No Século Passado

O dia em que o Batman ameaçou matar um inocente para não ser preso pelo Superman

Esta história foi publicada no século passado, então, sim, tem spoiler.

Em 1986, logo após o fim da saga “Crise nas Infinitas Terras”, a DC Comics tinha a tarefa de recontar a história de seu universo e de seus principais personagens a partir de uma tela em branco, e entre eles, estava a sua tríade sagrada, com Batman, Mulher Maravilha e, é claro, Superman.

O escolhido para escrever as histórias do Homem de Aço pós-crise, foi John Byrne, já aclamado por seus trabalhos na Casa das Ideias, com o Quarteto Fantástico e X-Men.

O Superman pré-crise estava muito mais próximo de uma divindade, tamanhos eram seus poderes em uma época em que os roteiristas não tinham limites, sendo capaz de viajar no tempo com sua supervelocidade (algo que também vimos no primeiro longa estrelado por Christopher Reeve em 1978) ou arrastar um planeta puxando-o por uma corrente.

Byrne o manteve como um dos super-heróis mais poderosos, conhecidos e com um severo código de ética, mas reduziu sensivelmente estes aspectos com o objetivo de torná-lo mais crível para o público leitor das HQs.

O icônico uniforme azul e vermelho e o disfarce tirando os óculos e penteando o cabelo de forma diferente foram mantidos, mas nem o Homem de Aço e nem Krypton, seu planeta Natal guardaram a ingenuidade típica dos anos passados, e seu principal inimigo, Lex Luthor, foi reimaginado como um megalomaníaco empresário capaz de tudo para alcançar seus objetivos, e que tinha Metropolis na palma de sua mão até o surgimento do Superman.

Entre estas muitas mudanças, uma das maiores foi o relacionamento entre Clark e Bruce Wayne, que se na era pré crise eram grandes amigos e atuavam juntos na Liga da Justiça (quem não se lembra do desenho dos “Superamigos”?), na versão de Byrne não se conheciam pessoalmente e tinham grandes divergências quanto ao modo de lutar contra o crime.

O primeiro encontro entre ambos ocorre na edição número 3 da minissérie “Man of Steel”, quando o Superman simplesmente aparece em Gotham City e tenta prender o Batman por sua atuação como vigilante. Clark inclusive subestima o Morcego já que suas fontes indicavam que se tratava de um excelente atleta e detetive, mas sem qualquer superpoder.

Também há uma certa dose de arrogância no escoteiro, já que ele sequer tenta conversar, só informa o Batman que o está prendendo, mas você, Nerd esperto, certamente já deve ter ouvido pelas discussões da internet afora que o Batman com preparo vence até Darkseid, certo?

Pois é, amigo, e ele estava preparado; utilizando um aparato que cria um campo de força que detecta objetos superdensos, no caso, o Superman, informa o Kryptoniano que, caso ele se aproxime demais, uma bomba matará um inocente.

Agora, isso surpreende o Superman, o deixa puto, afinal, como pode arriscar a vida de um inocente apenas para se proteger de mim? Poderia ser um blefe? Sim, poderia, mas nessa versão Clark não conhece quais os limites do Morcego, e seus sentidos também são capazes de detectar sinais que deem a entender uma possível mentira, o que não acontece, então, o jeito foi aceitar e ouvir.

O Batman estava atrás de uma vilã de segunda categoria chamada Magpie, uma maluca que ama joias e objetos brilhantes, e deu início a uma série de roubos. Até aí nada demais porque a Mulher Gato também faz isso, mas a demente faz questão de deixar no lugar dos furtos, objetos letais, que matam quem os toca inadvertidamente. A maluca já tem as joias, mas a troco de absolutamente nada, ainda faz questão de matar, ou seja, material perfeito para o Arkham.

Para encurtar a coisa toda, Magpie evidentemente acaba presa pela dupla de heróis; é até covardia, a moça não deu nem pro cheiro contra as habilidades de detetive do Batman e a força do Superman, que acaba se convencendo que o crime em Gotham City não funciona da mesma forma que em Metropolis, e que o Morcego precisa de táticas diferentes, embora ainda não as aprovando.

O ponto alto da história é quando Clark diz para o Morcego que vai deixá-lo ir por enquanto, mas que a bomba no inocente precisa ser desativada. Bruce tira a bomba do próprio cinto de utilidades e a entrega para o Superman.

Sim, a bomba esteve o tempo todo com ele, fazendo com que não precisasse mentir e não fosse descoberto pelos sentidos ampliados do herói de Metrópolis. De maneira simples, Byrne estabelece as características dos personagens, seus pontos fortes e o início de uma dinâmica que envolve discordância e respeito.

Um encontro que termina com uma frase dita pelo Batman que faz referência às histórias do passado quando ambos eram aliados: “Eis um homem extraordinário sob muitos aspectos. Talvez em uma outra realidade eu poderia chamá-lo de amigo”.

Para quem desejar ler “Man of Steel”, a minissérie já foi publicada no Brasil em mais de um formato e em diversos encadernados, o mais recente deles é o Volume 01 de “A Saga do Superman”, pela Panini, e que por não vir com capa dura, tem um preço um pouco menos salgado.

Fernando Fontana

Fernando Fontana é escritor e adulto amador, criador do Site Super Ninguém e colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre filmes e quadrinhos antigos.Tá sabendo da novidade? Somos parceiros da Amazon. Vai comprar na Amazon? Utilize o código: canalmetali06-20! e dê uma força para o canal.

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