Quando éramos reis

Minimum Wage, os personagens perdidos e mal pagos de Bob Fingerman

MINIMUM WAGE, de BOB FINGERMAN

            O universo em que Minimum Wage (no Brasil: Perdidos e Mal Pagos) se passa tem algo em comum com o de Ódio, Love & Rockets, American Splendor, Peepshow e algumas histórias de Chester Brown, de Daniel Clowes e Seth. Personagens da classe trabalhadora – mesmo que no ramo do entretenimento – que se vestem de modo típico, em subempregos com patrões intolerantes, morando em apartamentos pequenos, em cidades ou bairros periféricos onde pouco acontece, tentando animar suas vidas através de lixo cultural, álcool e relacionamentos, enquanto ensaiam entrar na vida adulta. Pode ser divertido de ler, mas provavelmente você não gostaria de levar uma vida daquelas, por mais que o autor romantize.

            Bob Fingerman ganhava a vida desenhando quadrinhos pornográficos e muito disso virou “material” para roteiros. A crônica falta de idéias, a ameaça dos prazos, a inevitável experiência de uma convenção de quadrinhos – a mesma história que Daniel Clowes e Adrian Tomine também fizeram – estão ali, e ou você perde o interesse quando percebe que as situações se repetem, ou continua porque, à essa altura, desenvolveu alguma afeição aos personagens.

            Por isso mesmo, os melhores momentos são aqueles em que a trama foge da rotina, com exposição a conflitos reais, como a antológica história em que a namorada Sylvia engravida e decide, junto com Rob, fazer um aborto. É como se os principais pontos da discussão acerca daquele tema fossem exemplarmente tematizados numa história em quadrinhos, defendendo um lado.

            Minimum Wage se estrutura ao redor de relacionamentos, seja românticos, seja amizades, e despeja referências pop na cabeça do leitor (a maior parte, específica demais para ser conhecida fora dos EUA). Não é neurótico como Peepshow, não é histérico como Ódio, não é, felizmente, tedioso como American Splendor dos últimos anos. O ponto principal desse tipo de história é decidir se vale a pena ler as próximas cem páginas se existe o risco de os personagens continuem mais ou menos onde estão, sem maior desenvolvimento ou profundidade (nem todo mundo é Love & Rockets). Fica a dúvida sobre por que elas tem tanto espaço junto aos editores. Devem ter um público cativo.

Rafael Lima

Rafael Lima escreveu nas revistas eletrônicas Sobrecarga, Falaê, Burburinho e Digestivo Cultural; hoje, prefere desenhar. Ainda hoje, tem uma ligação afetiva com os quadrinhos independentes das décadas de 80 e 90, os quais mantiveram seu interesse em continuar lendo. Morou vários anos fora e, hoje, acha engraçado quando se usa o termo "importado" para referir ao quadrinho não nacional. Não tem gatos nem cachorros.

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