Coluna F3

Laura Dean vive num relacionamento tóxico

Laura Dean vive terminando comigo pode ser considerado um dos melhores quadrinhos lançados em 2020 por figurar na lista de melhores do ano de diversos booktubers, críticos e interessados em HQs. A escritora Mariko Tamaki é a autora por trás de obras de ótima qualidade como Aquele Verão e a Arlequina: Quebrando Vidraças. Ao seu lado está a artista Rosemary Valero-O’Connell com um traço muito delicado e limpo que casa magistralmente com o texto. A arte chama atenção pela predominância do preto e branco, acompanhada de muitos tons de cinza e rosa que retratam as emoções intensas que surgem durante a transição entre adolescência e a fase adulta, além das incertezas que aparecem nos primeiros relacionamentos.

A trama gira em torno de Frederica “Freddy” Riley uma garota insegura que não gosta muito de si mesma, não é muito popular, mas possui alguns amigos próximos que tentam em meio a seus próprios dramas pessoais ajudá-la. A protagonista é apaixonada pela jovem Laura Dean, o seu oposto, uma garota mais segura, mais extrovertida e com um círculo social muito maior. As duas não possuem uma relação muito saudável pois Laura além de não respeitar Frederica, a trai, não se dá bem com seus amigos e está sempre pronta para próxima balada, preferencialmente sem Freddy, agindo conforme sua vontade e nunca se preocupando de fato com a nossa heroína.

Essas idas e vindas amorosas acabam abalando a confiança e o mundo de Frederica, pois basta um pequeno aceno de Laura que Freddy esquece de tudo e de todos, centrando seu universo em alguém que a usa e depois a descarta. Assim em um determinado dia tentando se livrar desse estigma Freddy procura os serviços de uma mística local, uma vidente que dá conselhos amorosos que não são bem-aceitos por ela. Todavia, essa solução apresentada (terminar com Laura) indiretamente mexe com a menina que passa a se questionar sobre os rumos de seu namoro, visto que seu coração está gradativamente ficando mais destruído, uma imposta autodestruição que aos poucos ameaça até o seu relacionamento com seus amigos.

Enquanto Freddy esquece do mundo para estar ao lado de Laura, a recíproca não é verdadeira, essa dinâmica afeta o relacionamento de Freddy com sua melhor amiga Doodle, que de forma sarcástica tenta mostrar como esse namoro é tóxico, ela é de longe quem mais acaba sendo afetada por ele, uma vez que Freddy só tem olhos para sua suposta namorada. Doodle começa a se distanciar de Frederica, pois ela mesma está passando por situações desagradáveis e não pode nem mesmo ter a atenção de sua amiga presa num ciclo destrutivo. Mariko e Rosemary apresentam um relacionamento tóxico, mostrando como é difícil sair dele, como é pesaroso se desapegar de algo que estamos acostumados e tentar melhorar nossa condição de vida através de escolhas mais saudáveis.

O texto de Tamaki é simplesmente encantador cada personagem possui uma voz própria, não parecem ser apenas uma voz vinda da autora. Há uma verdadeira tentativa de retratar a situação do adolescente atual, mostrando que o uso da tecnologia serve tanto para se conectar como para se desligar do mundo. Uma das mais interessantes qualidades de seus personagens é que eles parecem jovens já que saem em baladas, se embriagam, ficam de birra com situações que parecem banais, cometem gafes, erram, sentem muita vergonha do que fizeram e do que deixaram de fazer. Há também o retrato de uma geração que aceita a diversidade sexual, não há um questionamento sobre a comunidade LGBT, sim é mostrado um ou outro conflito, mas a problemática principal está na existência de um relacionamento tóxico e não na conduta sexual. A autora busca mostrar a necessidade de desenvolver a autoestima para não ficar presa a uma espécie de amor que não é recíproco e sim prejudicial, uma situação mais universal.

Rosemary por sua vez possui um traço simplesmente encantador, lembra muito o estilo de animações, contudo há também alguma influência do mangá. Como disse anteriormente a obra é preto e branco com tonalidades cinzas, todavia em suas páginas há tons rosados que dão destaques as emoções dos personagens, ambientes, objetos e até as vestimentas. Isso sem falar que a matiz rosa também apresenta as sensações de alguém seja nos balões de fala ou nos diálogos dentro dos smartphones. É incrível controle de narrativa, ela não possui pressa em mostrar nenhum detalhe, os pequenos momentos são ilustrados, seja uma pequena troca de olhares, uma troca de carícias, um sorriso, um suspiro e até o desconforto da solidão. Além de tudo isso outra coisa a se destacar é o seu enquadramento, há uma apresentação muito eficiente de diferentes elementos visuais. Ela desenha tudo desde um plano mais geral e detalhado até alguns momentos pontuais, como pequenos detalhes da mão arrumando os cabelos, a posição desconfortável dos pés, a ausência de fundo para retratar ainda mais algum sentimento ou sutileza necessária para a cena, ela consegue usar quadros sem preenchimento como ninguém. É impressionante a maneira como Rosemary consegue mostrar as expressões faciais, todos os sentimentos são muito bem perceptíveis, resumindo é um trabalho visual espetacular.

Não há como dizer que essa não é uma bela obra de arte, uma HQ que retrata essa difícil fase, mostra o amadurecimento e como ele surge de situações bem desagradáveis. Temos aqui uma excelente combinação de arte e texto com personagens únicos e identificáveis, traz uma série de questionamentos que servem tanto para adolescentes como adultos que ainda estão presos a relacionamentos nem um pouco benéficos. Laura Dean vive terminando comigo é uma HQ fantástica não é à toa que conseguiu três prêmios Eisner em 2020 (para quem não sabe esta é a principal premiação dos quadrinhos nos EUA, seria o equivalente ao Oscar). É uma obra imperdível que vai agradar a todos sejam leitores ou não de histórias em quadrinhos. 

Fernando Furtado

Fernando Furtado, formado em cinema pela FAAP, estudou quadrinhos na Quanta Academia de Artes, fez curso sobre a história das HQs com Sônia Bibe Lyuten, oficina de roteiro para HQs com Lourenço Mutarelli, assistente editorial e tradutor na Brainstore editora. Atualmente professor de inglês e advogado.

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