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No Século Passado: Tio Sam

Esta história foi publicada no século passado, então, sim, tem spoiler.

Tio Sam, o imponente arsenal da democracia e a personificação do sonho e do modo de vida norte-americano.

Não é bem assim na visão de Steve Darnall e Alex Ross, responsáveis pelo roteiro de Tio Sam, minissérie em duas edições, publicada em 1997 pela linha Vertigo da DC Comics.

Para eles, o senhor de cavanhaque e cabelos brancos, com sua cartola e roupas com as cores da bandeira, famoso pelo cartaz de 1917, onde aparece com o dedo em riste e com os dizeres: “Eu quero você para o Exército dos Estados Unidos”, não passa de um velho mendigo perdido nas ruas, imundo e com as calças urinadas, sem memória e procurando comida no lixo.

Não, não é muito sutil.

Enquanto caminha sem rumo, Sam recorda-se de fragmentos de sua história, e dos muitos erros cometidos, o genocídio dos índios, a segregação racial, a Guerra Civil que matou mais norte-americanos do que todas as outras guerras juntas, a intervenção política e militar em outros países, o mal explicado assassinato de John Kennedy, “você acredita em magia? Acredita que duas balas podem ferir dois homens sete vezes? Que dezoito testemunhas podem morrer ao longo dos três anos seguintes?”.

A história foi escrita em 1997, portanto 4 anos antes do 11 de setembro, da queda do World Trade Center, e das guerras do Afeganistão e do Iraque.

Seriam novas feridas e memórias ruins para o velho Tio Sam.

Em uma cena que faz sentido tanto lá como cá, Sam ouve o discurso de um candidato ao senado, mas o que ele ouve não é o que o homem diz, mas o que ele realmente acredita, então, ao invés de “provamos que vocês queriam eleger o governo certo”, ele ouve “provamos que um adulto alegando representar o povo, abaixaria as calças para qualquer lobista de corporação com um cheque em mãos”.

O mais interessante é que mesmo antes do discurso começar, o velho símbolo percebe que há algo de errado, que o público está descrente nas promessas feitas e que não há alegria nas palmas.

Descrença nos políticos é um mal que ocorre nas duas Américas.

Ele também conversa com o espírito de outras nações, como a rainha dos sete mares Britânia, com a qual foi unido no passado, e que o classifica como o resultado de um experimento arriscado, e o Urso Soviético, antigo inimigo, que agora o questiona: “Você se acha o único símbolo que equivalia a um ideal e acabou sendo pervertido?”.

E justamente sobre isso que se trata essa minissérie, a perversão de um ideal, a corrupção de um sonho, transformado em algo completamente diferente.

Enquanto o antigo símbolo está em farrapos, o novo Tio Sam brilha em roupas novas, fuma notas de 100 dólares, e senta-se confortavelmente no trono erigido pela mídia, sua mais fiel aliada.

O novo sonho nada tem a ver com liberdade, igualdade e busca pela felicidade, mas com fama, consumo e poder, principalmente poder.

 A história fatalmente caminha para o confronto entre o velho e novo:

“Eu fiz tudo para as pessoas enfrentarem os problemas. Você manda que eles os ignorem. Isso, filho, é propagar a fraqueza. Você é o espírito de uma nação, mas não é a América”.

Além do roteiro, Alex Ross é o responsável pelas ilustrações, e depois de “Marvels” (1994) e “O Reino do Amanhã” (1996), sua arte dispensa comentários, é simplesmente fantástica.

Se você acredita que quadrinhos e política não se misturam, passe longe (aproveite e fique longe de X-Men, V de Vingança, Watchmen e algumas outras), agora, se você curte uma boa história com uma crítica inteligente aos valores que regem uma sociedade, esta HQ é um prato cheio, um belo X-Burger com fritas e Coca-Cola, se preferir.

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