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O AMERICAN FLAGG de HOWARD CHAYKIN

Sobretudo para quem relê, American Flagg passa a impressão de ser a série mais injustiçada, em termos de reconhecimento, da década de 80. Desbravadora no visual, presciente na temática e ousada na abordagem, recebe muito menos destaque do que merecia nas listas e enciclopédias.

Howard Chaykin pode até apresentar uma sátira mais aguda em Power & Glory, temática mais ousada em Black Kiss e em Divided States of Hysteria e narrativa mais afiada em Time2. Mas será lembrado por ter definido sua voz com American Flagg.

American Flagg narra as aventuras de um ator convertido em ranger, homem da lei ou policial, num futuro dominado por empresas gigantes, que eliminam fronteiras geográficas e padronizam comportamentos. Parece Amazon.com, parece Nike, mas é um gibi de 1983 da First Comics. Realidade virtual, drogas recreativas, manipulação da mídia de massa, Howard Chaykin viu tudo antes.

Não só viu como inventou um jeito seu para narrar esta história. Enquanto certos artistas são tão didáticos que só faltam conduzir o leitor pela mão, Howard Chaykin senta o leitor num carrinho de montanha-russa e mal avisa para apertar o cinto. Como se isso fosse pouco, American Flagg ainda tem o mérito de mostrar sexo de uma maneira naturalista, algo raro em quadrinhos norte-americanos, que só tem paralelo nos personagens cheios de tesão da Palomar de Gilbert Hernandez.

Para ilustrar isso tudo, Howard Chaykin usa um traço estilizado, porém vigoroso, com um sombreado de crayon que cria uma textura única. Os arcos esticados por 3 ou 4 edições permitem reduzir o número de quadrinhos por página, resultando em designs de página tão inovadores quanto legíveis. Finalmente, Flagg também inaugura a parceria com o mago da tipografia Ken Bruzenak, que levou as onomatopeias a outro patamar.

Não há outra palavra possível: um clássico.

American Flagg foi o primeiro título publicado pela First Comics e durou 50 edições. Chaykin largou o roteiro do título na edição 30 (foi substituído por Mark Badger e por Paul Smith, entre outros) e passou a dividir o roteiro com Steven Grant, que assumiu o roteiro do título após a edição 35. A partir da edição 39, Chaykin começou a retornar aos poucos, escrevendo roteiros e ilustrando uma página por edição, dividindo o texto com J. M. DeMatteis. Já nas últimas edições do título, Howard assume como roteirista e a arte passa a ser de Mike Vosburg, que tenta emular seu traço.  Essas últimas histórias preparam o terreno para o segundo volume que foi lançado ainda em 1988, poucos meses após o fim da série.  Infelizmente, Howard Chaykin’s Amerikan Flagg! que teve a colaboração do roteirista John Francis Moore, durou apenas 12 edições.

A ausência de Chaykin do título ocorreu porque ele estava envolvido na Série do Sombra e nas Graphic Novels Time2. Quando retornou, o autor fez a história voltar ao último ponto escrito por ele, algo que anos depois, foi copiado por John Byrne em sua passagem pela Mulher-Hulk.

No Brasil, American Flagg estreou no Brasil em 1987. Foi uma das quatro revistas da First Comics publicadas pela Cedibra, que publicou as quatro primeiras edições do título. Sua editora seguinte, a Abril, testou a popularidade do personagem lançando um compilado de suas três primeiras aventuras na Graphic Album 3 – Tempos difíceis em 1990 e em 1991, ele ganhou um título próprio que durou apenas 12 edições. Após praticamente duas décadas de ausência, o título retornou em 2015 pela editora Mythos, num encadernado de capa dura que compilava as primeiras 12 edições do título.

 

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Rafael Lima

Rafael Lima escreveu nas revistas eletrônicas Sobrecarga, Falaê, Burburinho e Digestivo Cultural; hoje, prefere desenhar. Ainda hoje, tem uma ligação afetiva com os quadrinhos independentes das décadas de 80 e 90, os quais mantiveram seu interesse em continuar lendo. Morou vários anos fora e, hoje, acha engraçado quando se usa o termo "importado" para referir ao quadrinho não nacional. Não tem gatos nem cachorros.

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