Vídeo Locadora

Marte Ataca (1996)

No mesmo ano em que chegava aos cinemas Independence Day, Tim Burton ridicularizava os filmes de invasão alienígena

Dois filmes sobre invasão alienígena completamente diferentes em 1996

O ano era 1996, e chegava nos cinemas do mundo inteiro “Independence Day”, blockbuster dirigido por Roland Emmerich, que com um orçamento milionário, explodiu monumentos e cidades norte-americanas, enquanto um ainda jovem Will Smith, junto com Jeff Goldblum e Bill Pullman, ajudavam o mundo a derrotar os alienígenas, com uma, por assim dizer, adaptação da ideia que foi utilizada por H.G. Wells em seu livro “A Guerra dos Mundos”.

A escolha do título, assim como o discurso patriótico e cafona ao extremo, feito pelo presidente dos Estados Unidos interpretado por Pullman antes dos caças decolarem para enfrentar os alienígenas, entregavam muito bem onde o roteiro queria chegar, uma exaltação da capacidade humana, em especial, ainda que camuflados, dos valores presentes no chamado “American Way of Life”.

Neste mesmo ano, no entanto, alguns meses depois, Tim Burton entregaria não um filme de ação e superação, mas uma sátira sobre todos os filmes de invasão alienígena, ridicularizando estas produções, assim como o patriotismo celebrado pelo filme de Emmerich.

Mars attacks 1996 Real Tim Burton. Collection Christophel © Tim Burton Productions / Warner Bros

Marte Ataca, mas diz que veio em paz!

Como o próprio nome já adianta, a trama do longa de Burton, retrata uma invasão da Terra pelos habitantes do planeta Marte, mas com marcianos muito diferentes do que se poderia esperar, não apenas na aparência, mas no modo de agir.

Ao ser informado de que naves marcianas se aproximavam em grande número do planeta Terra, o presidente Dale (Jack Nicholson), pensa imediatamente no lucro político que pode obter com o evento, e baseia toda sua estratégia nos conselhos de Donald Kessler (Pierce Brosnan), um “especialista” que, antes mesmo de qualquer contato, afirma ser muito provável que os marcianos sejam um povo pacífico, uma vez que tecnologicamente avançados, e que sua chegada seria benéfica para a humanidade.

Trata-se de profunda ironia do roteiro tecer esta analogia, primeiro porque se há algo que a história, em especial a do século XX, nos ensinou, é que a moral não costuma acompanhar o avanço tecnológico, e, segundo, porque essa ideia parte justamente dos norte-americanos, que até hoje se impõe justamente pelo seu poderia bélico superior.

Esqueça o líder destemido que toma a frente durante a crise ou o militar disposto a se sacrificar pelo seu país, tudo isso é motivo de chacota em “Marte Ataca”. Dale é um presidente que tenta demonstrar força, mas é indeciso e manipulável e Jack Black interpreta um heroico soldado que aparentemente terá um papel importante na batalha, mas que morre de forma patética.

Mesmo depois que diversos soldados e civis são completamente vaporizados, Kessler e o presidente Dale se recusam a admitir que a Terra está sob ataque, acreditando que tudo não passou de um pequeno mal entendido, afinal de contas, os marcianos alegaram ter vindo em paz.

A cena em que eles fritam a pomba da paz é hilária.

Os marcianos riem de nós

Esteticamente os marcianos são ridículos e isso é proposital, são coloridos, suas armas, seus veículos e suas roupas lembram as que foram imaginadas no início do século XX, é quase como se estivéssemos assistindo uma mistura de live action com desenho animado.

Seus cérebros são enormes, o que daria a entender que eles possuem uma grande capacidade intelectual, Kessler chega a supor que eles sejam capazes de telepatia, mas em seu interior só existe uma espécie de gosma verde, e seu comportamento lembra o de adolescentes imaturos.

Algo como uma espécie cujo cérebro é capaz de criar a internet, mas, ao mesmo tempo, acredita em terra plana.

Os marcianos foram criados para serem ridículos, e, ao mesmo tempo, riem o tempo todo dos seres humanos e de suas patéticas tentativas de estabelecer um diálogo e iniciar conversações de paz. Para eles, humanos são inferiores, ponto.

Acontecem situações surreais onde os marcianos deixam claro o quão estúpidos eles consideram a humanidade, como a em que eles andam pelas ruas fritando pessoas, enquanto carregam um aparelho que repete sem parar a frade “viemos em paz”.

Para derrotar os marcianos, uma solução quase tão ridícula quanto a usada em Independence Day

Após satirizar tudo que está ligado aos filmes de invasão alienígena e ao mesmo tempo em nossa sociedade, chega a hora de derrotar os invasores.

Em “Guerra dos Mundos” de H. G. Wells, os marcianos morrem devido a uma bactéria que os ataca, e contra a qual não tinham imunidade. Ingênuo, mas justificável para a época em que foi escrito, já em “Independence Day”, ao tentar modernizar o conceito, criam um vírus de computador que infecta as naves e derruba suas proteções, já que aparentemente os alienígenas não possuíam antivírus e utilizavam Windows.

A explicação para a derrota dos marcianos em “Marte Ataca” é quase tão ridícula quanto, mas, como diria Zack Snyder, muito mais elegante.

Primeiro de tudo, bom ressaltar, os militares nada tem a ver com isso.

Aliás, há uma cena onde Tim Burton deixa claro qual sua visão sobre o papel das forças armadas terrestres, caso, de fato, alienígenas viessem até nós com a intenção de nos destruir, quando um general que discursava sobre o valor das tropas norte-americanas é reduzido ao tamanho de um brinquedo e depois esmagado pela bota de um dos marcianos.

Não, a salvação da humanidade vem de sua música, uma música tão ruim que faz os cérebros dos marcianos explodirem.

Se esse for o caso, estamos salvos, há muitas dessas músicas em nosso arsenal.

Orçamento milionário, elenco estelar, e Marte Ataca não decolou

Marte Ataca teve um elenco estelar, contando com nomes como Jack Nicholson, Pierce Brosnan, Glenn Close, Danny DeVito, Michael J. Fox, Jack Black, entre outros, Tim Burton como diretor, trilha sonora por Danny Elfman, e um orçamento quase tão grande quanto o de Independence Day, mas, ao contrário do filme de Will Smith, não decolou.

Com uma bilheteria que ficou pouco acima do orçamento e críticas medianas, com certeza não é um dos trabalhos mais celebrados de Burton.

O objetivo de satirizar filmes de invasão alienígena e patriotismo exacerbado que normalmente vem atrelado a eles foi alcançado e o diretor parece ter se divertido no processo.

Se assistido partindo dessa premissa, Marte Ataca torna-se uma boa comédia, dessas que te fazem rir a partir do absurdo das situações.

Fernando Fontana

Fernando Fontana é escritor e adulto amador, criador do Site Super Ninguém e colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre filmes e quadrinhos antigos. Tá sabendo da novidade? Somos parceiros da Amazon. Vai comprar na Amazon? Utilize o código: canalmetali06-20! e dê uma força para o canal.

Artigos relacionados

Deixe uma resposta

Verifique também
Fechar
Botão Voltar ao topo