Quando éramos reis

Nexus, o melodrama espacial de Mike Baron e Steve Rude

Dá para imaginar o que passou pela cabeça de Mike Baron, escritor cheio de ideias, quando descobriu um artista como Steve Rude – capaz de desenhar figurinos, alienígenas, armas, naves espaciais, paisagens surreais, anatomia, linguagem corporal, expressões faciais, multidões, silhuetas, cenas de ação com um estilo cheio de claro-escuros, consistente, elegante e claro, capaz de te fazer acreditar naqueles mundos, como Scott McCloud explicou. Era o tíquete para disparar a saga mais ambiciosa que concebesse. E assim Baron criou Nexus.

Nexus é “space opera”, um melodrama disfarçado de ficção científica. O poder de Nexus também é sua maldição: precisa matar genocidas para que seus pesadelos cessem, e se reabastecer periodicamente de energia num tanque. Uma espécie de Lanterna Verde mais sorumbático. Os melhores episódios transcendem seu gênero, para comentar sobre comportamento, sociedade, política: a lua de Nexus é um asilo aberto para perseguidos políticos e religiosos de todas as galáxias; não tem constituição, nem governo. Em determinado ausência mais longa, Tyrone aproveita-se para eleger-se presidente, abrindo toda uma discussão sobre os benefícios de governos organizados. A ecologia também foi assunto, como em tantas outras revistas independentes das décadas de 80 e 90, Concreto, Bean World, Cadillacs e Dinossauros, etc.

Quando a série foi criada em 1981, o modelo de fisgar leitores ainda era o consolidado pela Marvel: cada edição tinha uma história completa, que podia ser lida isoladamente, ao mesmo tempo em que desenvolvia, paralelamente, uma trama geral, explorando personagens coadjuvantes, ou desdobrando detalhes de acontecimentos pregressos. Isso exigia compactar bastante informação e talvez os 7 ou mais quadros por página soem atulhados, para quem cresceu com a narrativa descomprimida de 4 preguiçosos quadros horizontais por página. Steve Rude mostra como se faz, sem sacrificar clareza: nem sempre uma explosão precisa ocupar meia página, pode perfeitamente aparecer num quadro pequeno. Sobretudo se vão haver outras no episódio.

Nexus é uma das muitas pérolas independentes dos anos 80 e 90 que passam mais despercebida que deveriam pelo radar. Não bobeie.

Rafael Lima

Rafael Lima escreveu nas revistas eletrônicas Sobrecarga, Falaê, Burburinho e Digestivo Cultural; hoje, prefere desenhar. Ainda hoje, tem uma ligação afetiva com os quadrinhos independentes das décadas de 80 e 90, os quais mantiveram seu interesse em continuar lendo. Morou vários anos fora e, hoje, acha engraçado quando se usa o termo "importado" para referir ao quadrinho não nacional. Não tem gatos nem cachorros.

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