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O dia em que o Demolidor derrubou o Homem-Aranha e depois foi salvo por ele

Esta história foi publicada no século passado, então, sim, tem spoiler.

Ok, super-heróis saindo no braço por absolutamente nada para logo depois se tornarem “Best Friends Forever” não é novidade para ninguém, são, aliás, uma das principais fontes para essa coluna que tem por hábito utilizar títulos safados como o deste texto para atrair o público, mas especificamente hoje, vale a pena prestar um pouco mais de atenção quando dois personagens são colocados frente a frente por possuírem visões diferentes de como lidar com um assassino serial.

Para compreender o contexto da história é bom voltar para a década de 80, com sua explosão de consumismo, suas roupas e penteados extravagantes e a onda de violência que atingia as grandes cidades como Nova York, levada para as telas do cinema em filmes como “Warriors – Os Selvagens da Noite” e a franquia “Desejo de Matar” com Charles Bronson.

Nos quadrinhos, a época da inocência e dos heróis perfeitos também encontrava seu fim com a chegada de obras como “Watchmen” de Alan Moore, “Cavaleiro das Trevas” de Frank Miller, “Morte em Família” de Jim Starlin, entre outras. Para o Homem Aranha e o Demolidor não foi diferente; o Homem sem Medo teve seu pior momento em “A Queda de Murdock” (1986), quando sua identidade secreta caiu nas mãos do Rei do Crime que o fez descer ao fundo do poço! Nesta mesma época, o Homem Aranha assistiu o assassinato ao brutal assassinato de sua amiga e aliada, a capitã Jean Dewolff, pelas mãos do Devorador de Pecados.

O responsável pelo roteiro desta que na época foi classificada como “a melhor história do Aranha dos últimos tempos” (frase estampada na edição 88 do antigo formatinho publicado pela editora Abril em 1990), foi Peter David, com ilustrações de Rick Buckler, e seguindo a tendência, trazia a morte da Capitã Jean Dewolff, aliada do Homem-Aranha dentro da polícia.

O Devorador de Pecados eliminava pessoas com poder que, em sua opinião, defendiam e mimavam excessivamente os criminosos. Além de Dewolff, outras vítimas suas foram o juiz Horace Rosenthal, que aplicou sentenças brandas e o padre Bernard Finn, que era contra a pena de morte.

O confronto entre o Homem Aranha e o Demolidor começa a se desenhar na primeira das quatro edições da saga, quando Matt Murdock defende e consegue colocar em liberdade três jovens membros de gangue que foram presos pelo Aranha logo após roubarem e espancarem o sr. Popchick, idoso que morava na pensão de sua tia May.

Um Parker irritado com a sentença grita com Murdock no tribunal: “É gente como você que mantém caras assim a salvo! Como consegue se olhar no espelho?” (o que lhe rende uma bronca da tia May, já que Murdock é cego e por razões óbvias não costuma “se olhar” no espelho).

Como Homem-Aranha, Peter combate o crime em Nova York e tem uma visão mais simples (e com a qual é difícil não simpatizar) de que criminosos como os que agrediram o sr. Popchick devem ser jogados na cadeia onde devem passar um bom tempo pagando pelos seus erros. Já Murdock, embora enfrente um forte dilema moral que ele, inclusive, apresenta para o Juiz Rosenthal, seu antigo professor, acredita que todos são iguais perante a lei, merecem um julgamento justo e com um advogado que dê o melhor em sua defesa.

Demolidor e Homem Aranha se dedicam a caçar o Devorador de Pecados, mas com métodos diferentes. Se Parker criticou Murdock por defender criminosos no tribunal, agora é a vez do Demolidor criticar o Aranha por coagir e colocar em risco a vida de um conhecido traficante chamado Gerald Jablonski, na tentativa de obter informações que pudessem levá-lo ao assassino de Dewolff. Jablonski que foi solto porque apesar de ser notoriamente culpado, teve as acusações retiradas pois as provas apresentadas pelo estado foram obtidas ilegalmente.

O ápice da desavença entre ambos ocorre quando o Aranha finalmente encontra, desarma e desmascara o Devorador, que era Stan Carter, ex agente da Shield e o detetive responsável pela investigação da morte de capitão Dewolff. O que piorou tudo foi o fato de Peter encontrar Carter prestes a matar Betty Brant, sua amiga e ex namorada dos tempos de colégio.

Descontrolado ele começa a espancar um Stan já desarmado e sem condições de se defender, e provavelmente o teria matado, caso o Demolidor não entrasse em cena, atraindo o aracnídeo para longe do Devorador. Eles lutam, e em uma situação normal, o Demolidor jamais seria páreo para o Aranha, mas, cego pelo ódio, Peter acaba se expondo e sendo derrubado.

Após isso, há uma cena que vale a pena ser mencionada, envolvendo o sr. Popchick, que foi espancado pelos três criminosos que saíram em liberdade. Sem fé no sistema defendido por Matt Murdock, o idoso sai de casa carregando uma pistola automática, antiga arma que utilizou quando lutou na guerra.

Mais uma vez encurralado por jovens membros de gangue, desta vez no metrô, Popchick saca a arma e dispara contra os três, fugindo logo depois. Há aqui um novo questionamento aberto ao leitor. Ele agiu certo? Ainda que Murdock defenda o outro lado, o que defende o uso da lei, e posteriormente aceite ser, de graça, o advogado de defesa do sr. Popchick, o roteiro de David parece não conseguir fazer o leitor pender para o ideal do herói escarlate. Inconformados com os três bandidos que foram soltos antes, o normal é simpatizarmos com a tentativa da vítima se defender.

A reconciliação entre os heróis vem quando uma multidão enfurecida tenta linchar Stan Carter e o Demolidor mais uma vez interfere. Prestes a também ser linchado, ele e Stan são salvos pelo Homem-Aranha.

A “Saga do Devorador de Pecados” e a morte de Jean Dewolff teria uma sequência dois anos depois, mas isso fica para outra oportunidade. Fato é que esta é uma das histórias mais lembradas pelos fãs do Aranha, com uma série de questionamentos sobre lei, ordem, justiça com as próprias mãos, certo e errado, que a tornam uma leitura obrigatória.

Para quem se interessou, a Panini acaba de relançá-la em um encadernado do selo “Marvel Vintage”.

Fernando Fontana

Fernando Fontana é escritor e adulto amador, criador do Site Super Ninguém e colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre filmes e quadrinhos antigos. Tá sabendo da novidade? Somos parceiros da Amazon. Vai comprar na Amazon? Utilize o código: canalmetali06-20! e dê uma força para o canal.

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