Vídeo Locadora

O Lutador (2008)

Para o protagonista de longa de Aronofsky, a vida machuca mais e é muito mais complicada do que a Luta Livre

No final da década de 80, a Luta Livre Norte-Americana era um espetáculo que reunia milhares de fãs em eventos e milhões de pessoas em frente à TV para assistir seus lutadores em roupas multicoloridas executando golpes acrobáticos em combates coreografados e com resultados previamente combinados.

Surgiam superestrelas como Hulk Hogan e sua “Hulkmania”, defendendo seu título e as cores da bandeira norte-americana, ganhando fama e dinheiro.

Havia, no entanto, o lado sombrio por trás do espetáculo, lutadores faziam uso de anabolizantes para conseguirem manter a forma física exigida, e muitos não sabiam como lidar com a fama ou com o fim da mesma, normalmente seguido por problemas financeiros e de saúde.

Exemplos de mortes trágicas na luta livre não faltam, como Mr. Perfect, morto em 2003, aos 44 anos, Umaga, em 2009, aos 36 anos, ou Chyna, em 2016, aos 46 anos, todos em decorrência de overdose.

É sobre este aspecto sombrio da Luta Livre Profissional que o filme “O Lutador”, do diretor Darren Aronofsky, se debruça, tendo como protagonista um inspirado Mickey Rourke, que interpreta Randy “O Carneiro” Robinson, um lutador que viveu seu auge e seus dias de glória no final da década de 80, lutando no Madison Square Garden para milhares de fãs contra seu principal adversário, o Aiatolá (Ernest Miller), e que agora divide seu tempo entre pequenos eventos para um público cada vez menor e o trabalho no depósito de um supermercado.

Além da cena de abertura, o longa nos dá pequenas pistas do quão famoso ele foi, como a Action Figure de si mesmo, que carrega dentro de sua Van ou o jogo para Nintendo onde você podia jogar com Randy ou com o Aiatolá.

O que Randy recebe nos eventos em que participa é muito pouco, daí a razão para ele se ver obrigado a ter um segundo trabalho, além disso, para garantir a ilusão do lutador campeão imbatível, ele gasta uma quantia elevada com tintura para cabelo, bronzeamento artificial, e, é claro, anabolizantes, para manter o seu físico, que já não é mais o mesmo depois de 20 anos.

Os anabolizantes cobrarão o seu preço, assim como cobraram de tantos outros lutadores.

Randy sofre um ataque cardíaco após um show onde, mais uma vez, ultrapassou os limites para poder chamar a atenção do público.

Instruído pelo médico a parar com os anabolizantes e com atividades físicas intensas, Randy se vê então obrigado a decidir se irá parar com as lutas ou correr o risco de sofrer um segundo ataque cardíaco, desta vez fulminante.

A questão levantada pelo roteiro é que Randy não sabe como lidar com a vida real; além de estar falido, está interessado em uma stripper também em final de carreira e que não quer seguir adiante com o romance, vivida por Marisa Tomei, e busca reatar a relação com Stephanie, a filha que abandonou no passado, interpretada por Evan Rachel Wood.

Na vida, ao contrário da luta livre, o final não está decidido antes da luta começar.

Se dentro do ringue, Randy é o Carneiro, o campeão que sempre vence e mantém o cinturão, do lado de fora, é apenas mais um na multidão, magoando pessoas ao redor, menosprezado e com contas vencidas, e isso o machuca muito mais do que os ferimentos sofridos nas apresentações.

Em uma cena chocante, Randy, trabalhando no balcão de frios do mercado, é reconhecido por um fã, e isso o leva a perder o controle, se ferir intencionalmente em uma máquina de cortar e pedir demissão para o gerente que o humilhava. Com o sangue, Randy estava acostumado, mas com a dor de ver o personagem que interpretou durante uma vida ser desmistificado, não.

Manter a ilusão do lutador de sucesso que derrota os adversários no ringue é mais importante do que tudo.

Não é apenas através do sangue que Aronofsky compara o trabalho no mercado com as batalhas no ringue, em outra sequência ele está se encaminhando para entrar no serviço, e ouvimos ao fundo o barulho abafado do público clamando por ele, encerrado abruptamente quando ele cruza a entrada para o balcão de frios.

Todos os atores estão bem, mas Rourke, em específico, dá um show, seja com um olhar para o passado, com os olhos marejados diante da filha que ele deixou para trás, ou da raiva diante de quem ele se tornou, é muito fácil sentir o que o personagem está sentindo, sofrer com ele e desejar que ele consiga vencer.

“O Lutador” é um título que pode enganar, a luta a qual se refere é a que todos nós travamos, do primeiro suspiro, até o derradeiro fechar de olhos.

Fernando Fontana

Fernando Fontana é escritor e adulto amador, criador do Site Super Ninguém e colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre filmes e quadrinhos antigos. Tá sabendo da novidade? Somos parceiros da Amazon. Vai comprar na Amazon? Utilize o código: canalmetali06-20! e dê uma força para o canal.

Artigos relacionados

Deixe uma resposta

Verifique também
Fechar
Botão Voltar ao topo