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Nascido Para Matar (1987)

Transformando seres-humanos em máquinas de matar

Kubrick nos mostra o seu Vietnã.

“Nascido para Matar” (Full Metal Jacket no original) do diretor Stanley Kubrick, começa com um close de diversos jovens tendo seus cabelos raspados; vemos suas expressões, enquanto um a um, eles são deixados carecas.

O cabelo e suas identidades ficam para trás, agora, todos devem ser parecidos, mesmo penteado, mesma roupa, mesmo propósito, serem máquinas de matar perfeitas.

O responsável por transformar garotos em soldados treinados é o sargento de artilharia Hartman (Ronald Lee Ermey), que trata os recrutas como se fossem menos do que lixo. Logo na primeira cena dispara uma torrente de ofensas em uma velocidade e criatividade sem igual.

Kubrick dedica os primeiros quarenta minutos de seu filme ao treinamento de Hartman e sua busca por desumanizar os jovens; ao fazer isso, ele acredita estar criando homens capazes de avançar sem temer o inimigo, e matar sem hesitar ou sentir remorso.

Vale destacar que o ator, Ronald Lee Ermey, realmente foi sargento e instrutor dos Fuzileiros Navais, utilizando sua experiência para compor o personagem, lhe conferindo um assustador realismo.

Recebem destaque nesta primeira parte, os recrutas Leonard “Pyle” Lawrence (Vincent D’Onofrio), jovem que está acima do peso e aparente possuir um QI abaixo da média, e o recruta J. T. “Joker” Davis (Matthew Modine).

Com imensas dificuldades físicas e mentais, Pyle se torna uma vítima constante das humilhações impostas pelo sargento Hartman, e Joker recebe ordens para ficar responsável pela melhora de seu desempenho.

De fato, aos poucos, o recruta Pyle vai se transformando naquilo que Hartman desejava, um exemplo para o restante do pelotão. O que o sargento foi incapaz de notar, é que durante todo o processo, o jovem estava ficando mentalmente perturbado.

Interessante a cena em que Hartman, conversando com os recrutas, disposto a exaltar a excelência do treinamento de tiro fornecido pelos fuzileiros, lembra o nome de dois atiradores, Charles Whitman, que em 1966, matou sua mãe, sua esposa, e mais tarde, subiu em uma torre na Universidade do Texas, onde realizou diversos disparos com um rifle, matando várias pessoas; o outro é Lee Harvey Oswald, o homem que atirou e matou o presidente John Kennedy.

Hartman discursa sobre a habilidade dos atiradores e o fato de ambos terem aprendido a atirar com os fuzileiros. O fato de terem assassinado a sangue frio inocentes não faz com que o sargento tenha vergonha de revelar que foram treinados pelas forças armadas, pelo contrário, sua capacidade de matar a distância é motivo de orgulho.

Assim como nestes casos, os Estados Unidos da América tornaram-se vítimas dos homens que forjaram, o treinamento tem um final sangrento e o criador torna-se vítima da criatura, quando Pyle, em um surto psicótico, atira a queima-roupa no sargento Hartman e depois contra si mesmo.

O filme salta no tempo e vamos para o Vietnã, Joker, agora sargento, é jornalista e correspondente de guerra, atuando no “Estrelas e Listras”, órgão de imprensa oficial do exército dos Estados Unidos, responsável por fornecer informações sobre o andamento da guerra. O jornal, é claro, é completamente parcial, com ordens de mostrar a falsa ideia de um conflito que está sendo vencido e se encontra próximo de seu final, com a população do Vietnã do Sul apoiando a presença militar norte-americana.

Joker revela em seu uniforme, a contradição da guerra, em seu capacete está escrito “Nascido para Matar”, mas carrega ao mesmo tempo um broche com o símbolo hippie da paz, que em mais de uma ocasião gera desconforto entre seus superiores.

A ideia de que o conflito do Vietnã foi travado por ideais superiores, como a busca por uma paz duradoura ou liberdade já foi contestada em diversos outros filmes, e Kubrick não foge à regra, através do fuzileiro interpretado por Adam Baldwin; quando um de seus companheiros, diante de dois jovens americanos mortos, afirma que morreram por uma boa causa, o artilheiro responde: “Que causa foi essa? Caia na real novato. Acha que matamos por liberdade? Isso é uma chacina. Se for para estourar os bagos por algo, que seja trepando”.

E se os 40 primeiros minutos foram dedicados ao treinamento, os últimos 30 são um resumo perfeito do que foi a guerra. Com o pelotão enviado para reconhecer uma área e verificar se o exército vietnamita de fato recuou, vislumbramos um cenário de destruição completa, com prédios transformados em escombros, incêndios e fumaça por toda parte, lembrando o inferno.

Em meio às ruínas, o pelotão torna-se alvo de um atirador solitário, que começa a derrubar os fuzileiros com tiros únicos e precisos. Para cada disparo do atirador o pelotão devolve com uma amostra do armagedom, uma chuva de tiros de M-16 e M-60, granadas, tiros de bazuca.

Trata-se de uma completa disparidade entre o poderio bélico dos fuzileiros e o do atirador vietnamita, ainda assim, ele segue escondido e matando os fuzileiros.

Após uma dura batalha, eles conseguem finalmente localizar e matar o atirador, que na realidade era uma frágil jovem; o fuzileiro que a derrubou comemora – não sou mau? Não sou um matador? – mas não há o que comemorar, sozinha, ela paralisou a movimentação do pelotão e matou três norte-americanos.

A cena final é perfeita, os fuzileiros marchando entre os escombros e as ruínas em chamas, enquanto cantam o tema da Disney para Mickey Mouse. O Tio Sam trava suas guerras e sua cultura se alastra pelo Globo.

Ao lado de Platoon (1986) de Oliver Stone e Apocalypse Now (1979) de Francis Ford Coppola, Nascido para Matar de Kubrick forma a sagrada trindade dos filmes sobre a Guerra do Vietnã.

 

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