No Século Passado

O dia em que o Justiceiro utilizou um picolé para torturar um mafioso

Esta história foi publicada no século passado, então, sim, tem spoiler.

Em um de seus esconderijos, Frank Castle, o Justiceiro, conversa com Mickey, capanga da família Carbone, que está amarrado e pendurado. Frank quer que Mickey o apresente para a família como um primo distante do Kansas, para que assim possa se infiltrar. Obviamente o mafioso resiste, diz que tem um código e que se ele o desrespeitar será morto por seus companheiros. Frank então decide tortura-lo com um maçarico, fazer com que sua morte seja lenta e dolorosa, para que, assim, quem sabe, no meio do processo, ele resolva colaborar.

A chama do maçarico, diz Frank, é tão absurdamente quente, que cauteriza as terminações nervosas, então, no começo, não há dor, só frio. A dor só chega quando você começa a sentir o cheiro de carne queimada. Logo em seguida, Frank mete um picolé nas costas de Mickey, enquanto usa o maçarico para torrar um suculento pedaço de picanha. Sem conseguir ver o que está acontecendo, e com sua imaginação trabalhando a mil, o mafioso decide colaborar.

A cena descrita acima acontece na história “Só os mortos conhecem o Bronopol”, publicada em “Punisher War Zone” nº 1, em março de 1992, com roteiro de Chuck Dixon e desenhos de John Romita Jr., e é tão inusitada, por assim dizer, que foi adaptada no filme do Justiceiro de 2004, segundo longa do personagem, que contava com Thomas Jane como Frank Castle e ninguém menos que John Travolta como principal antagonista.

Na década de noventa, os anti-heróis estavam bombando, e o Justiceiro chegou a ser publicado em três revistas ao mesmo tempo, sendo elas “The Punisher”, “The Punisher War Journal” e a terceira e última, “The Punisher War Zone”. Enquanto super-heróis se recusavam a matar, o personagem sem poderes e que exterminava criminosos com armas de fogo caiu no gosto do público.

O primeiro arco de histórias de Punisher War Zone mostra justamente Frank se infiltrando com a ajuda de Mickey na família Carbone e utilizando as informações obtidas para destruí-los.

O roteiro de Dixon tem bons momentos como o da tortura de Mickey e no geral não decepciona, entregando o que os fãs esperavam, e é justamente aí, na tentativa de entregar o que os fãs queriam ver, que a história perde um pouco de sua força. Estamos falando da década de 90, ano da fundação da Image Comics, dos personagens musculosos e anatomicamente bizarros (Rob Liefeld mandou lembranças) e das armas gigantescas.

Estas características estão presentes no Justiceiro de Dixon e principalmente na arte de Romita Jr., com cenas como a em que Frank invade uma casa de apostas da máfia com uma motocicleta usando um capacete com desenho de caveira e uma metralhadora com silenciador, mas explodem no personagem “Rifle”, retrato perfeito de seu tempo, que irá se aliar a Castle no seu confronto com os Carbone, e que carrega armas com tamanho e poder de fogo surreais.

Um personagem como Rifle simplesmente não se encaixaria em histórias mais sombrias do Justiceiro como as que vemos na fase de Garth Ennis, por exemplo, e se a fase de Dixon não é tão celebrada quanto, mantém seus méritos em uma abordagem mais “heroica”, com ênfase nas aspas.

Para quem quiser conferir o Justiceiro torturando com um picolé e tacando o terror na máfia, a Editora Panini acaba de lançar no Selo Marvel Vintage um encadernado com as seis primeiras histórias publicadas em “Punisher War Zone”.

Fernando Fontana

Fernando Fontana é escritor e adulto amador, criador do Site Super Ninguém e colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre filmes e quadrinhos antigos. Tá sabendo da novidade? Somos parceiros da Amazon. Vai comprar na Amazon? Utilize o código: canalmetali06-20! e dê uma força para o canal.

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