e começa com um simples operário da construção civil, Douglas Quaid (Schwarzenneger), que tem uma estranha obsessão pelo planeta Marte, onde foi estabelecida uma colônia, coletando um minério utilizado em grande escala nas guerras do Planeta Terra. Você não achou que os seres humanos iriam até Marte só pela vista, achou?

Um pouco de história:

Sem conseguir convencer sua esposa a se mudar para Marte ou mesmo fazer uma viagem a passeio, Quaid opta por uma alternativa mais barata e viável, procurando uma empresa que implanta memórias falsas de viagens tão reais quanto as verdadeiras. Ele aceita, inclusive, pagar por um pacote extra onde ele deixa de ser um operário e passa a ser um espião em missão, como nos filmes.

Algo dá errado e ele se vê envolvido em uma trama onde não é Douglas Quaid, mas sim Carl Hauser, um agente secreto que teve as memórias apagadas. Tudo que Quaid se lembra, sua infância, seus amigos, seu casamento são memórias falsas implantadas, ou seja, Quaid jamais existiu, ou será que não?

O roteiro brinca com isso, Quaid realmente é um agente secreto ou tudo isso não passa do sonho que ele pagou para ser implantado em sua mente? E o que faz de nós quem nós somos? O que nos define? São nossas memórias?

No já mencionado Blade Runner do diretor Ridley Scott, os replicantes possuem certa fixação por fotografias, memórias, e Rachael, o par romântico de Deckard, se recusa a aceitar não ser humana, já que se recorda de toda sua vida. Em Matrix (1999), Morpheus pergunta para Neo o que ele define como sendo real, e se a resposta for tudo aquilo que podemos sentir, cheirar, provar e ver, então a realidade não passa de sinais elétricos interpretados pelo seu cérebro.

Partindo deste princípio, para Douglas Quaid, não importa que lhe digam que suas memórias foram apagadas seis semanas atrás, que tudo aquilo que ele se lembra, incluindo sua própria identidade, são falsas. Para ele, tudo é tão real quanto para uma pessoa que de fato viveu e se recorda.

Essa premissa de explodir cabeças abre caminho para um filme de ação quase ininterrupta, e Schwarzenneger se encaixa muito bem no papel de operário que se descobre parte de uma trama interplanetária e precisa agora sobreviver às inúmeras tentativas de matá-lo. Sharon Stone que interpreta sua falsa esposa também não decepciona, embora tenha um papel relativamente pequeno.

Conclusão:

A crítica social está guardada para o Planeta Vermelho, em um sistema que foi desenhado para explorar a mão de obra barata dos mineradores, vendendo-lhes a preços cada vez mais caros o precioso oxigênio. Pobres sendo explorados, retirando minério que será vendido por uma fortuna para ser utilizado em guerras onde pobres morrerão para garantir que o poder permaneça nas mãos onde sempre esteve. Para mantê-los alienados, o distrito onde habitam é recheado de bares onde podem beber e se divertir com prostitutas com três seios. Quando se revoltam, são convenientemente chamados de terroristas, rótulo muitas vezes utilizado para os que não concordam com os detentores do poder.

É possível ver muitas semelhanças com Robocop de Verhoeven, embora em um futuro mais próximo, o policial do futuro é criado por uma empresa que passou a controlar a polícia e o uso da força, utilizando-as com o propósito de garantir seus interesses na nova Detroit.

Em seu terceiro ato, no clímax, vemos Quaid lutando para libertar os colonos de Marte da tirania de Vilos Cohaagen (Ronny Cox), que os mantém necessitando seu oxigênio e os descarta com incrível facilidade. Impossível ver a resolução e não pensar que os lucros advindos de diversos setores impediram a evolução de uma tecnologia que nos tornasse mais livres. A indústria do petróleo certamente não ficaria feliz com um carro movido à água.

Esqueça o remake, o Vingador do Futuro original de Verhoeven é imbatível com sua ação constante, humor e crítica social em um filme que vale a pena ser visto e revisto.

Fernando Fontana

Fernando Fontana é escritor e adulto amador, criador do Site Super Ninguém e colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre filmes e quadrinhos antigos. Tá sabendo da novidade? Somos parceiros da Amazon. Vai comprar na Amazon? Utilize o código: canalmetali06-20! e dê uma força para o canal.

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