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No Século Passado: O Evangelho do Coiote

Esta história foi publicada no século passado, então, sim, tem spoiler.

O engraçado sobre essa história, é que, pelo menos para mim, ela segue o caminho oposto de outras como Guerras Secretas da Marvel (1984), pois, em julho de 1990, quando eu a li pela primeira vez nas páginas da extinta revista DC 2000, “O Evangelho do Coiote” de Grant Morrison, me pareceu uma grande porcaria pretensiosa.

Oh, deuses dos quadrinhos, perdoem-me, eu tinha apenas 12 anos e não tinha ideia do que estava diante de mim. Eu nem sequer sabia o significado da palavra pretensioso.

No final dos anos 80, com Alan Moore fazendo sucesso com seu Monstro do Pântano, Watchmen e V de Vingança, a DC Comics decidiu ir até a Inglaterra em busca de novos talentos, o que resultou na assim chamada Invasão Britânica nos quadrinhos norte-americanos, trazendo nomes como Neil Gaiman, Alan Grant e Grant Morrison.

A ideia era a de que estes autores recebessem personagens que estivessem juntando poeira na prateleira da editora e os reformulassem, assim como Moore fez com o Monstro do Pântano, e, posteriormente, Gaiman fez com Sandman.

Morrison ficou com o Homem Animal.

E quem, diabos, era o Homem Animal na fila do pão?

Um personagem obscuro criado em 1965, com participações medíocres em outros títulos, com poderes “meia boca” (sério, o que é a força de um elefante comparado com o Superman ou a velocidade de um leopardo comparado com o Flash) e que nunca conseguiu emplacar entre os leitores.

A primeira coisa que Morrison fez foi dar um objetivo para Buddy Baker. Uma vez que seus poderes o colocavam em sintonia com todos os animais, parece meio óbvio que ele não acharia bacana comer um X-Bacon ou uma picanha malpassada no churrasco da família.

Fazia todo sentido que, em suas histórias, ele se tornasse vegetariano e lutasse pelos direitos dos animais. Se fosse hoje, teria aderido ao veganismo e postado nas redes sociais. 

Sobre seus poderes, o autor britânico mostrou que estavam longe de serem “meia boca”, já que, entre outras coisas, ele conseguiu regenerar completamente um braço amputado, absorvendo os poderes de uma minhoca, e, pasmem, criou clones de si mesmo ao absorver a capacidade de auto replicação das bactérias presentes em seu próprio organismo.

Dá-lhe dor de cabeça para os próximos roteiristas.

“O Evangelho do Coiote” é uma das histórias mais lembradas da fase de Morrison, onde o autor fez um tremendo exercício de metalinguagem, criando as bases para o que viria a ser o final de sua jornada ao lado do herói.

Nela, somos apresentados ao Ardiloso, um coiote que vivia em um mundo de desenhos animados, onde a violência imperava, bombas explodiam e rochas caiam em sua cabeça, sem que ninguém questionasse a realidade.

“Naqueles dias, ninguém mais se lembrava de um tempo onde o mundo era livre de conflito. Tempo em que animal não era confrontado com animal numa interminável sessão de violência e crueldade. Quando os corpos se restabeleciam imediatamente de qualquer ferimento, a ninguém ocorria contestar a fútil brutalidade da existência. Ninguém antes do Ardiloso”.

Uma clara referência ao Coiote, em sua eterna caçada ao Papa-Léguas nos desenhos da Warner, com seus planos quase sempre terminando de maneira extremamente violenta para o personagem.

Condenado a jamais alcançar seu objetivo, sendo para sempre uma vítima dos desígnios de seu roteirista, em um dia qualquer, Ardiloso chorou e se revoltou, buscando aquele que o criou e o questionando.

Qual o sentido de tamanho sofrimento?

Como punição, foi enviado para o mundo dos homens, onde seria obrigado a experimentar dor de verdade, e enquanto suportasse esse fardo, os animais do mundo dos desenhos animados ficariam em paz.

Sim, esse é o grau de delírio, e é bom, eu juro que é muito bom.

O Homem Animal é um coadjuvante nessa história, mas ela diz muito a seu respeito e sobre o nosso próprio mundo.

Acredite, não é por acaso, que em um dos quadrinhos, na televisão da casa do Homem Animal e de sua família, apareça um pastor pedindo dinheiro para salvar um pobre menino cego.

Ennis mira a nossa realidade e a dos quadrinhos, brinca com o fato de saber que é o responsável pelos acontecimentos que permeiam a vida de Buddy.

Sempre que as vendas de algum herói despencam, “os criadores” optam pelo mais simples e enviam uma tragédia para devastar sua vida, normalmente com a morte de alguém querido ou do próprio personagem. “A Morte do Superman” (1993), a “Queda do Morcego” (1993-1994) e Crepúsculo Esmeralda (1994) são ótimos exemplos.

E se você se encontrasse com aquele que roteirizou alguns dos eventos cruciais que aconteceram em sua vida, sejam eles bons ou ruins, e sobre os quais não teve qualquer controle?

O que você faria? O que você diria?

Ardiloso conseguiu e pagou caro por isso, Buddy Baker também teria essa chance no futuro, mas essa história surreal fica para outro dia.

Fato é que o escritor britânico tirou o herói do ostracismo e, para sua própria surpresa, o transformou em um sucesso.

O Homem Animal deve muito a Grant Morrison e Grant Morrison deve muito ao Homem Animal, e algo me diz que eles sabem disso.

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