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O Advogado do Diabo (1997)

Quando vencer é mais importante do que fazer justiça

Fernando Fontana alugou um clássico de Keanu Reeves e Al Pacino.

Em 2006, estreava nos Estados Unidos, a série “Shark” (Tubarão), que fazia referência ao seu protagonista, Stark (James Woods), que sempre atuou como advogado de defesa, mas que passa a trabalhar com a promotoria após um de seus casos ter um desfecho trágico.

A série não me fisgou, creio que assisti dois ou três episódios, mas me lembro de uma frase que me marcou, dita por Stark no primeiro deles, quando estava conversando com sua equipe, aqueles que chefiaria na promotoria. Ele afirma que a única coisa que importa é vencer, sendo imediatamente contestado por uma das advogadas: “e quanto à justiça?” – ela pergunta.

A resposta:

“Seu trabalho é vencer, deixe a justiça para Deus!”

Esta frase é mais do que apropriada para começarmos a percorrer os caminhos de “Advogado do Diabo”, filme de 1997, dirigido por Taylor Hackford, que narra a história de Kevin Lomax (Keanu Reeves), advogado de uma pequena cidade da Flórida, criado por Alice (Judith Ivey), filha de pastor, mãe solteira e devota fervorosa de sua religião, e casado com Mary Ann (Charlize Theron).

Lomax é advogado de defesa, nunca perdeu um único caso, e isso é um fato essencial para compreender boa parte de sua motivação. O personagem nos é apresentado enquanto defende um professor acusado de molestar sexualmente uma aluna. Durante o julgamento, no entanto, ele percebe, através de um gesto de seu cliente, que o mesmo é culpado das acusações.

A presunção da inocência e o direito a um julgamento justo são fundamentais para o direito penal, logo, os advogados de defesa devem fazer o melhor para provar a inocência ou reduzir a pena de seus clientes, mas e quando o advogado sabe que seu cliente é culpado dos crimes pelos quais é acusado?

Lomax fica dividido entre sua consciência e o seu ego, e com a primeira sendo derrotada, ele defende e consegue a absolvição do professor, mantendo sua série de vitórias no tribunal intacta.

Aparentemente sua invencibilidade chama a atenção de John Milton (Al Pacino), proprietário de uma das maiores empresas de advocacia de Nova York, que o chama para trabalhar ao seu lado.

O dinheiro e os mimos oferecidos (como um luxuoso apartamento) são, é claro, praticamente irrecusáveis, tanto para Kevin, quanto para Mary Ann, que aceitam se mudar para a grande cidade, mesmo contra os conselhos de sua mãe.

O roteiro poderia optar por manter o mistério sobre a verdadeira identidade de Milton, mas não o faz, seja por indiretas no princípio, e mais tarde por fenômenos paranormais, fica claro que Lomax é o advogado do título e o diabo, o homem que lhe paga o salário.

Por que não? Parece lógico que é do interesse do diabo ver os pecadores livres e soltos na Terra, fazendo o que fazem de melhor, desafiando as leis divinas.

 

O diabo interpretado por Pacino é sedutor, gosta de ver dois seres-humanos se golpeando em uma luta de boxe, gosta de tango, e evidentemente, gosta de sexo com lindas mulheres.

Ele não obriga Lomax a fazer nada, ao invés disso, oferece sempre uma escolha, você não precisa ficar com este caso, volte para sua mulher, se quiser, ela está doente e precisa de você.

Durante todo o segundo ato vemos que Mary Ann vai aos poucos enlouquecendo ao mesmo tempo que o casamento desmorona. Kevin não tem tempo para estar ao lado da esposa e ao mesmo tempo trabalhar em casos difíceis.

Mais do que a ganância, o diabo usa a vaidade do advogado ao seu favor, “talvez tenha chegado a hora de perder o seu primeiro caso” – ele diz sabendo qual será a sua reação.

É no terceiro e último ato, no entanto, que Pacino se solta e entrega uma atuação fantástica, mas que fica no limiar do exagero. Nos últimos trinta minutos temos uma conversa franca entre Lomax e o diabo.

Você se lembra da frase mencionada no começo deste texto? O trabalho de um advogado é vencer, a justiça fica para Deus? Kevin Lomax diz algo semelhante:

“Perder? Eu não perco! Eu venço! Eu venço! Eu sou um advogado, esse é o meu trabalho, é o que eu faço!”

Lomax até tenta a cartada mais óbvia, na dúvida, jogue a culpa na serpente, ela me ofereceu a maça; acusa o senhor do inferno de ter mentido, ludibriado, de criar armadilhas, mas a ilusão logo se desfaz quando o diabo, sempre hábil em citar as escrituras quando lhe convém, profere as duas palavras mágicas: livre arbítrio.

Você já deve ter se perguntado inúmeras vezes como alguns seres-humanos são capazes de atos tão hediondos, e no decorrer de “O Advogado do Diabo” certamente irá se perguntar: como alguém, uma vez sabendo que tais indivíduos realmente cometeram tais atos, podem mentir para obter sua liberdade?

Nada pessoal, são apenas negócios, alguém pode lembrar.

Com a face iluminada pelas chamas de sua lareira, aos berros, o diabo apresenta a sua própria versão: “A vaidade, sem dúvida, é o meu pecado favorito. O amor próprio é o narcótico mais natural”. E para não ser contestado, ele diz ser um grande fã do homem, um humanista, e como tal, profundo conhecedor da natureza humana.

O ponto fraco do filme é justamente o seu final, com o roteiro optando por uma solução fácil, destoando do restante e, de certa forma, decepcionando. Podia ser melhor, mas não compromete a obra, que permanece um reflexo de algo que é bastante real.

Remova o diabo, a máxima representação antropomórfica do mal da equação, e ainda teremos o mesmo mundo, homens, desejos, instintos e julgamentos onde a justiça nem sempre é a protagonista.

 

 

 

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