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O Senhor das Armas (2005)

Se há quem queira matar, há quem lhe venda armas

Fernando Fontana aluga um clássico de Nicholas Cage

 

A sequência de abertura de “O Senhor das Armas” (Lord of War), que vemos enquanto os créditos são mostrados, é uma das melhores já vistas na história do cinema e prepara o espectador para a história que está por vir.

Vemos a trajetória de um projétil de fuzil, desde a sua fabricação e controle de qualidade, até sua venda, transporte e finalmente uso em uma arma de fogo, para ser disparado e parar na cabeça de uma criança.

O narrador e personagem principal é Yuri Orlov (Nicolas Cage), um homem que desde cedo compreendeu algumas das necessidades básicas do ser-humano, odiar e matar; e se homens pretendem se matar, precisarão de armas e de quem lhes venda.

O comércio legal não é o caminho, o cidadão norte-americano é um defensor da segunda emenda e um ávido consumidor de armas de fogo; o próprio Yuri afirma que existem mais lojas de armas do que Mcdonalds nos Estados Unidos, ou seja, há uma grande concorrência pronta para suprir a demanda.

O dinheiro está nas guerras entre nações e nos ditadores e genocidas prontos para massacrar seu próprio povo, mas que por se encontrarem sob embargo, não podem adquirir armamento legalmente.

É Yuri que lhes vende as armas que necessitam, e é assim que enriquece. Cada bala disparada significa dólares em seu bolso, embora ele não tenha qualquer interesse em saber qual é o alvo. O diretor Andrew Niccol resume muito bem a forma que o personagem enxerga as guerras, ao substituir o som dos tiros de um AK-47 pelo de uma máquina registradora.

O fuzil de assalto Kalashnikov, aliás, é um dos grandes astros do filme, ganhando uma enxurrada de elogios do narrador: “nada é tão lucrativo quanto a automática Kalashnikov, modelo 1947….é o fuzil de ataque mais popular do mundo, uma arma que todos os combatentes adoram, uma amalgamação elegantemente simples de aço forjado e madeira compensada, não quebra, nem trava ou superaquece”.

Se a AK-47 é a musa dos guerrilheiros, Ava Fontaine (Bridget Moynahan) é a mulher pela qual Yuri se apaixona, e personifica, pelo menos durante boa parte do longa, a razão pela qual ele vende armas e tenta ganhar o máximo de dinheiro possível, para lhe garantir todo o luxo possível.

Ava sabe que há algo de errado com a profissão do marido, que o dinheiro não vem de negócios lícitos, mas não questiona, pois assim, não ouvirá mentiras, ou, talvez ainda pior, a verdade.

A ignorância mantém a consciência limpa.

A ideia de que o personagem se mantém no comércio de armas para satisfazer os desejos de Ava acaba desmoronando; Yuri vende armas porque é bom no que faz; e ele até tenta se livrar da culpa quando ela o cerca, na maior parte das vezes na figura do irmão, Vitaly (Jared Leto) – pelo menos o meu produto tem trava de segurança – diz ele ao comparar suas armas com os cigarros vendidos pela indústria do tabaco.

Nicolas Cage é um ator de extremos, pode entregar excelentes atuações como em “Despedida em Las Vegas” (1995) que lhe rendeu inclusive um Oscar de melhor ator, mas também atuações fraquíssimas como em “O Sacrifício” (2006). Aqui ele está mais contido e entrega um bom trabalho, um sujeito simpático, sorridente, um homem de negócios, semelhante a um vendedor de carros, nem um pouco agressivo e incapaz de ferir uma mosca.

Duas cenas exemplificam bem a tentativa de manter-se distante da violência que ele distribui pelos quatro cantos do planeta, quando ele joga fora o revólver de plástico do filho, e quando tenta evitar ao máximo puxar o gatilho que matará seu principal rival, embora fique claro que o deseje fora do caminho.

A paz é ruim para os negócios.

E qual a solução para homens como Yuri?

O filme não nos apresenta, pelo contrário, demonstra que ele não passa de uma pequena parte de uma engrenagem muito maior, e que é tolerado porque os maiores comerciantes de armas são países como os Estados Unidos, que nem sempre podem sujar as mãos vendendo diretamente para quem desejam, para estes, existem os traficantes.

O vilão ganha contornos muito maiores do que um rosto humano, ele surge como a natureza de uma civilização que gasta bilhões em armas destinadas a matar em quantidades cada vez maiores, e estamos muito longe de conseguir vencê-lo, se é que um dia conseguiremos.

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