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Marvels – Monstros entre Nós

Esta história foi publicada no século passado, então, sim, tem spoiler.

“Eles eram o lado sombrio das Maravilhas. Enquanto o Capitão América e o Senhor Fantástico inspiravam a grandeza dentro de nós, os mutantes eram a morte”. Phil Sheldon

Escrita por Kurt Busiek (Astro City) e desenhada magistralmente por Alex Ross (Reino do Amanhã), a série Marvels foi lançada em 1994, com quatro edições narrando eventos clássicos do Universo Marvel, sob a ótica de uma pessoa sem superpoderes, o fotógrafo freelancer Phil Sheldon.

O grande mérito desta série está no fato de que o roteiro de Busiek, aliado com a arte realista de Ross, conseguem a proeza de realmente nos colocar no lugar de um cidadão comum assistindo as Maravilhas (apelido dado aos super-heróis por Sheldon) atravessando os céus de Nova York e enfrentando vilões e seres vindos de outros mundos.

Há aqui um misto de admiração e medo nas pessoas, o que faz todo sentido quando Namor declara guerra contra a humanidade ou Galactus surge disposto a devorar o planeta para saciar a sua fome, e é confrontado pelo Quarteto Fantástico.

Você já parou para pensar no que acontece com as pessoas que estão dentro dos prédios que são derrubados nas batalhas entre o Thor e o Fanático, por exemplo?

Pois é, nada bom.

O próprio Phil Sheldon perdeu um olho ao ser atingido por um tijolo enquanto observava a luta entre Namor e o primeiro Tocha Humana.

Na coluna de hoje, no entanto, quero me concentrar no Tomo 2 da série, muito apropriadamente nomeado de “Monstros entre Nós”.

Esqueça o papo de quadrinhos sem política, esta história transpira política.

As primeiras páginas reforçam a admiração que as pessoas comuns sentem por heróis como Thor, Homem de Ferro, Homem Formiga, e, é claro, o Capitão América, o símbolo maior da luta pela liberdade.

Sheldon pretende publicar um livro com fotos das Maravilhas, pois ele sabe que heróis vendem.

Agora, se os heróis despertam o que há de melhor nas pessoas, porque para os mutantes resta o medo e o ódio.

Eles, ao contrário dos que adquiriram seus poderes de forma artificial, são vistos como o próximo passo evolutivo da humanidade. São vistos como aberrações, como uma ameaça, e por isso, precisam se esconder.

Há um momento em que Sheldon, juntamente com outras pessoas, encontram os X-Men; todos estão furiosos porque ouviram que os mutantes tentaram matar um peão de obras.

Para quem procura razões para odiar, um boato é imediatamente aceito como verdade.

Pedras são atiradas nos X-Men e sem pensar, o repórter faz o mesmo, atingindo com um tijolo a cabeça do Homem de Gelo.

Phil Sheldon, aparentemente um bom homem, pacífico, esposo e pai de duas meninas, junta-se à multidão, e ataca sem motivo uma pessoa que nada lhe fez.

Posteriormente fica sabendo que os mutantes estavam tentando salvar o peão de obras e não o ferir, o que resulta no seguinte pensamento: “Só que isso não fazia sentido, eles queriam os humanos mortos. Todo mundo sabia disso”.

A ignorância é o combustível ideal para o ódio, o bom senso é eclipsado pelo desconhecimento e pela ideia de nós contra eles.

Se não fizermos nada, pensam os humanos, os mutantes nos matarão, matarão nossos filhos, alguém precisa impedi-los.

Você poderia pensar que é a aparência dos mutantes que faz com que sejam odiados, mas um anjo é temido por ser mutante, enquanto o Coisa do Quarteto Fantástico é aceito, apesar de sua aparência grotesca. “Pelo menos não é um daqueles mutantes horríveis”, duas convidadas comentam sobre ele na festa de noivado do Senhor Fantástico e da Mulher Invisível.

Não é a aparência, é o fato de serem mutantes.

O ponto alto é quando Sheldon encontra no porão de sua casa, protegida por suas duas filhas pequenas, uma criança com aparência deformada. Primeiro ele fica com medo de que a mutação dela seja contagiosa, ele sente medo de que sua família seja ferida por abrigar a mutante: eu sabia que queimariam esta casa com minha família dentro se soubessem que eu estava abrigando uma mutante.

Embora aterrorizado, o repórter não a entrega a menina, porque ele vê algo em seu olhar: havia algo nos olhos dela, nos olhos daquilo, que não me deixava parar de pensar na libertação de Auschwitz, nos olhos deles.

Os X-Men, criados por Stan Lee e Jack Kirby em 1963 são os judeus enviados para os campos de concentração pelos nazistas, os negros caçados e mortos pela Ku Klux Klan, os homossexuais agredidos por serem quem são.

Os monstros do título?

São mais humanos do que gostaríamos de admitir.

 “No que estariam pensando? Dava para ver em seus rostos. Ninguém estava pensando. As pessoas estavam amedrontadas, furiosas, descontroladas”.

O parágrafo acima lhe é familiar?

Dos quatro tomos da série Marvels, o segundo é o mais real, e, infelizmente, permanece terrivelmente atual.

A Panini publicou um encadernado com os quatro volumes da série e ele está disponível nas principais lojas virtuais.

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