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No século passado: Sandman – O Som de Suas Asas

Esta história foi publicada no século passado, então, sim, tem spoiler.

“Levo a morte em meu bolso esquerdo. Às vezes, tiro-a do bolso e falo com ela: Oi, gata, como vai? Quando virá me buscar? Vou estar pronto”.

Charles Bukowski

Em janeiro de 1989, quando Sandman de Neil Gaiman chegou ás bancas pela primeira vez, a história retratava o aprisionamento do Senhor dos Sonhos pela Ordem dos Antigos Mistérios, uma sociedade secreta de estudiosos do arcano.

A prisão de Sandman foi um acidente, os membros da sociedade buscavam algo muito mais ambicioso, desejavam capturar sua irmã, a Morte, para então, serem capazes de controla-la, e dizer quem vive e quem morre.

Após décadas preso, ao conseguir se libertar e confrontar o filho de seu captor, Sandman fica sabendo do plano e lhe diz: “Vocês queriam a MORTE? Então considere-se um felizardo em nome de sua espécie e de seu planeta medíocre por não terem tido sucesso”.

Não se trata de uma ameaça, mas de uma constatação, ao confinarem Sandman e privá-lo de seu mundo, inúmeras pessoas ao redor do mundo passaram a apresentar distúrbios do sono; é difícil dizer o que poderia ocorrer se humanos impedissem a morte de cumprir seus deveres.

Podemos apenas imaginar; Saramago, em seu livro “As Intermitências da Morte”, fala sobre um país onde a Morte deixa de matar, e se no princípio, seus cidadãos sentem que receberam uma dádiva, logo percebem que estão diante de uma terrível maldição.

A imortalidade pode se mostrar um fardo terrível.

Quem deseja viver para sempre? – Perguntou a banda Queen na trilha sonora do filme “Highlander – O Guerreiro Imortal” (1986).

Em agosto de 1989, Gaiman finalmente nos apresenta a irmã mais velha do Sonho, a Morte, e de cara, é muito difícil não simpatizar com aquela jovem de cabelos negros, estilo gótico e sorriso fácil.

Vendo o irmão deprimido e se sentindo sem propósito, a Morte o chama para acompanha-la em seus afazeres.

Ainda que esteja escrito no livro de Destino (um dos sete Perpétuos, irmão da Morte e do Sonho), o dia em que todos iremos adentrar os seus domínios, ainda assim, a maioria das pessoas teme o encontro com a dama de preto.

 “E eu sou muito mais terrível do que você, minha irmã”. Sandman

Ela não se mostra má, nem mesmo quando vem buscar um bebê em seu berço, que lhe pergunta se tudo que lhe coube foram apenas aqueles poucos dias.

A resposta é cruel, mas não para o bebê, e sim para a mãe, para os que vivem.

Ela também vem buscar os muito velhos e os enfermos, aqueles que anseiam pela partida e pelo fim do sofrimento, e todas as vezes em que ela leva uma alma, ouve-se o bater de suas asas.

E o Senhor dos Sonhos se recorda de uma antiga canção, “hoje a morte está diante de mim, como o lar que um homem anseia rever, depois de muitos anos de cativeiro”, lembra-se que sua irmã tem uma função neste e em tantos outros mundos, assim como ele.

Não é por acaso o sucesso de Sandman ou tão pouco que a Morte seja um dos personagens mais carismáticos deste universo.

Gaiman a escreve dessa forma com um propósito bem específico.

Desejo, sua outra irmã, pode ser muito mais cruel, aliás, muitos, ao não terem seus desejos realizados ou sua paixão correspondida, anseiam pelo fim da vida.

Se alguém ainda insiste em dizer que quadrinhos são uma espécie de subclasse da literatura, é porque não leu Sandman.

Não cometa este erro, leia antes de morrer, você ainda tem tempo, ou não.

Bons sonhos.

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