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O Show de Truman (1998)

Um filme sobre a vida e a segurança de nossas ilhas

Video Locadora: Fernando Fontana aluga o Show de Truman.

 

Em “Narrativa contra o Mundo”, texto do historiador e crítico de cinema norte-americano Tag Gallagher, encontramos a seguinte afirmação: “Eu não tenho nenhuma necessidade do cinema para capturar a realidade. Existe mais realidade diante da minha janela do que em todos os filmes jamais rodados. O que a arte traz é uma sensibilidade em relação à realidade”.

Os filmes, sejam eles quais forem, ainda que sejam documentários, não refletem com exatidão a realidade, pois estão submissos à uma visão particular e às decisões que dela derivam, o posicionamento da câmera e dos atores, as falas, os closes, tudo tem uma razão de ser.

Pegue o mais real dos Reality Shows e você descobrirá que há muito pouco de realidade nele, ainda assim, Big Brother Brasil, que começou em 2002, ainda está no ar e conta com 20 temporadas.

O que nos fascina tanto nestes programas?

O Show de Truman (The Truman Show no original), narra a história de Truman Burbank (Jim Carrey), fruto de uma gravidez indesejada, adotada por uma emissora de televisão, com sua vida inteira filmada desde o seu nascimento até o presente.

Truman, no entanto, não sabe que está em um programa de televisão, para ele, tudo o que acontece ao seu redor é real.

Uma Vida Segura

Tudo, absolutamente tudo em “O Show de Truman” é falso, controlado por uma equipe chefiada por Christof (Ed Harris), o idealizador e diretor do programa, desde a família, a esposa, os amigos e os moradores de Seahaven, ilha fictícia onde se passa o Show, até o clima, o Sol e a Lua. Trata-se de um imenso cenário envolto por uma cúpula, repleto de atores, onde o único que desconhece o que está acontecendo é seu astro principal, Truman.

Tudo é exibido 24 horas por dia, sem interrupção, com milhões de pessoas ao redor do mundo assistindo e vibrando com as alegrias e tristezas do personagem principal.

A fotografia lembra demais um daqueles antigos seriados norte-americanos, as roupas, as cores, as construções, a cidade, é como se Truman vivesse dentro de um episódio de “I Love Lucy” (1951 – 1957), onde no final, não importa o que aconteça, tudo ficará bem.

De fato, dentro daquele pequeno mundo em que habita, Truman está seguro, pois tudo já está pré-determinado, onde trabalha, quem serão seus amigos, com quem se casará e se terá filhos ou não; tudo está no roteiro e ele não passará fome ou será atingido por uma bala perdida, não é esse o propósito do programa.

Christof, o diretor, seria o equivalente ao que nós chamamos convenientemente de destino.

Para evitar que ele pense em abandonar a ilha, o programa insere mensagens nada sutis, os amigos/atores elogiam Seahaven e a vida perfeita de Truman, na empresa de turismo há cartazes informando sobre os perigos de se voar, e em um dos episódios, a direção providencia para que ele, ainda criança, perca uma pessoa querida no mar, causando um trauma que o leva a ter pavor de grandes quantidades de água.

Como, no entanto, Truman não percebe o que está acontecendo?

A resposta certeira vem do próprio Christof: “Aceitamos a realidade do mundo que nos é mostrada. É simples assim”.

Percebendo a natureza da realidade ao seu redor

Apesar de todas as tentativas de controlar a vida de Truman, o programa não é capaz de impedir que ele se apaixone pela pessoa “errada”. Embora a atriz com quem ele se casaria já estivesse escolhida (Laura Linney), o jovem cai de amores por Sylvia (Natascha McElhone), uma mera coadjuvante, o que obriga a direção a remove-la do show.

Apesar disso, ela torna-se uma obsessão, assim como visitar a ilha de Fiji, local onde supostamente Sylvia foi morar.

É essa obsessão em encontrar a pessoa amada, em conhecer outro país, em abandonar a vida que lhe dizem ser perfeita, que servem de motivação para que o personagem descubra gradativamente a realidade onde se encontra.

Por mais que tentemos evitar, a dor e a tristeza fazem parte da vida, eventos que nos marcam para sempre e que não podem ser revertidos, nos moldam e nos transformam tanto quanto nossas maiores alegrias; não é por acaso, que ao ter a sua maior tragédia pessoal desfeita pela direção do programa, Truman perceba que, definitivamente, se encontra em um mundo de faz de conta, tomando a decisão de abandoná-lo.

Enfrentando os seus temores, rebelando-se contra o destino

A cena em que Truman finalmente consegue despistar as cinco mil câmeras e a vigilância permanente da direção, levando todos os atores, figurantes ou não, a vasculhar a cidade cenográfica, foi construída para lembrar a perseguição a um prisioneiro fugitivo.

Temos as sirenes, a luz da Lua funcionando como um farol, o cão de caça e os atores vasculhando os arredores; Truman está fugindo de sua vida.

Para obter sucesso ele se vê obrigado a enfrentar o seu pior medo, o mar, só assim, ele conseguirá deixar Seahaven para trás, e, apesar de Christof lançar contra Truman toda a fúria dos elementos, ainda assim, diante dos olhares e da vibração dos expectadores, o personagem consegue finalmente chegar até a porta de saída, onde fica literalmente a um passo da liberdade.

O diálogo que se segue entre Truman e o seu criador, com a voz de Christof vinda do céu, é fantástico: “Ouça, Truman. Lá fora, a verdade é igual à do mundo que criei para você. As mesmas mentiras, as mesmas enganações, mas no meu mundo, você não tem nada a temer”.

A escolha que se coloca diante de Truman é ficar em uma vida que não lhe faz feliz e se manter seguro, ou se arriscar no desconhecido.

E quando o programa sai do ar, pessoas que, em êxtase, testemunharam algo grandioso, levam apenas cinco segundos para mudar de canal, sem qualquer tipo de reflexão sobre suas próprias existências.

O Show de Truman não é apenas um filme sobre reality shows, é sobre a vida, e as decisões que tomamos, se ficamos ou não na segurança de nossas próprias ilhas.

Um dos três melhores filmes de Jim Carrey, ao lado de “Brilho Eterno de um Mente sem Lembranças” (2004) e “O Mundo de Andy” (1999).

 

 

 

 

 

 

 

 

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