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O Rei da Comédia (1983)

Scorsese critica a cultura das celebridades em filme que inspirou “Coringa” de Todd Phillips

Para construir seu Coringa que rendeu múltiplos elogios e prêmios para Joaquin Phoenix, o diretor Todd Phillips não esconde que se inspirou em dois filmes de Scorsese, “Táxi Driver” (1976) e o bem menos conhecido “O Rei da Comédia” (1983), sobre o qual falaremos hoje.

Não por acaso, Robert De Niro, que no filme de Phillips interpreta o apresentador de Talk Show Murray Franklin, é o protagonista em ambas as obras de Scorsese; em “Táxi Driver” interpreta o taxista Travis Bickle, e em “O Rei da Comédia” é o aspirante a comediante “Rupert Pumpkin”.

Pumpkin tem certeza de que é um excelente comediante, e para alcançar a fama, tudo que lhe falta é uma oportunidade; ele é fã de Jerry Langford (Jerry Lewis), comediante e apresentador de Talk Show, e fantasia momentos em que não só se encontra com Langford, mas tornam-se grandes amigos.

Veja que, curiosamente, em Coringa, o diretor troca os papéis e Robert De Niro torna-se o apresentador, ao invés do fã em busca de fama e reconhecimento.

É essa busca pela fama e o desejo de se transformar em celebridade, que permeia toda a trama do filme; a escolha de Jerry Lewis para interpretar seu xará Langford é perfeita, falecido em agosto de 2017, ele foi o próprio rei da comédia, e um dos, senão o maior nome do gênero. Aqui, no entanto, demonstra não se limitar a provocar risos, mas dominar também o drama.

A união da atuação de Lewis com a de um Robert De Niro em plena forma é um dos pontos fortes do longa, evidenciando a tristeza da perda do primeiro e da atual fase do segundo, que participou de filmes com roteiros fracos e atuou na maior parte das vezes como se estivesse no piloto automático.

Ao sonhar com a fama, Pumpkin lhe atrela obviamente a fortuna, mas também toda a felicidade que tem lhe escapado, como o amor e o respeito de Rita Keane (Diahnne Abbott), com quem em suas fantasias chega até mesmo a se casar no programa de Jerry Langford; não basta conquistá-la, é preciso que todos vejam sua conquista em rede nacional e fiquem felizes por ele.

A ideia de que a fama seja um passaporte garantido para a felicidade mostra-se ilusória quando vemos a vida de Langford, para quem é impossível uma simples caminhada sem que seja abordado por inúmeras pessoas, e o suposto amor do público converte-se em histeria coletiva, com multidões avançando aos trancos na saída do estúdio. Além disso, o sentimento dos fãs se desfaz ao menor sinal de rachadura na imagem perfeita construída, como na cena em que uma mulher pede para que Jerry fale em um telefone público com seu sobrinho que está no hospital. Ao ter seu pedido negado, ela, que diz ter acompanhado toda sua carreira, torna-se agressiva e lhe deseja que tenha câncer.

Notem também que o “Rei da Comédia” quase nunca sorri durante o filme.

Outra personagem importante é Masha, que se alia com Rupert em sua busca por Jerry, mas se Rupert está obcecado em obter fama, ela está obcecada com seu ídolo, o próprio Jerry. Ela só consegue pensar nele, acredita e diz que o ama, e precisa que ele também saiba que ela existe.

Não é este o desejo maior da maioria dos fãs? Que seu ídolo saiba quem são, assim como sabem quem ele é?

A obsessão de Pumpkin em obter a aprovação de Jerry rende uma sequência de cenas tensas onde o sentimento que domina é a vergonha alheia aliada à sensação de que as coisas saíram do controle e provavelmente terminarão me prisão ou algo pior.

E para o comediante não há nada pior do que o anonimato, é por isso que no terceiro ato do filme, ele arrisca todas as suas fichas em um plano que pode torná-lo conhecido, mas que inevitavelmente terminará com sua prisão.

Antes preso e famoso do que livre e anônimo, talvez ainda melhor traduzido pela frase: “é melhor ser rei por uma noite do que idiota a vida inteira”.

O Rei da Comédia não costuma ser lembrado como um dos melhores trabalhos de Scorsese ou de De Niro, mas é uma obra que não perdeu sua atualidade, ainda mais quando levamos em consideração as redes sociais e os criadores de conteúdo, desesperados e dispostos a qualquer coisa por compartilhamentos, curtidas e mais seguidores.

Um novo mundo, mas a piada ainda é a mesma.

Fernando Fontana

Fernando Fontana é escritor e adulto amador, criador do Site Super Ninguém e colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre filmes e quadrinhos antigos. Tá sabendo da novidade? Somos parceiros da Amazon. Vai comprar na Amazon? Utilize o código: canalmetali06-20! e dê uma força para o canal.

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