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No Século Passado -Hellblazer: Hábitos Perigosos

Esta história foi publicada no século passado, então, sim, tem spoiler.

O Ministério da Saúde adverte, mostrar o dedo do meio para um demônio pode ser prejudicial à sua saúde.

Garth Ennis é um dos meus autores preferidos, tanto faz se puro como em Preacher (1995), ou diluído em 30% de água, como em Ronda Vermelha (2013), suas histórias me cativam do começo ao fim, com raras exceções.

As fases do autor à frente do Justiceiro e de John Constantine são até hoje as mais elogiadas destes personagens, justamente porque o Irlandês conseguiu compreender suas essências.

Hoje quero falar sobre Hábitos Perigosos, a história que eu sempre indico para pessoas que querem conhecer Constantine.

Publicada em 1991, logo em sua primeira página, já nos revela que John está morrendo.

Isso normalmente é algo bem ruim para a maioria das pessoas, mas em seu caso, um homem que cometeu mais pecados do que consegue lembrar, que brincou com as artes místicas e que não se arrepende nem por um instante do que fez, é ainda pior, porque ele sabe o que o espera do outro lado.

Você acha que está calor ultimamente? Isso é só uma prévia do Inferno.

A primeira grande sacada de Ennis é o que está matando Constantine.

Não é um vampiro antigo, um fantasma do passado, um mago querendo poder ou um demônio querendo vingança.

Ele está morrendo de câncer no pulmão, consequência direta de anos e anos fumando trinta cigarros por dia.

Câncer terminal, alguns meses de vida, simples assim, mundano assim.

Ele visita a ala para doentes terminais de um hospital e a visão de como serão seus últimos dias, definhando em uma cama, entupido de drogas para aliviar pelo menos um pouco da dor, faz com que ele procure a ajuda de amigos.

O problema é que a maioria de seus amigos está morta e os que restam não podem ajudar porque estão tão ferrados quanto ele. Anjos e demônios não são uma opção, porque os dois lados não vão com a cara de Constantine, logo, ele percebe que só poderá contar consigo mesmo.

O plano que elabora para conseguir escapar das garras da morte é uma aposta extremamente arriscada, algo jamais tentado por um mortal, um blefe que se não for comprado, garantirá uma eternidade de sofrimento inimaginável, muito maior do que aquele que já lhe aguardava.

Ele sabe o quão arriscado é o que está prestes a fazer e antes de seguir em frente, Ennis nos brinda com este monólogo, com John diante do velho Palácio de Westminster, onde se localiza o parlamento britânico.

“Quero que saibam que tudo isso sempre disse respeito a vocês. Não à magia ou aos demônios ou qualquer outra coisa, mas a vocês. O poder de vocês é como a magia, porque não existe a não ser que as pessoas acreditem nele. E de certa forma foi contra isso que lutei durante todos esses anos. Contra essa crença. Tudo o que eu queria é que o mundo se livrasse de criaturas como vocês, não importa se estão no parlamento, no senado, na junta, no céu ou no inferno. Talvez não adiante, talvez as pessoas sejam pequenas e assustadas demais para conquistar a liberdade. Talvez queiram vocês bem aí, cagando em cima da cabeça de todo mundo”.

Sério, a história já teria valido cada centavo que eu paguei só por esse trecho, mas ela oferece muito mais.

Semana passada eu disse que o roteiro de “Batman: Morte em Família” poderia ter sido épico, mas falhou ao pecar pela preguiça.

“Hellblazer: Hábitos Perigosos” é o oposto, é tudo, menos preguiçosa; cada página, com a arte de William Simpson encaixando perfeitamente com o roteiro de Ennis, prendendo sua atenção, ainda que nada de excepcional aconteça, e quando, acontece, meu amigo, são momentos que fazem você fechar a revista e pensar: O que foi que eu acabei de ler aqui?

Nunca perdi meu tempo fazendo um ranking das melhores histórias que eu já li, mas se um dia fizer, esta entrará fácil nele.

Sem falar na imagem da última página, uma pérola que resume com perfeição o que é Constantine, um filho de uma p$&@# inconsequente que consegue a façanha de ludibriar a morte, mas não resiste a oportunidade de sacanear quem se acha acima dos demais, ainda que este gesto vá aumentar ainda mais o ódio mortal de inimigos infinitamente mais poderosos do que ele, que vigiarão cada passo do mago, aguardando por um deslize para estripa-lo vivo e devorar sua alma.

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