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Demolidor: O diabo de Zdarsky

Zdarsky escreve um demônio quebrado em busca de redenção.

Chip Zdarsky reinventa o Demolidor.

O personagem da Marvel conhecido como Demolidor teve diversas boas histórias nos últimos anos, o século XXI foi muito bom para o diabo da cozinha do inferno, com grandes escritores e desenhistas, a exceção sendo o filme com Ben Affleck, felizmente a série da Netflix com Charlie Cox conseguiu um resultado infinitamente superior ao longa, salvando as adaptações do herói para outras mídias.

A atual fase é escrita por Chip Zdarsky se inicia com as consequências do arco de Charles Soule, o homem sem medo agora é o homem quebrado, após uma breve passagem pela prefeitura de Nova Iorque, ao tentar salvar um idoso, clara alusão ao acidente que lhe deu poderes, acaba sendo atropelado por um caminhão ficando entre a vida e a morte, o que deixa sequelas físicas e mentais.

O arco de Zdarsky mostra um homem inseguro, sem um norte definido em busca de um sentido, para quem viu o seriado da Netflix existe uma certa semelhança, enquanto na versão live action ele sobrevive a uma explosão e posterior soterramento por um prédio, nas HQs  ele quase morre por causa de um veículo, acompanhamos, nas duas serializações a recuperação do herói, os seus questionamentos, as suas dores, o mau funcionamento dos seus poderes e a sua relação com a religiosidade.

Essa é uma das mais interessantes facetas do herói, as suas dicotomias, ou seja, o fato dele ser um homem da lei que genuinamente acredita no sistema, contudo que vive à margem da legalidade cometendo atos ilícitos para o bem maior, o outro lado da moeda fica a cargo da sua relação com a religião, ele é um homem de fé, acostumado a frequentar igrejas e se aconselhar com padres, nas atuais histórias os conselhos vêm de uma freira, todavia traja uma roupa vermelha que lembra um demônio.

Zdarsky apresenta um homem tentando recuperar os cacos de sua vida, agora um agente de condicional ao invés de advogado, a sua crença no sistema e no divino está abalada assim como seu propósito de vida. Ele questiona sobre a existência de Deus, se foi punido por cometer atos violentos que trazem ainda mais sangue a sua vida, se afasta de seus amigos, ficando mais isolado e inseguro, essa dúvida sobre o criador permite um excelente diálogo sobre o divino com um dos maiores e mais inteligentes heróis do universo 616, simplesmente genial.

A experiência de quase morte o persegue conforme volta às ruas para combater o crime, o seu corpo não é mais o mesmo, seus reflexos são lentos, seu radar não lhe dá a segurança adequada, seu fôlego é curto e suas habilidades de luta estão enferrujadas. Além de sua mente e corpo sendo seus inimigos outro problema é o atual prefeito Wilson Fisk, o rei do crime, que estando na cadeira promulga uma lei que proíbe a atuação dos vigilantes.

Outro antagonista muito bem trabalhado é o detetive Cole North vindo de Chicago, é um policial que respeita a lei à risca e vai fazer de tudo para prender o herói, sua atitude o coloca em rota de colisão com os demais homens de azul, vez que eles enxergam o diabo da cozinha como um herói e não alguém que deva ser caçado e levado à justiça. Esse homem é gigantesco, corpulento, mostrado como sendo muito maior que todos a sua volta, menos é claro que o enorme Fisk que propositadamente parece ser uma montanha móvel.

Provavelmente a ausência devido ao acidente e o desconforto em proteger os mais fracos compele o herói a ouvir o chamado prematuro às ruas. Numa de suas patrulhas noturnas, Matt enfrenta três ladrões que estão furtando uma loja, durante o confronto ele têm enormes dificuldades em derrubá-los, usa força excessiva e supostamente acaba matando um desses meliantes. A culpa e a dúvida permanecem latejando na cabeça de Murdock que tenta de todas as formas possíveis descobrir a verdade sobre esse falecimento.

Durante sua busca por provas o demônio escarlate enfrenta Cole, um exímio boxeador, ocorre um combate em meio da rua, cercado por policiais de forma bem violenta e gráfica. Aqui temos a participação de diferentes heróis que tentam ajudar a direcionar o homem sem medo, algumas delas são inesperadas e levam questionamentos bem válidos sobre erros, acertos e a validade das ações de vigilantes uniformizados. Uma das mais violentas investidas contra os homens de um conhecido inimigo ocorre nessa “temporada”, isso mesmo o atual sistema de publicações da Marvel é muito parecido com o de séries televisivas, permitindo ao leitor começar a ler nesse momento sem se preocupar com fatos anteriores.

Atualmente foram publicados dois encadernados por aqui, o primeiro conta com a expressiva e detalhada arte de Marco Checchetto com ângulos bem escolhidos que nos mostra todos os detalhes da ação, com excelentes enquadramentos, belas composições e ótimo entendimento de anatomia que dá contorno a um homem sofrendo com dores e esgotamento físico e mental, até os diálogos são dinâmicos e de encher os olhos.

O segundo encadernado a arte fica a cargo de Marco Checchetto e Jorge Fornés, esse no último capítulo enquanto aquele é responsável pelo restante das ilustrações, o desenho nessa segunda coletânea não é tão vistoso quanto o volume anterior, mostra o cotidiano, foca em Matt descobrindo como ser um cidadão responsável que busca responder seus questionamentos.

Nessa segunda HQ acompanhamos os desdobramentos e consequências da primeira revista não há tanta ação e sim o trabalho sobre a falta do herói, a tentativa de recuperar sua vida e se reerguer da melhor maneira possível. Apresenta um homem que é seguido pela culpa pelos seus atos e que é impulsivo quase se jogando em situações que irão o levar a desfechos desnecessários que servem apenas para atormentá-lo ainda mais, como um jantar que rende uma excelente discussão sobre quem seriam os verdadeiros vilões do mundo.

Temos aqui uma das melhores sagas do herói, Zdarsky mostra um homem sem medo e essa falta o leva a ser irresponsável, violento e sem freios, seu único receio é ser falível. Mostra como Fisk também necessita do herói e como, no caso de Cole, seguir algo cegamente pode ser interpretado de forma errônea. Um arco interessante, muito bem escrito que tem excelentes cenas de ação e discute de maneira interessante o vigilantismo, simplesmente imperdível.

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