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No século passado – Surfista Prateado: Parábola

Esta história foi publicada no século passado, então, sim, tem spoiler.

Eles têm sede de liderança como um bebê anseia pelo leite materno”.

Em 1987, na cidade de San Diego, duas lendas almoçavam juntas; Moebius e Stan Lee, ambos dispensando apresentações e nutrindo profunda admiração pelo trabalho um do outro.

Desta admiração surgiu a ideia de trabalharem juntos, e não importa a história que decidissem contar, com a presença de suas mentes criativas, era seguro apostar: seria fantástico.

O personagem escolhido foi o Surfista Prateado e o resultado foi “Parábola”, uma de suas melhores histórias, se passando em um futuro não tão distante e sem a presença dos demais heróis da Casa das Ideias.

Nela, Galactus surge mais uma vez na Terra, porém, ao invés de iniciar os preparativos para devorar o planeta, ele faz um discurso em tom divino: “Em troca de sua adoração, trago-lhes uma nova Era! Vim aqui para libertá-los! Libertá-los da culpa e das inúteis leis dos homens! Não existe nada errado! Não existe pecado! Prazer é tudo”!

Não é de se admirar que um ser do tamanho de Galactus faça com que inúmeras pessoas o reconheçam imediatamente como um Deus, e suas palavras como verdade inquestionável, atirando a população no caos absoluto.

Esse sentimento é reforçado pela atitude de um famoso sacerdote televisivo que vinha perdendo fiéis, e que enxerga em Galactus a oportunidade de recuperar seu prestígio: “Galactus pode me tornar o maior evangelista de todos”.

A genialidade do plano do Devorador de Mundos está no fato de que ele não descumpriu em momento algum a promessa feita ao seu arauto; a Terra não foi atacada, os próprios seres humanos estavam se destruindo ao seguir seus mandamentos.

É claro que o Surfista tenta fazer com que os humanos compreendam o quanto suas ações são irracionais: “Galactus é poderoso e seu poder é impressionante, mas só covardes idolatram o poder. Que relação a divindade teria com exibições de força ou o abandono da razão? O que há de sagrado na brutalidade ou ganância”?

A fala do herói questiona os inúmeros atos de violência realizados e justificados como sendo em defesa de uma crença, com o enaltecimento da fé cega, a condenação da dúvida e do questionamento, a essência da ciência.

Os novos fiéis, ao terem sua fé questionada, mostram-se agressivos, violentos e atacam o Surfista, embora seus armamentos se mostrem inúteis contra o herói.

Eles também se voltam contra as autoridades e leis terrenas, pois creem estarem acima delas, sob autoridade divina. Um dos asseclas do sacerdote ordena que o prefeito seja assassinado por se opor ao poder de Galactus. Assustado, o político questiona: “É isso que chama de religião? Que tipo de religião prega ódio e violência”?

Ao saber do ocorrido, um pai de família não se contém: “Esses fanáticos acham que podem justificar qualquer coisa em nome da religião. Se Galactus é um Deus, eu viro ateu”!

Aqui vemos o verdadeiro alvo da crítica de Lee e Moebius, não a espiritualidade ou a fé em si, mas o fanatismo e suas consequências nefastas. Se o Deus que vocês veneram (Galactus) permite a violência ou mesmo o assassinato de quem não compartilha de sua crença, então, nada quero com esse Deus.

Quando Galactus impede o Surfista de salvar uma jovem de um acidente fatal em um helicóptero, a humanidade, que presencia o ato através dos monitores, se volta contra o gigante, o atacando.

Sem a veneração dos humanos, o plano de Galactus falha, já que ele não pode quebrar a promessa e atacar a Terra.

Em uma reunião de delegados na ONU, o Surfista é reconhecido como salvador da Terra e como espécie de messias, aquele que guiará a humanidade, mas o herói recusa este papel: “Eles têm sede de liderança como um bebê anseia pelo leite materno. Certamente é por isso que são presas tão fáceis de tiranos e ditadores”.

Nota-se a preocupação do texto em deixar claro que a raiz do mal não reside apenas no fanatismo religioso, mas em qualquer tipo de fanatismo, certamente incluindo aquele que transforma políticos em salvadores da pátria ungidos por Deus ou pelo povo, dependendo da narrativa escolhida.

Publicada em duas edições (dezembro de 1988 e janeiro de 1989), Parábola é uma história com poucas páginas, mas que nos leva a refletir sobre verdades absolutas, ensinamentos que não questionamos, e homens que colocamos em um pedestal, fazendo malabarismo intelectual e buscando inúmeras justificativas para toda e qualquer ação que, em nosso íntimo, sabemos ser errada.

Stan Lee e Moebius não desperdiçaram a oportunidade de trabalharem juntos e nos entregaram uma obra de arte digna de seus nomes.

Confira abaixo imagens do especial.

Fernando Fontana

Fernando Fontana é escritor e adulto amador, criador do Site Super Ninguém e colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre filmes e quadrinhos antigos.Tá sabendo da novidade? Somos parceiros da Amazon. Vai comprar na Amazon? Utilize o código: canalmetali06-20! e dê uma força para o canal.

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