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No século passado: Marshal Law

Esta história foi publicada no século passado, então, sim, tem spoiler.

Sou um caçador. Eu caço heróis. Ainda não encontrei nenhum”.

Você gostou de “The Boys”, série da Amazon Prime, baseada na obra de Garth Ennis?

Curtiu ver os super-heróis retratados como tremendos escrotos e toda aquela violência desenfreada, com sangue e tripas voando na tela?

Pois hoje vamos falar do ancestral de “The Boys”, o caçador de heróis boca suja conhecido como Marshal Law.

Publicada em 1987, saindo diretamente da sádica mente do britânico Pat Mills e ilustrada pelo também britânico Kevin O’Neil, as histórias giram em torno de Law, um policial com superpoderes que caça super-heróis na violenta cidade de São Futuro.

Se a cidade é violenta, então por que, diabos, o sujeito caça super-heróis?

Bem, acontece que a palavra super-herói foi completamente corrompida, e, na verdade, na maioria das vezes, eles são a causa dos maiores problemas.

Assim como em “The Boys”, os super-heróis foram criados em laboratório, mas, ao contrário da saga de Ennis, o governo norte-americano logo se viu obrigado a enviar seus supersoldados para um confronto militar contra países marxistas da América do Sul, que também desenvolveram seus guerreiros geneticamente modificados.

Essa guerra ficou conhecida como “A Zona”, e com o fim dela, como sempre, o exército voltou para casa.

Tudo o que o Tio Sam mais precisava, um bando de malucos capazes de quebrar uma parede com um soco, treinados para matar, com estresse pós-traumático, dando uma volta pelas ruas de suas cidades.

Se você leu “O Reino do Amanhã” de Mark Waid e Alex Ross, deve saber o estrago que super-heróis entediados e irresponsáveis são capazes de fazer.

Para completar, o cenário é a cidade de São Futuro, que surgiu sobre as ruínas de São Francisco, devastada por um gigantesco terremoto conhecido apenas como “O Maior de Todos”.

Uma boa parte das ruínas ainda existe na Velha São Francisco, território assolado por gangues de super-heróis degenerados que lutam entre si sem se importar com a presença de civis.

Nela, nem mesmo as delegacias podem ter sua localização divulgada; elas se escondem no subterrâneo para que não sejam alvo das gangues.

Marshal Law é um ex-combatente com superpoderes, que agora atua como policial em uma destas delegacias e odeia mortalmente os super-heróis, agindo com o máximo de violência possível sempre que se depara com algum deles infringindo a lei.

O fato de Law lembrar muito o Juiz Dreed, assim como São Futuro lembra Mega City One, não é mera coincidência; Pat Mills, seu criador, é também um dos criadores de Dreed.

Além das gangues espalhadas nas ruínas, São Futuro está infestada pela cultura dos super-heróis, e o governo tem seus queridinhos, como o “Espírito Público”, a versão de Mills para o Superman.

O que não quer dizer, que eles sejam muito melhores do que os que atuam nas gangues, a diferença é que contam com a mídia para elevá-los ao status de celebridades.

A forma como são retratadas as Sereias (versão das amazonas) e a Mulher Maravilha, criadas para serem máquinas sexuais, com trajes que revelam quase tudo, cujo maior poder é seduzir, é um belo de um tapa na cara.

Você não acha mesmo que os enormes seios da Poderosa e aquele traje estão lá por acaso, não é? Pode acreditar, heroínas não combatem o crime em trajes mínimos e com poses sensuais porque facilita os movimentos.

Na história “Terra de Cego”, Law se vê obrigado a enfrentar o “Olho Privado”, um milionário cujos pais foram assassinados quando era criança, e que agora passa o tempo atuando como herói durante a noite, espancando marginais, e adotando órfãos para atuarem como seus parceiros mirins.

Te lembrou alguém?

Pois é, só que o “Olho Privado” tritura apenas criminosos de baixo escalão, pobres em sua grande maioria, ignorando completamente os crimes cometidos pelos grandes executivos. Ele, é claro, não mata, não, isso nunca, “jurei não descer ao nível deles. Eu os aleijo, mutilo, eletrocuto, intoxico e queimo, mas não mato”.

Suas atividades também não se mostraram muito úteis para a sociedade como um todo: “nos trinta anos em que ele vem serrando membros de criminosos, o crime na verdade sextuplicou! Que bela cura, hein?”

E em uma fina ironia, o policial, que é constantemente chamado pelos seus adversários de fascista, sente uma certa simpatia pelo “Olho Privado”, pelo menos no começo.

Tudo isso, repito, no final da década de 80.

Se a santa Trindade da DC Comics não escapa, nem queira saber como Mills retrata os Vingadores, o Homem-Aranha, o Senhor Fantástico, a Mulher Invisível e outros personagens da Marvel.

Já se perguntou como o Demolidor consegue saltar de um prédio alto e, depois de uma longa queda, agarrar um mastro, fazer uma acrobacia, girar e cair em pé, sem quebrar nenhum osso, se seus poderes não incluem superforça e nem superagilidade

Um único quadro de Marshal Law responde essa pergunta.

As ilustrações de Kevin O’Neil podem causar certa estranheza e não agradar a todos, principalmente os que gostam de uma arte mais realista. Ele desenha de forma caricata, com corpos propositalmente desproporcionais, o que, de certa forma, alivia um pouco a violência presente na obra.

O sucesso de “The Boys” pela Amazon, anos depois, revela que Marshal Law foi uma história subestimada, jamais alcançando a mesma visibilidade que Juiz Dreed e outros anti-heróis.

Difícil dizer exatamente a razão.

Eu, por exemplo, lembro vagamente de tê-la visto na banca, mas não comprado por não ter a menor ideia do que se tratava, por achar a arte esquisita, e, principalmente, por ter o dinheiro contado para comprar as revistas formatinho da editora Abril com os meus personagens preferidos.

Atualmente há uma corrente de fãs que preferem ver os heróis retratados da forma clássica, como ideais inalcançáveis do bem e da justiça, e não como criaturas pervertidas e repletas de defeitos típicos dos seres humanos.

Eles cansaram da tal desconstrução dos super-heróis que teve início lá atrás com Watchmen de Alan Moore.

Se este for o seu caso, passe longe de Marshal Law, caso contrário, trata-se de uma aposta certa e de diversão garantida.

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