Coluna F3

O mundo fantástico de Nonnonba

Shingeru Mizuki é muito importante para os mangás, é um dos principais pilares da indústria ao lado de Osamu Tezuka, Shotaro Ishimori e Mitsuteru Yokoyama. Shingeru levou uma vida dedica às HQs criando diversas obras, sendo que algumas delas serviram de referência para muitos criadores antigos e até modernos. Entre elas há algumas com tons autobiográficos, que felizmente chegaram ao Brasil, numa ele fala de sua experiência durante a guerra do pacífico em outra vale-se de reminiscências de sua infância, Marcha para Morte e Nonnonba respectivamente, ambas publicadas pelo selo Tsuru da editora Devir.

Nonnonba se passa na década dos anos 30, numa pequena vila japonesa chamada Sakaiminato, nessa obra acompanhamos o garoto Shigeru Muraki e Nonnoba, uma anciã que acaba cuidando do menino e de seus irmãos após a morte de seu marido. Ela é uma inesgotável fonte de conhecimento, sabe diversas histórias sobre os mais variados tipos de Youkais, criaturas fantásticas que fazem parte de um Japão mais antigo, uma espécie de folclore. Seu conhecimento é transmitido ao jovem Shigeru que se deleita ao ouvir esses contos de fadas, lendas ou se preferir relatos históricos. Muraki usa esse aprendizado para criar suas próprias histórias, fica tão imerso nesse universo que consegue até interagir com esses seres em momentos que ficam no limiar entre o assombroso e o fantástico, a fantasia passa, em alguns momentos, a se sobrepor ao que acontece na realidade. 

A trama começa com pouca participação desses seres fantásticos, mas conforme vai sendo explorada a relação entre o menino e sua “tutora” logo muda de perspectiva e eles passam a ser cada vez mais relevantes. É necessário lembrar que a história ocorre numa pequena comunidade à beira do mar, um vilarejo bem pobre e rural longe do desenvolvimento econômico de outras partes do país, daí a importância desses mitos transmitidos pela oralidade. A morte também é companhia das pessoas, sejam crianças ou idosos ela chega de forma inesperada, o próprio enredo é iniciado com tais apontamentos, o garoto perde uma amiguinha para o sarampo enquanto a idosa fica sem seu companheiro, ambos os falecimentos são repentinos e pegam os personagens e os leitores de surpresa.

Os garotos nessas comunidades formam pequenas gangues, passam seus dias lutando com paus e pedras, essas brincadeiras bélicas são consequência direta do movimento de militarização do Japão, assim como o país se dirige a um conflito armado os jovens valem-se de bandeiras e gritos de guerra para defender seus espaços e futuramente sua nação. Era necessário fazer parte desse grupo de mini soldados para poder ter amigos, ser banido dele era o mesmo que ser excluído socialmente. Apesar de ser um importante foco da obra, esses combates são vistos como desnecessários, há uma bela mensagem pacifista por parte do mangaká, a guerra, no caso essas lutas entre grupos rivais não é sinal de força e sim de fraqueza, o autor mostra que devemos nos respeitar e nos unir. 

Shigeru quando não estava nessas lutas passava boa parte do se tempo desenhando histórias sobre a realidade fantástica que ele aprendia com a simpática velinha. Ele já era bem imaginativo, não necessitava de mais “incentivos”, mas conforme a velinha conta esses causos, o garoto passa a se encontrar com uma variada gama de monstros, fantasmas, demônios e todo um arcabouço de horripilantes criaturas. A idosa, ao menos há relatos de que existiu uma Nonnonba, é responsável pela paixão do autor do mangá por histórias fantásticas. Shigeru Mizuki é tido como um dos mais famosos ilustradores desse folclore no Japão moderno. Outro ponto interessante é que esses seres mitológicos não são retratados de forma apavorante e sim como versões mais palatáveis, menos assustadoras que traduzem de forma respeitosa esses contos.

O núcleo familiar de Shizuki era formado por dois irmãos um caçula e outro mais velho que são seus parceiros de aventuras, há outros aspectos da juventude que é mostrado na obra através de suas histórias. A mãe que é muito orgulhosa e sempre disposta a lembrar que seu nome faz parte de uma prestigiosa família, que caiu em decadência,  é mais realista, preocupada com os rumos da família. Ao contrário do pai que é bancário, mas que gostaria de viver como um contador de histórias, apaixonado por cinema e pelos avanços tecnológicos, ele incentiva a seu modo a parte artística do protagonista, como o garoto ele tende a misturar suas fantasias com a realidade.    

Entre a escola, as batalhas de mentirinha, suas criações artísticas, travessuras com os irmãos e o aprendizado com a anciã o garoto ainda arranja tempo para se apaixonar, sua primeira paixão é a garota Chigusa, que veio até o vilarejo para repousar, ela está doente e seus cuidados ficam a cargo de Nonnonba. Mizuki fica muito próximo da jovem que é mais uma fonte de ensinamento, pois ela conhece comidas diferentes, já viu um elevador e um automóvel entre outros avanços. Ela lê e aprecia muito as histórias que o menino cria. Como a doença e o falecimento são coisas naturais onde o protagonista vive, é natural que o mundo dos espíritos passa a fazer mais sentido na rotina do garoto, ele se questiona sobre a vida e a morte. Os seres fantásticos da obra são parte de uma tradição japonesa, eles se relacionam com muitos aspectos da vida cotidiana daquele país há Youkais de todos os tipos e para todas as situações que afetam tanto os crentes como os descrentes.

Nonnonba é uma explosão de simplicidade e expressividade, a arte é leve e de fácil compreensão, sem grandes inovações estéticas, muito competente e encantadora. É uma história muito suave e refrescante mesmo abordando temas tão diversos como a solidão, a depressão, devaneios, amor, tráfico humano, guerra e morte. É um exemplo de como um mangá pode ser tão universal e ao mesmo tempo tão relevante, é uma obra fundamental que faz conexão com jovens e adultos, nela há o encantamento da infância traduzido com uma sinceridade impressionante, indispensável a todos que buscam uma boa história ou que querem conhecer os clássicos.

Fernando Furtado

Fernando Furtado, formado em cinema pela FAAP, estudou quadrinhos na Quanta Academia de Artes, fez curso sobre a história das HQs com Sônia Bibe Lyuten, oficina de roteiro para HQs com Lourenço Mutarelli, assistente editorial e tradutor na Brainstore editora. Atualmente professor de inglês e advogado.

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