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O grandioso Eternauta

Fernando Furtado relembra um clássico argentino.

Você conhece o Eternauta?

A produção de quadrinhos da Argentina, diferentemente do Brasil, é fonte de grande orgulho tanto que há um museu para o humor gráfico em Buenos Aires, sem contar nas diversas estátuas dos personagens, mais reconhecidos da nona arte local, espalhadas pela cidade. Entre os diversos talentos um dos maiores é Héctor Germán Oesterheld, seu trabalho é tão importante que a sua produção literária é considerada pelo governo local como sendo de interesse cultural.

A obra-prima desse grande escritor é o Eternauta, a série original foi publicada em 1957 em formato que lembra as tiras de jornal, sendo impressa em capítulos semanais dentro da revista Hora Cero, com a arte de Francisco Solano López, sendo terminada em 1959, posteriormente reescrita em 1969.

Eternauta é inovador em diversos aspectos pois é uma obra de ficção científica que se passa na América do Sul, totalmente na cidade de Buenos Aires, narra a história de um grupo de pessoas comuns, tão mundanas que fazem parte da massa popular, não são garotões fortes e musculosos. Ademais a trama é contada em primeira pessoa diretamente ao escritor, após o narrador acidentalmente se materializar na casa Oesterheld, ele relata que veio do futuro e se chama Juan Salvo.

Salvo narra a seu criador sua história de como numa noite tranquila de jogatina entre amigos acontece o impensável, após um apagão o silêncio toma conta da cidade, os amigos observam pessoas mortas nas ruas. A alegria de quatro companheiros desaparece dando lugar a paranoia, o medo e as incertezas. A obra narra uma invasão alienígena, uma luta por sobrevivência contra um inimigo invisível, nomeado apenas como eles. O personagem principal é um homem comum, possui uma esposa e filha, passa por muitas incertezas, têm de buscar forças em momentos de medo e de angústia. Infelizmente é impossível discorrer sobre a obra sem dar os desagradáveis spoilers.

Eternauta 1969 diferentemente da primeira versão foi realizada pelo artista uruguaio Alberto Breccia, com um traço experimental incrível, usando diferentes técnicas como colagem, uso de pincel, de gilete, entre outros recursos gráficos, o trabalho de claro e escuro dá a obra um tom mais pesado e claustrofóbico, além do artista ter usado o semblante do Héctor para ilustrar Juan Salvo, para eternizar o criador e criatura como sendo o mesmo ser.

A história foi publicada na revista de variedades Gente, periódico como Caras ou Contigo, foi impressa também semanalmente entre o fim de maio e a metade de setembro, entre as fofocas e curiosidades apareciam três páginas escuras e pesadas que narravam uma invasão. Esse estranhamento levou a uma finalização acelerada por causar desconforto nos leitores habituais da publicação, motivo de pedido de desculpas pelos editores, segundo o escritor a obra não era para o público que consumia o semanal.

Nessa releitura Oesterheld faz algumas modificações como mudar o sexo de um dos personagens secundários, porém uma mudança que não foi tão sútil é a politização da obra, enquanto no original há uma invasão alienígena sem nenhum motivo político nesse remake a América do Sul foi oferecida como moeda de troca pelas grandes nações, seríamos dados como prêmio aos invasores para que eles não importunassem os países ricos, um posicionamento contra os Estados Unidos e a situação política da Argentina.

Em 2019 a editora Comix Zone lançou o Eternauta 1969, publicou em capa dura em formato grande, contando com 64 páginas. A capa e a contracapa trazem artes ampliadas de Breccia, ademais há um excelente texto do doutor em Sociologia André Pereira de Carvalho pela UFMG que informa a situação política na argentina de 1969 comparando com o Brasil de hoje, além de comentários de Guillermo Saccomanno e Carlos Trillo.

Como dito essa versão é uma obra completa que teve sua conclusão às pressas por desagradar os leitores da revista Gente, há uma redução substancial no tamanho da obra, a original são mais de 300 páginas, sua releitura conta com cerca de 50 páginas. Contudo, a fantástica arte de Breccia e o contundente texto de Oesterheld torna o quadrinho um deleite, uma obra essencial a todo apaixonado pela nona arte, é tão fabulosa que ganhará versão live action pela Netflix.

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